Mais de 150 cristãos LGBTQ+ são esperados em Chipiona, no sul de Espanha, entre esta sexta-feira, 9 de outubro, e o próximo domingo, para o XV Encontro de Crentes LGBTQ+, que este ano adota uma dinâmica inspirada no processo sinodal da Igreja Católica. “Todos, todas, todes” é o lema escolhido para a iniciativa, que decorrerá na Casa de Espiritualidade Nuestra Señora de Regla, dos franciscanos.
O encontro, que nasceu em 2010 dirigido sobretudo a cristãos homossexuais da Andaluzia, foi-se abrindo progressivamente a participantes de outras regiões espanholas e de Portugal. A edição de 2025 não se realizou, para permitir que os participantes viajassem juntos a Roma por ocasião do Jubileu.
A organização da edição deste ano está a cargo de Miguel Ángel Sosa González, presidente da Pastoral para a Diversidade Sexual (PADIS), das Canárias. Segundo declarações recolhidas pela revista espanhola Vida Nueva, o encontro pretende ser um espaço de escuta e discernimento, seguindo a metodologia dos pequenos grupos utilizada no processo sinodal da Igreja Católica iniciado em 2021.
A reflexão será orientada pela religiosa María Luisa Berzosa e pelo teólogo Eloy Bueno de la Fuente, dois dos “não bispos” escolhidos pelo Papa Francisco para participar nas assembleias do Sínodo sobre a Sinodalidade. Ambos deverão agora ajudar os participantes neste encontro a refletir, em primeiro lugar a partir das próprias comunidades LGBTQ+, sobre a sua presença e participação no caminho sinodal da Igreja.
“Não estamos aqui para julgar a Igreja nem para colocar pedras no seu caminho, mas para trabalhar por uma Igreja sinodal, com o desejo de que todos possamos formar uma única comunidade”, resume Sosa González, citado pela Vida Nueva.
Cinco temas para os grupos

Os organizadores do encontro defendem um acompanhamento pessoal e espiritual que permita integrar a orientação sexual ou a identidade de género com a vida de fé, “de forma respeitosa e sem julgamentos”. Foto: Direitos reservados, via revista Vida Nueva
Ao longo dos três dias, os participantes irão trabalhar cinco grandes áreas temáticas: articulação em rede, acompanhamento, acolhimento, educação e pastoral.
Na área da articulação em rede, os organizadores pretendem retomar o trabalho desenvolvido através da iniciativa Entrelazados, criada em Espanha no contexto do processo sinodal, procurando reforçar a ligação entre os diferentes grupos de crentes LGBTQ+ e promover uma ação conjunta nas comunidades cristãs e paróquias que os acolhem.
O acompanhamento deverá incluir, entre outras dimensões, apoio psicológico especializado, grupos de ajuda mútua, espaços de acolhimento para pessoas em situações de vulnerabilidade e apoio jurídico em casos de discriminação.
Os organizadores defendem também a existência de “espaços seguros” que promovam a autoestima, a visibilidade e a gestão das emoções, sublinhando a importância do apoio familiar e de um acompanhamento pessoal e espiritual que permita integrar a orientação sexual ou a identidade de género com a vida de fé, “de forma respeitosa e sem julgamentos”.
Na área da educação, o encontro pretende discutir formas de combater a discriminação e promover a igualdade, incluindo a diversidade afetivo-sexual e de género nos processos educativos, prevenindo situações de bullying e proporcionando às crianças e jovens ambientes considerados seguros e livres de preconceitos.
A pastoral será, por sua vez, abordada a partir da perspetiva do acolhimento, inclusão e participação das pessoas LGBTQ+ na vida das comunidades cristãs.
“Uma mudança significativa de tom” com Francisco

Os promotores do encontro veem no percurso do Papa Francisco uma tentativa de construir uma Igreja “mais compassiva e menos inclinada à condenação”. Foto: Direitos reservados
Uma coisa é certa, consideram os promotores do encontro: o pontificado de Francisco representou, para os cristãos LGBTQ+, “uma mudança significativa de tom”, sobretudo pela maior ênfase no acolhimento e na distinção entre a pessoa e os seus atos.
Recorde-se, neste contexto, a afirmação feita por Francisco em 2013, no regresso da viagem ao Brasil: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar?”.
Os organizadores apontam ainda a condenação, pelo Papa argentino, das leis que criminalizam a homossexualidade, bem como a declaração Fiducia supplicans, publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé em 2023, que abriu a possibilidade de bênçãos pastorais a casais em situações irregulares, incluindo casais do mesmo sexo. Para Sosa González, este documento constituiu mesmo uma “mudança histórica”.
Outro marco identificado pelos organizadores é a insistência de Francisco numa Igreja aberta a todos, expressa de forma particularmente veemente durante a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, em 2023, através da célebre expressão “Todos, todos, todos”, que os responsáveis por este encontro adaptaram agora para “Todos, todas, todes”.
Os organizadores recordam ainda o apelo do Papa às famílias para que acolham os filhos homossexuais e não os afastem por causa da sua orientação sexual.
Segundo a análise publicada pela Vida Nueva [versão completa exclusiva para assinantes], os promotores do encontro veem neste percurso uma tentativa de construir uma Igreja “mais compassiva e menos inclinada à condenação”, mantendo, contudo, a doutrina católica sobre a moral sexual.
Bispos sem presença, mas com interesse
O encontro não contará com uma presença episcopal explícita, embora alguns bispos tenham manifestado interesse pela iniciativa e justificado a sua ausência junto da organização. “Esperamos que, no futuro, o seu apoio seja mais evidente”, afirma Sosa González à revista espanhola.
Existem atualmente, segundo os organizadores, 15 grupos de crentes LGBTQ+ ativos em Espanha, que procuram aprofundar a sua participação na vida eclesial.
“Temos feito progressos na nossa participação na vida eclesial em Espanha”, afirma Sosa González. O objetivo, acrescenta, é continuar esse caminho, permitindo aos leigos LGBTQ+ participar na Igreja “da mesma forma que todos os outros”, sem que a sua orientação sexual seja considerada um fator de diferenciação.
A organização espera também que o pontificado de Leão XIV prossiga “na direção do acolhimento e não da condenação” das pessoas LGBTQ+.
O encontro de Chipiona pretende, assim, ser não apenas um espaço de reflexão sobre a realidade dos cristãos LGBTQ+, mas também uma oportunidade para reforçar a articulação entre os grupos existentes em Espanha e Portugal e pensar formas de aprofundar a sua participação na vida das comunidades católicas.










