“Zahra”, de Tomás Sopas Bandeira, é uma flor que grita no Sara Ocidental

| 29 Jun 19

Zahra, a estreia de Tomás Sopas Bandeira na ficção publicada, é “uma tentativa de responder” à pergunta sobre o que o autor viu em Outubro de 2017 nos campos de refugiados sarauis do Sara Ocidental (território ocupado por Marrocos), situados na Argélia. É “um grito de esperança porque são eles, os sarauis, que após tanto tempo são capazes ainda de a possuir e conservar”, diz o autor nesta entrevista ao 7MARGENS.

Tomás Sopas Bandeira, 25 anos, natural de Braga, estudou Medicina em Lisboa e exerce actualmente a profissão nas urgências do Centro Hospitalar Universitário de Vaud (Suíça). Esteve sete meses no México, cinco dos quais incluídos na sua formação universitária, acompanhando também a caravana migrante da América Central e contactando com comunidades zapatistas; foi em 2012 como voluntário para Sofala (Moçambique), a região onde, em Março, passou o furacão Idai; passou pela ilha grega de Lesbos, onde chegam tantos refugiados do Médio Oriente; esteve um Verão na Amazónia, integrado em comunidades indígenas; e fez um estágio de Medicina no Togo, em 2015.

O livro será apresentado na Feira do Livro de Braga (que decorre no Largo de São João do Souto) neste domingo, 30 de Junho, às 19h30. A editora (ed. Afrontamento) diz que a obra, cujo título também significa “flor” em árabe, narra a história de Zahra na primeira pessoa, através de um caderno mágico que transporta consigo.

No prefácio, o presidente da Assistência Médica Internacional, Fernando Nobre, escreve: “Zahra é a nossa Mãe, a nossa Mulher, a nossa Filha que, na bela e profunda escrita do meu jovem colega (…) resiste, se interpela, nos interpela sobre o drama coletivo do seu povo que permanentemente perpassa na sua vida pessoal e da sua família, sobretudo do seu filho recém-nascido.” E acrescenta: “Este livro é magnífico pela sua história, pelo seu enredo engaiolado num exílio desértico, pelas reflexões comoventes, revoltadas, amorosas e sempre esperançosas de uma magnífica Mulher, Zahra, pela qual, como ser humano e leitor desde já me apaixonei pela dor, angústia e medo que ela carrega na sua pesadíssima canga, mesmo sem um futuro risonho em perspetiva.”

Fica a seguir a entrevista.

 

7M – Zahra significa flor em árabe e é o nome da protagonista, que nos narra a história na primeira pessoa através de um caderno mágico que leva consigo. Mas os sarauis não têm flores no deserto, não são protagonistas da sua história e não têm cadernos mágicos que lhe mudem a história… O livro é um grito de esperança ou outra coisa?

Tomás Sopas Bandeira (T.S.B.) – Este livro nasce em parte de uma necessidade de exprimir uma abundância de sentimentos e reflexões que fervilharam dentro de mim, sobretudo desde que visitei os acampamentos sarauis no deserto. E se a História a fui aprendendo nos livros e nos documentários que lera e vira antes, ao conhecer ao vivo e pessoalmente a realidade com os meus próprios sentidos, as emoções, das mais duras às mais fascinantes, provocaram dentro de mim muitos gritos que às vezes só na escrita somos capazes de exprimir.

Tomás Sopas Bandeira, em Outubro de 2017, com três mulheres sarauis no campo de Smara, daira (bairro) de Mahbes, em Tindouf (sudoeste da Argélia). Foto: Direitos Reservados

 

7M – E que gritos são esses?

T.S.B. – O livro é um grito de esperança porque são eles, os sarauis, que após tanto tempo são capazes ainda de a possuir e conservar. O livro projecta a esperança que eu vi nas pessoas que conheci, não numa esperança imaginária que gostaria que existisse. Mesmo entre aqueles em que nasceram naqueles acampamentos e nunca conheceram o seu país, a esperança está viva de um modo impressionante.

Mas este livro são muitos outros gritos também. São gritos de resiliência. São gritos ao mundo e às pessoas indiferentes. São gritos da vida que brota sem parar e luta contra as adversidades de um mundo tão duro de viver. O livro é um grito por todos aqueles que tantas vezes são calados e abafados, mas que nunca desistiram de acreditar num amanhã diferente.

7M – Em 2017, visitou campos de refugiados do Saara Ocidental, na Argélia. Quer descrever o que viu?

T.S.B. – Estive nos acampamentos em Outubro de 2017, entre o fim dos meus estudos universitários e o início da minha vida profissional. Por razões de visto, a minha estadia no deserto durou aproximadamente duas semanas, embora o meu contacto com a população saraui, sobretudo da diáspora na Europa, seja constante e frequente até aos dias de hoje.

Ainda que não tenha sido longo o período nos acampamentos é para mim difícil resumir numa só resposta tudo aquilo que vi e presenciei. O livro é, de um certo modo, também uma tentativa de responder a essa pergunta.

7M – Mas teve experiências que certamente o marcaram…

T.S.B. – Marcou-me muito, por exemplo, o facto de sentir que estava num lugar onde uma planta comestível não cresce espontaneamente do solo, tal é a secura da região, conhecida como hamada. Por outro lado, a dependência da ajuda internacional é gritante: a distribuição de água que tantas vezes se atrasa, a dieta alimentar que se resume quase exclusivamente aos pacotes definidos pelas organizações e instituições de apoio humanitário…

Vista geral do campo de refugiados sarauis de Smara, daira (bairro) de Mahbes, em Tindouf (sudoeste da Argélia). Foto © Tomás Sopas Bandeira

 

7M – Dessas experiências, o que mais o marcou?

