“Todos, todos, todos”

| 15 Ago 2023

Papa Francisco. Foto © JMJ Lisboa 2023

Papa Francisco: “Rapazes e raparigas, somos amados tal como somos, sem maquilhagem, entendem isto? Não vos ouço. (…) na Igreja ninguém está a mais, há espaço para todos. Repitam comigo. Quero que digam na vossa própria língua: todos, todos, todos.” Foto © JMJ Lisboa 2023

 

Muitas foram as mensagens do papa, nas JMJ de Lisboa, dignas de ser recordadas. Porém, gostaria de ressaltar a que mais me tocou, porque, a meu ver, se refere ao âmago da mensagem de Jesus de Nazaré. Refiro-me ao já célebre apelo do papa: “Na Igreja há espaço para todos” e à sua dimensão inclusiva e universal, sem exclusões de espécie alguma. Na Igreja cabem - têm de caber — realmente todos, se quisermos que a Igreja seja efetivamente a comunidade dos que desejam pôr em prática as palavras do profeta galileu. Vejamos o texto do discurso de Francisco:

“Rapazes e raparigas, somos amados tal como somos, sem maquilhagem, entendem isto? Não vos ouço. (…) na Igreja ninguém está a mais, há espaço para todos. Repitam comigo. Quero que digam na vossa própria língua: todos, todos, todos.”

As palavras do papa são suficientemente claras na sua pungência interpelativa. Não há grandes dúvidas quanto à sua intencionalidade: na Igreja de Cristo não são admissíveis quaisquer discriminações, sejam elas de que ordem for; a Igreja está de portas abertas a todos os que nela quiserem entrar.

Francisco compreendeu que não é aceitável barricarmos a Igreja através da vinculação à lei, relegando para segundo plano a graça e o amor de Deus. Todos sabemos como a lei pode ser um instrumento de defesa dos mais vulneráveis, mas também tem sido efetivamente um poderoso meio para distinguir, discriminar e excluir os que a ele não se conformam. Durante demasiado tempo foi esse, infelizmente, o papel atribuído à lei no interior da Igreja: um poderoso instrumento de exclusão das mulheres das funções mais proeminentes, dos dissidentes da teologia oficial, dos homossexuais, dos divorciados recasados, etc. E tudo isto ao arrepio do comportamento inclusivo de Jesus.

Ao contrário dos mestres do seu tempo, Jesus não só não excluía as mulheres dos seus ensinamentos como as incluía no grupo dos discípulos itinerantes e mantinha relações de grande comunhão e proximidade com pecadores públicos, doentes, estropiados, sem-abrigo, prostitutas, estrangeiros, adúlteras, etc. Era, portanto, com gente de má vida que Jesus confraternizava, oferecendo-lhes gratuitamente o acolhimento e o amor de Deus, sem lhes exigir previamente qualquer penitência purificadora. A Igreja, pelo contrário, foi insistindo cada vez mais na necessidade de os crentes se conformarem com o código legal como condição da sua entrada ou permanência no corpo eclesial. O resultado foi o regresso da Igreja ao legalismo casuístico próprio do fariseísmo contra o qual Jesus se havia revoltado, como se Cristo não houvesse relativizado todos os mandamentos tendo como ponto de referência o núcleo central da vontade de Deus: o amor a Deus e ao próximo.

O papa Francisco veio assim cristianizar a Igreja, depois de um longo período de obscurecimento da vida cristã, rigidamente submetida ao sufocante espartilho da lei. É neste contexto mais amplo, histórica e teologicamente situado, que deve ser, do meu ponto de vista, interpretado o discurso de Francisco.

Houve quem viesse imediatamente sugerir uma interpretação anódina desse discurso, à luz da resposta que deu à pergunta que lhe foi dirigida durante a viagem de regresso a Roma. Os que o fizeram, mostraram não ter compreendido o alcance do que o papa quis efetivamente dizer! De tão vinculados que estão à maneira “virtuosamente legal” de viver em Igreja - fortemente estimuladora de comportamentos hipócritas na profunda dissociação entre o que se prega e o que se faz -, tudo quanto seja proposto em sentido oposto é reinterpretado no sentido mais inócuo e inconsequente, bem distante da intenção manifestamente reformista do papa. Ora a insistência do papa na inclusão de todos tem de nos fazer pensar se daí não decorre o necessário repensamento das estruturas eclesiais e da sua forma de atuação. Que sentido poderia ter dar lugar a todos na Igreja ao mesmo tempo que os crentes são catalogados segundo o seu grau de adequação à lei? O que significa realmente abrir as portas a todos ao mesmo tempo que se lhes fecha a porta da comunhão eucarística ou de qualquer dos outros sacramentos? Refiro-me obviamente à ordenação das mulheres, à plena inclusão dos que se identificam com alguma das letras da sigla LGBT+, à comunhão com os irmãos de outras denominações cristãs (por que razão lhes é ainda negada a comunhão eucarística?), etc.

Alguns terão a tentação de referir que a pertença à Igreja não pode ser oferecida a “preço de saldo”. Mas não é exatamente a “preço de saldo” que Deus nos ama e nos oferece a sua salvação? Não é inteiramente gratuito esse dom imerecido? E quem se salvaria, caso Deus exigisse previamente o pagamento em comportamentos meritórios? Ora é exatamente porque não o merecemos que Deus nos oferece gratuitamente a sua vida e o seu amor. Infelizmente, os “puros” que conduziram Jesus ao Calvário por causa da sua ousadia ainda andam por aí nas instâncias mais altas da Igreja que se reclama do nazareno.

Há que ouvir Francisco. Há que ouvir o evangelho. Há que converter o coração à misericórdia absoluta de Deus. Sem hesitações nem receios, porque só quem se sente inteiramente amado e acolhido estará disponível para crescer humana e espiritualmente.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This