Todos os avós precisam de um neto

| 25 Jun 2021

Nas Margens da Filosofia – XXXIV
Cartaz Avós

“Todos os dias me irrito com este pedido que transforma os avós em deficientes motores, com muletas e bengalas”. Foto © 7Margens.

 

“Todos os avós precisam de um neto” é o título de um painel lisboeta, no início da Avenida Miguel Torga, quando se desce em direcção a Benfica. Passo por ele quase todos os dias, pois é perto de minha casa. E todos os dias me irrito com este pedido que transforma os avós em deficientes motores, com muletas e bengalas. Na imagem que nos é apresentada há três velhos – uma avó e dois avôs que não se sustentam em pé sem ajuda de apoios. Um pormenor curioso: todos têm sapatos iguais com atacadores, só falta promover a marca dos ditos.

É um retrato com o qual não me identifico e que penso ser injusto para com um tipo de pessoas indispensáveis à manutenção da sociedade. Mais depressa aceitaria o texto que há anos atrás circulou num jornal do Cartaxo, atribuído a uma menina de oito anos no qual é dito:

“Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem ‘Despacha-te!’. Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam histórias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós. Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó, sobretudo se não tiver Televisão.

Fui avó com cinquenta anos e presentemente, na casa dos setenta, tenho dois bisnetos. Continuo a andar sem próteses, pelo que recuso a imagem do cartaz. De igual modo contesto o retrato anedótico traçado pela pseudo-menina de oito anos que presumo nunca ter existido.

Pensando nos avós da minha geração vejo-os como seres activos e colaborantes, passeando netos, indo buscá-los à escola, levando-os a visitar museus, ajudando-os nos trabalhos de casa e dando-lhes explicações. Posso afirmar que na maior parte das famílias portuguesas os avós desempenham um papel de auxiliares e não de auxiliados.

O que de modo algum leva à contestação do título do cartaz, pois há áreas em que a ajuda dos netos é imprescindível, nomeadamente na adaptação às novas técnicas informáticas. Muito mais do que ajudar a andar ou a endireitar bengalas, os avós precisam da paciência infinita dos netos para que eles os ensinem a lidar com os novos meios de comunicação pois constantemente lhes pedem ajuda para organizar o Facebook, reparar asneiras informáticas, ensinar técnicas de zoom e de outros sistemas que permitam comunicar à distância.

Os avós desta nova era pedem aos netos disponibilidade, capacidade de resposta imediata, indiferença às constantes repetições e paciência, muita paciência, pois as diferentes aprendizagens nunca são definitivas e recomeçam incessantemente. Podemos dizer que o muito que hoje aprendemos com os netos surge como uma espécie de paga pelas histórias que lhes contámos, pelas lições que lhes demos, pelas visitas que com eles fizemos a locais históricos e a museus, pelas múltiplas idas a teatros e cinemas infantis, assistindo pela enésima vez ao casamento da carochinha ou ao triunfo dos caçadores sobre o lobo mau. A vida não acaba quando se inicia a reforma. Porque esta é uma etapa diferente, em que muita gente descobre potencialidades desconhecidas e participações sociais até então não experimentadas.

Na sua obra Aging and the Art of Living [1], o filósofo holandês Jan Baars insurge-se com o facto de se considerar os mais velhos como uma faixa etária problemática onde as éticas do cuidado teriam um lugar privilegiado. Para ele é um erro inseri-los numa categoria específica pois há uma variedade de circunstâncias e de vivências que impede esta abordagem monolítica. Por isso considera que uma cultura do envelhecimento admite diferentes narrativas, num respeito pelas circunstâncias, pelos casos e pelas personalidades individuais. Embora Baars reconheça a inevitabilidade do tempo cronológico, os seus interesses vão no sentido de privilegiar a experiência pessoal e inter-pessoal do fluir dos anos, na qual cada indivíduo deixa a sua marca própria.

Desse modo, o filósofo obriga-nos a reflectir sobre o incremento da indústria anti-envelhecimento, manifesta na proliferação de produtos que asseguram uma crescente juventude. Recorrendo à filosofia e analisando os Estóicos – nomeadamente a obra de Cícero De Senectute – Baars aconselha os velhos a procurar o sentido da vida, a aceitar a vulnerabilidade da condição humana, a escolher relacionamentos que favoreçam os afectos. Movendo-se no círculo de uma filosofia secular, Jan Baars omite os valores religiosos e o seu peso no entrosamento com perspectivas sociais e culturais.

Diferente é o posicionamento do Papa Francisco, na sua encíclica Frateli Tutti que tem como subtítulo Sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Aqui também os velhos são lembrados quando fala do abandono a que são votados na nossa sociedade do descarte, situação que se agravou com o surgimento do coronavírus. Por isso escreve:

“Não nos damos conta de que isolar os idosos e abandoná-los à responsabilidade de outros sem um acompanhamento familiar adequado e amoroso mutila e empobrece a própria família. Além disso, acaba por privar os jovens daquele contacto que lhes é necessário com as suas raízes e com uma sabedoria que a juventude, sozinha, não pode alcançar.”[2]

Regresso ao ponto de partida, ou seja, ao cartaz onde os avós aparecem como carentes de um neto. E aproveito para mais uma vez aprovar este pedido, recusando no entanto a imagem que o suporta.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira (avó de sete netos e dois bisnetos) é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

[1] Jan Baars, Aging and the Art of Living, Baltimore, John Hopkins University Press, 2012.
[2] Papa Francisco, Fratelli Tutti, Lisboa, Paulinas Editora, 2020, cap. I, § 19, pgs. 16,17.

 

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