[Crónica]

Todos os nomes

| 6 Abr 2024

O padre José Vieira com etíopes: muitos nomes ganhos. Foto: Direitos reservados.

O padre José Vieira com etíopes: muitos nomes ganhos. Foto: Direitos reservados.

 

Não, esta crónica não é sobre o romance de José Saramago que mais me custou a ler. É sobre os muitos nomes que ganhei com a minha estada na Etiópia.

 

Abba Yooseefi. Abba significa pai e por extensão padre, embora na nova tradução do Pai-nosso em vez de Abba rezemos Abbo. Yooseefi é a forma guji de José. O nome vem do hebraico Yowceph (com a tradução grega de Iosef) e significa «Ele [Deus] acrescenta» ou «Deus multiplica». E Deus não pára de acrescentar na minha vida a sua ternura, misericórdia e graça. Herdei o nome do meu padrinho José, o marido da falecida tia Arnalda, a irmã mais nova do meu pai e minha madrinha. Era assim naquele tempo. Os gujis nomeiam os filhos de acordo com as circunstâncias da sua gestação e nascimento. A nossa cozinheira chama-se Guyyate porque nasceu à uma da tarde quando a manhã (bari) passa a ser dia (guyya). A irmã mais pequena chama-se Bontu, porque nasceu gordinha.

Abba Joe. Este é o nome porque sou conhecido em inglês. Joe é a forma abreviada de Joseph, o nosso Zé.

Farenji/Farenjicha. Farenji significa estrangeiro em amárico. Farenjicha é a versão guji. Uma das suas raízes possíveis é French (francês). Os galeses construíram a via-férrea que liga Adis-Abeba ao Jibuti através de Dire Dawa há mais de cem anos. Farenji é o antónimo de habesha, o termo pelo que os etíopes se designam a si próprios e marca de uma boa cerveja. Tecnicamente, habesha é o nome dos povos etíopes de origem semita, que vêm do cruzar de povos locais com migrantes da Península Arábica: amaras, tigrinos e guragues… Abissínia, a terra dos habesha, era o nome da Etiópia até ao século XIX antes de o país englobar os povos do sul. A palavra também entrou na língua portuguesa: abexim é sinónimo de etíope. Já etíope vem do grego e significa rosto(s) queimado(s), palavra que designa na Bíblia os habitantes a sul do Egito (Sudão, Etiópia). A famosa rainha de Sabá tanto poderia ser etíope como sudanesa, do reino de Meroé onde as rainhas eram chamadas Kandake.

China. Esta é a nova maneira de os miúdos – e os graúdos em menor escala – chamarem os estrangeiros brancos. Ouvi-a pela primeira vez em Adis-Abeba na tarde em que cheguei ao país há dois anos. Quando me chamam «China» eu respondo «China, não. Portugal!» (ou Burtukan que é a forma etíope de dizer Portugal e significa laranja). Os chineses têm uma presença muito notada no país através da construção de infra-estruturas (auto-estradas, estradas, vias-férreas – renovaram e electrificaram a linha do Jibuti e montaram um metro de superfície na capital, fábricas, linhas de alta tensão, etc.). Uma presença em quase toda a África. Os chineses são os novos senhores do continente negro mais interessados nas matérias-primas (petróleo e outros minerais, madeira, etc.) em troca de empréstimos ou de construção de infra-estruturas. Quando os estados não pagam as dívidas tomam conta e gerem em proveito próprio as infra-estruturas locais (portos, aeroportos, auto-estradas, etc.) dadas como garantia para os empréstimos.

Padre José Vieira numa reunião: Oito nomes para a mesma pessoa. Foto: Direitos reservados.

Padre José Vieira com um grupo a debulhar milho: oito nomes para a mesma pessoa. Foto: Direitos reservados.

 

Petros. Este é o nome que me chamam na zona de Anfarara, uma aldeia que está a uns 25 quilómetros de Qillenso a caminho de Adola. O comboniano mexicano P. Pedro Pablo Hernández — conhecido em guji como Abba Petrosi — abriu em Anfarara um catecumenato durante algum tempo. Ser branco é ser Petros!

Lio. Na picada através da floresta para a missão de Soddu Abala — filha da missão de Qillenso onde vivo — a pequenada grita «Lio, Lio» quando vê o veículo passar. O P. Leonardo d’Alessandro, um sacerdote da diocese de Bari que trabalha como missionário na Etiópia há trinta anos, foi pároco de Soddu Abala durante muito tempo. É conhecido como Abba Leo.

Beka. Junto do bairro onde as Missionárias da Caridade vivem e têm o centro de acolhimento para doentes terminais e bebés rejeitados, nos arredores de Adola, a pequenada quando vê o todo-o-terreno que conduzo desata a gritar «Beka, Beka». É o nome do condutor das missionárias que têm um veículo igual.

You you. Tu, tu em inglês. Há 30 anos, quando cheguei à Etiópia pela primeira vez, ao verem um estrangeiro os miúdos entoavam a lengalenga: «You, you, you! Money, money, money!», «Tu, tu, tu! Dinheiro, dinheiro, dinheiro!». Agora ficam-se pelo «You, you!» quando querem chamar a minha atenção.

Oito nomes para a mesma pessoa! Sou rico de nada!

José Vieira é padre e missionário comboniano na Etiópia desde Outubro 2021; anteriormente trabalhou na Etiópia (1993-2000) e no Sudão do Sul (2006-2013).

 

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