Desde que cheguei à Argentina como Imã da Comunidade Muçulmana Ahmadia, há mais de sete anos, que pude sentir o carinho das pessoas de cá pelo Papa Francisco. A eleição de Jorge Bergoglio em 2013 como chefe supremo da Igreja Católica foi um momento histórico, pois tornou-se a primeira pessoa da América do Sul a ser eleita para esta função após quase dois mil anos.
Muitos argentinos identificam-se com ele porque, apesar de ocupar o mais alto posto na hierarquia eclesiástica, continua a ser muito acessível às pessoas comuns e mantém um estilo de vida humilde e austero. Eu próprio ouvi os testemunhos de muitos que me contaram com orgulho como costumavam trocar algumas palavras com ele, quando era arcebispo de Buenos Aires, enquanto viajavam de metro ou de autocarro. Outros disseram-me que receberam uma carta pessoal ou uma relíquia enviada por Francisco do Vaticano. Além disso, não só os católicos, mas também os seguidores de outras religiões o admiram pelo seu empenho na harmonia inter-religiosa.
Por tudo isto, durante a minha estadia nesta capital, ouvi tantas coisas positivas sobre Bergoglio que também eu desenvolvi uma certa admiração por ele enquanto pessoa, embora nunca tenha imaginado mais nada para além disso.
Quis o destino que as atividades inter-religiosas nas quais me tenho envolvido, especialmente entre grupos muçulmanos e judeus, despertassem o interesse do Sumo Pontífice, e tive então a honra, em representação da Comunidade Ahmadiyya, de o conhecer pela primeira vez numa audiência privada em setembro de 2022. Este primeiro encontro, que durou quase 40 minutos, deixou uma profunda impressão no meu coração. Nos dias que antecederam a audiência, estudei extensivamente a sua encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos), que aborda a importância do diálogo e da fraternidade universal. No entanto, o encontro ao vivo permitiu-me transformar o conteúdo do texto numa experiência real, onde senti aquela fraternidade humana e espiritualidade genuína.
Um momento maravilhoso da nossa conversa foi quando tive a oportunidade de lhe dar o Sagrado Alcorão e de lhe apresentar o Capítulo 19, que é muito relevante para os católicos porque é inteiramente dedicado à Virgem Maria. O Papa contou-nos que, certa vez, durante uma visita a um país muçulmano, ficou surpreendido ao ser convidado para ir a uma mesquita chamada “Maria” (Mariam em árabe). Então, disse-lhe que a Virgem Maria é de grande importância para os muçulmanos, pois é um modelo de castidade e lealdade a Deus Todo-Poderoso para todos os crentes.
No entanto, o momento mais auspicioso da audição para mim foi quando entreguei a carta pessoal que o Califa da Comunidade Ahmadia, Sua Santidade Mirza Masroor Ahmad, lhe tinha escrito. O Papa apreciou muito este gesto e, em resposta, dedicou-lhe também um exemplar do seu livro Fratelli Tutti, dizendo: “A Mirza Masroor Ahmad, com afeto fraterno. Francisco.” Sinto-me honrado por ter servido de ponte de comunicação entre dois líderes mundiais que apoiam as suas pregações com os seus próprios exemplos.

As ofertas que o Califa da Comunidade Ahmadia, Mirza Masroor Ahmad, e o Papa Francisco trocaram através do imã Marwan Gill. Foto: Direitos reservados
No ano passado, tive a oportunidade de me encontrar com o Papa Francisco mais duas vezes. Durante estas visitas, discutimos em particular as guerras na Ucrânia e em Gaza, que lançaram uma sombra sobre a harmonia global. Num mundo onde cada vez mais vozes parecem preferir regressar à era das “cruzadas medievais” ou à divisão entre “Ocidente e Oriente”, o slogan “Todos Irmãos” convoca-nos e mostra que a solução não passa por construir mais muros, mas sim mais pontes.
Para resumir, sinto que, como muçulmano e teólogo, a mensagem desta encíclica me desafia particularmente, e concordo que as diferenças teológicas, ideológicas ou políticas não podem ser desculpas para nos distanciarmos uns dos outros, mas devem aproximar-nos do diálogo.
Vale a pena acrescentar que o diálogo não consiste em renunciar à própria identidade ou negar os próprios princípios, mas sim em escutar e procurar o encontro com “o outro”. A dissidência e as diferenças de opinião são o próprio ADN da nossa identidade, especialmente quando se trata de política entre nações num mundo injusto onde a humanidade se está a tornar cada vez menos humana.
No entanto, se iniciarmos um diálogo observando as diferenças, acabaremos sempre por ficar presos num labirinto, sem progresso. Já se embarcarmos numa troca baseada no reconhecimento das diferenças, mas com um olhar focado nas semelhanças, as águas de vários rios podem acabar por desaguar no mesmo mar.
O Sagrado Alcorão, no capítulo 3, versículo 65, realça que é essencial que as religiões estejam em harmonia e sublinha que, enquanto muçulmanos, é nossa responsabilidade construir pontes para procurar valores comuns que nos unam a todos enquanto judeus, cristãos, muçulmanos ou seguidores de qualquer religião. Com base nesta diretriz corânica, convido todos a ouvir o “outro” em vez de ignorar, a dialogar em vez de discutir, a partilhar em vez de competir, a conhecer em vez de pré-julgar.
Em suma, celebro a recuperação do Papa Francisco, tal como celebro o seu trabalho na promoção do diálogo e da unidade entre as diferentes religiões e povos do mundo.
Marwan Gill é imã (teólogo islâmico) e presidente da Comunidade Muçulmana Ahmadiyya na Argentina. No passado mês de outubro, deu uma entrevista ao 7MARGENS, que pode ser lida aqui. Este testemunho foi inicialmente publicado no Religión Digital.










