Vítimas criticam Papa em carta aberta

“Todos, todos, todos”, menos “os que recordam verdades incómodas”

| 19 Set 2023

Carta aberta publicada no site #italychurchtoo. Foto Direitos reservados

A carta aberta está publicada no site #ItalyChurchToo, uma plataforma de coordenação de organizações e associações relacionadas com os abusos na Igreja. Foto: Direitos reservados.

 

Cinco mulheres que se assumem como sobreviventes dos abusos do padre Marko Rupnik dizem-se escandalizadas com o teor do comunicado emitido pela Diocese de Roma e pelo facto de o Papa ter recebido dias antes a atual diretora do Centro Aletti e nunca ter tido um gesto para com as vítimas de abusos daquele presbítero, recentemente expulso da Companhia de Jesus.

“A audiência privada, depois tornada pública através de imagens que apareceram na web, concedida pelo Papa a Maria Campatelli, ex-freira da Comunidade Loyola e atual presidente do Centro Aletti; e o comunicado (…) com o relatório conclusivo da visita canónica feita à comunidade do Centro Aletti deixam-nos sem palavras, sem voz para gritar a nossa consternação, o nosso escândalo”, começa por afirmar uma carta aberta das cinco vítimas.

A tomada de posição é dirigida, além do Papa, ao cardeal vigário Angelo De Donatis, ao presidente da Conferência Episcopal Italiana, cardeal Matteo Zuppi e ao prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, cardeal João Braz de Aviz, sendo subscrita por cinco mulheres: Fabrizia Raguso, professora associada de Psicologia; Mira Stare, doutorada em Teologia pela Universidade de Innsbruck; Gloria Branciani, licenciada em Filosofia; Vida Bernard, licenciada em Teologia; e Mirjam Kovac, doutorada em Direito Canónico.

Acerca do teor da nota do cardeal vigário de Roma sobre Rupnik e da audiência papal à diretora do Centro Aletti, a teóloga Maria Campatelli, uma ferrenha defensora da inocência de Rupnik, as cinco autoras da carta aberta concluem que “a Igreja não se preocupa com as vítimas e com aqueles que procuram justiça; e que a ‘tolerância zero em relação aos abusos na Igreja’ não passou de uma campanha publicitária, que, em vez disso, foi seguida por ações frequentemente encobertas, que, pelo contrário, apoiaram e encobriram os abusadores”.

“Afinal não há lugar nesta igreja para aqueles que recordam verdades incómodas”, diz o texto, questionando a consistência do célebre “todos, todos, todos” do Papa, aquando da Jornada Mundial da Juventude.

As vítimas [do padre Rupnik e, posteriormente, da superiora da Comunidade Loyola, Ivanka Hosta, acusada de encobri-lo e de abusar espiritualmente do seu posto de superiora] “só receberam silêncio” e “esperam há mais de um ano uma resposta definitiva, clara e maternal”, na sequência do comissariado de que aquela Comunidade foi objeto.

Com o comunicado da diocese do Papa, afirmam as cinco subscritoras, “Rupnik ridiculariza a dor das vítimas, mas também de toda a Igreja, mortalmente ferida por uma arrogância tão ostensiva”. Ao mesmo tempo, a audiência concedida dias antes a Campatelli é como algo arremessado “à cara das vítimas (estas e todas as vítimas de abusos)”, já que é “um gesto que o Papa lhes negou” a elas. “Nem sequer respondeu a quatro cartas de outras tantas religiosas e antigas religiosas da Comunidade Loyola” que lhas enviaram em julho de 2021, lamentam as subscritoras.

Em conclusão, “as vítimas foram, portanto, censuradas, por não terem sido discretas e por terem exposto algo repugnante: a sua dor, a manipulação daqueles que as enredaram em nome de Cristo, do amor espiritual, da Trindade. Expuseram a sua dor porque a manipulação e o abuso feriram para sempre a sua dignidade”, remata a carta aberta.

Esta tomada de posição pode ser subscrita por outras pessoas que se achem em sintonia com o teor do exposto, através de um endereço que se encontra no site. O documento figura no site #ItalyChurchToo, uma plataforma de coordenação de organizações e associações relacionadas com os abusos na Igreja, com o objetivo de “dar voz e visibilidade às vítimas; exigir justiça e indemnização por parte dos organismos competentes; e exortar as instituições religiosas e seculares a criarem instrumentos para conhecer a dimensão do fenómeno em Itália e medidas eficazes para prevenir os abusos”.

 

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