Todos com uma kipá na cabeça contra o ódio antissemita

| 29 Mai 19

Imagem de um vídeo do jornal “Bild” a mostrar como se recorta a kipá. Foto: Direitos reservados

 

Uma kipá na cabeça contra o ódio anti-semita. Essa foi a proposta do jornal tabloide alemão Bild, que na primeira página da sua edição de segunda-feira, 27 de Maio, reproduziu uma foto de um solidéu judaico em tamanho real, que cada pessoa podia recortar para usar na sua cabeça. A ideia era, desse modo, usar a kipá e manifestar assim solidariedade com os judeus, vítimas cada vez mais frequentes de crimes de ódio na Alemanha. A tal ponto que Felix Klein, comissário do Governo alemão para o combate ao anti-semitismo, chegou a aconselhar os judeus a não usarem kipá em lugares públicos.

Na segunda-feira, o Bild, que vende 2,5 milhões de exemplares, escrevia, juntamente com a foto da kipá, conta a TSF:  “Se houver uma só pessoa no nosso país que não possa usá-la sem se colocar em perigo, a única solução é que todos o usemos.” A iniciativa do jornal repetia idênticas mobilizações promovidas em Janeiro e a 25 de Abril, pela comunidade judaica de Berlim, seguidas na altura em várias outras cidades alemãs.

Em Janeiro, um adolescente sírio atacou, num bairro de Berlim, um árabe israelita de 24 anos que tinha uma kipá na cabeça. A chanceler alemã, Angela Merkel, reagiu através de um vídeo, no qual censurava o crime anti-semita e pedia “tolerância zero”, justificando: “Não queremos que volte a acontecer e não vamos permitir que se repita”, referindo-se às perseguições do nazismo alemão contra os judeus, que levaram à II Guerra Mundial e ao Holocausto e ao assassinato de uns milhões de judeus (além de muitas outras pessoas) nos campos de extermínio. “As gerações mais novas devem saber o que a Humanidade foi capaz de fazer no passado, e trabalhar de forma pró-activa para que não se volte a tornar real.”

Ainda de acordo com a TSF, Felix Klein afirmou na CNN que o anti-semitismo “sempre existiu na Alemanha”, mas “agora está a mostrar abertamente a sua faceta mais feia”. E acrescentava: “A palavra ‘judeu’ como insulto não era comum quando eu ia para a escola. Agora é, e até é um insulto em escolas onde não há estudantes judeus.”

O departamento do Governo federal alemão responsável pelo combate ao anti-semitismo foi criado em 2018 e estabeleceu já um sistema nacional de denúncias de crimes de natureza xenófoba contra a comunidade judaica. Um relatório do Ministério do Interior alemão refere que estes crimes aumentaram 20 por cento, em 2018 e os ataques físicos passaram de 37, em 2017, para 62, em 2018.

O ministro Horst Seehofer relatou que 90% dos casos foram protagonizados por elementos de partidos da extrema-direita.

Seehofer afirmou também, em conferência de imprensa realizada já este mês, que esta é “uma realidade com que temos de lidar, especialmente neste país”. Este “é um trabalho para a polícia, mas também para toda a sociedade”, disse, acrescentando não ser “aceitável que os judeus tenham de esconder a sua fé na Alemanha”.

 

“Demonstração patética de falência do Estado de direito”

O responsável pelo departamento de combate ao anti-semitismo, Felix Klein, admitiu: “A minha opinião infelizmente mudou. Já não posso dizer aos judeus que usem kipá, sempre que queiram e em todos os lugares.” Este responsável está interessado em que a polícia e outros responsáveis tenham treino específico contra crimes xenófobos desta natureza. E revelou que há “muita controvérsia entre a polícia e os funcionários do Governo sobre como lidar com o anti-semitismo”: há funcionários que não sabem o que é ou não é permitido.

As declarações de Klein provocaram, no entanto, uma polémica quer no interior da Alemanha, quer no exterior, sobre os limites entre segurança e liberdade religiosa. Michel Friedman, antigo presidente do Congresso Judaico Europeu, criticou as afirmações de Klein, em declarações ao New York Times: “Quando um representante do Governo diz expressa e oficialmente à comunidade judaica que esta não se encontra segura diante do ódio em toda a Alemanha, isso é uma demonstração patética de falência do Estado de direito”, disse, citado na TSF.

No La Croix International, o Presidente israelita, Reuven Rivlin, manifestou-se “chocado” com as palavras de Klein, que dessa maneira se curvava perante os racistas, acusou. “Os temores sobre a segurança dos judeus alemães são uma capitulação ao anti-semitismo e uma admissão de que, novamente, os judeus não estão seguros em solo alemão”, disse. “Nós nunca iremos submeter-nos e esperamos e pedimos aos nossos aliados que ajam da mesma maneira.” E Richard Grenel, embaixador norte-americano na Alemanha, interveio no debate, através da sua conta no Twitter, argumentando que o posicionamento deveria ser o contrário: usar a kipá e mobilizar outras pessoas a fazer o mesmo.

Interior da Sinagoga de Bordéus. Foto © Eduardo Jorge Madureira

 

O crescimento do anti-semitismo não é um exclusivo da Alemanha e há casos registados em vários países da Europa. Em França também se verificaram incidentes que incluíram vandalismo em cemitérios judaicos, insultos nas ruas e outros ataques – em 2018, o aumento do número de casos foi na ordem dos 74%.

Claudi Vanoni, um dos mais importantes especialistas em anti-semitismo na Alemanha, diz, em declarações à AFP citadas na TSF, que essa atitude continua “profundamente enraizada” na Alemanha. “O anti-semitismo sempre esteve presente. Mas penso que, recentemente, se tornou novamente mais gritante e agressivo.”

Na Alemanha há cerca de 200 mil judeus, muitos deles originários da Europa Oriental e da Rússia, de onde chegaram depois do fim da União Soviética.

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