T.S.B. – De um ponto visto mais emocional, foi para mim profundamente marcante, por exemplo, a relação que estabeleci com quatro irmãs, vizinhas da casa onde fiquei albergado, em que a mais velha tinha a minha idade. Elas foram, no meu imaginário, as representantes da minha geração. E como vivemos em mundos tão diferentes… os sonhos, as oportunidades que tivemos ou não tivemos, as ambições que nos são permitidas desejar, as experiências de vida, as histórias que temos para contar. Tínhamos a mesma idade mas parecia pertencermos a dois planetas diferentes…

7M – Referia-se ao livro como exprimindo também “gritos de resiliência”. Como é possível essa resiliência de décadas, sobrevivendo apenas no limite e limitado à ajuda internacional?

T.S.B. – É uma questão que também me coloco muitas vezes. Sobre o como é possível será mais difícil responder, mas ela existe, disso sou testemunho.

Tenho dificuldade em pensar que há povos mais resistentes que outros, mais solidários que outros, melhores ou piores. São as situações e os contextos geográficos e históricos que moldam a nossa cultura humana e ajudam a definir em grande parte a identidade cultural que nos define e nos diferencia entre a espécie. Porém, a essência humana, na minha opinião, é feita de uma base muito igual e é fascinante compreendermos como em momentos tão duros e “inumanos” conseguimos ir muito mais além do que achamos ser possível.

Como é dito a certa altura nesta história de ficção e que é ao mesmo tempo tão real, o opressor não tem a capacidade de compreender a força que a esperança move no oprimido. O povo saraus vive em condições que violam a natureza humana, mas a sua resiliência é, sem dúvida, de uma enorme dignidade.

Crianças sarauis no campo de Smara, daira (bairro) de Mahbes, em Tindouf (sudoeste da Argélia). Foto © Tomás Sopas Bandeira

 

7M – Mas a causa do povo saraui parece esquecida pela comunidade internacional. Faz sentido manter essa chama ou é uma causa perdida? 

T.S.B. – Uma causa só está perdida quando deixamos de acreditar nela. E se os protagonistas dessa causa não deixaram de acreditar na autodeterminação do seu povo, eu, enquanto apoiante e activista, só tenho de acreditar com eles.

Depois do que vi, depois das pessoas que conheci e dos amigos que fiz, já não se trata somente de uma questão onde devo equacionar se valerá ou não a pena acreditar. Para mim, hoje, estar ao lado do povo saraui é uma questão de responsabilidade. Uma responsabilidade com a minha própria consciência.

7M – Mas, no fundo, acredita que o desfecho pode ser diferente?

T.S.B. – Honestamente, acredito. O poder da força e da opressão marcaram momentos determinantes na história da humanidade, mas todos eles acabam por ter um fim. E acabam por ter um fim porque há sempre alguém que decidiu resistir, contra todas as adversidades, improbabilidades, torturas e desesperos.

7M – Pode haver um desfecho semelhante ao de Timor, que também se julgava uma causa perdida?

T.S.B. – Não conheço tão bem a questão de Timor por não a ter vivido, mas há algumas semelhanças e diferenças. As semelhanças estão no facto de ambos terem sido colonizados por um país europeu e invadidos por um vizinho, num contexto internacional que possibilitou a existência de muitos massacres.

A diferença maior é que o facto de a questão do Sara Ocidental não se ter resolvido deve-se a que Marrocos é um pilar fundamental na ligação com a Europa (nas trocas comerciais, na pesca, nos fosfatos que são retirados do Sara Ocidental) e tem o poder de ser uma das torneiras de entrada relativamente aos migrantes que se dirigem à Europa. Por isso, apesar de tudo, os países europeus não querem assumir a inimizade com Marrocos. Mas os contextos sociais também mudam e podem vir a alterar o paradigma que se vive actualmente.

Sarauis no campo de Aousserd, em Tindouf (sudoeste da Argélia), na altura da visita do ex-enviado especial das Nações Unidas para o Sara Ocidental, Horst Kohler. Foto © Tomás Sopas Bandeira

 

7M – A abertura política de Marrocos não trouxe nenhum benefício ao Saara Ocidental?

T.S.B. – A abertura política de Marrocos é uma questão que nos levaria para uma outra grande discussão. Em certo sentido, a política do rei Mohamed VI abriu-se ao mundo exterior, aproximou-se da Europa, acompanhou a globalização e massificação, por exemplo, do turismo. Mas internamente, e digo-o isto não só com base no que vou lendo, mas também através de testemunhos de amigos marroquinos, a situação pouco mudou. A repressão interna, a falta de liberdade de opinião política, a manipulação da imprensa são tudo questões que persistem no Marrocos dos nossos dias.

A questão do Rif [região berbere, onde já se registaram várias revoltas contra a monarquia marroquina] é um tema que, na sua essência, nada tem a ver com o Sara Ocidental, mas serve igualmente como exemplo da opressão exercida pelo Estado marroquino com consequências muitas vezes semelhantes àquelas a que se assiste nos territórios ocupados do Sara Ocidental – prisioneiros políticos, desinformação promovida pelos meios de informação, violência policial desproporcionada, entre outros.

7M – Qual pode ser o papel da Espanha e da UE perante isso?

T.S.B. – Relativamente a Espanha e à União Europeia… Embora Espanha tenha um compromisso histórico, por falta de carácter político, mas igualmente por interesses de política interna e externa, o país vizinho nunca assumiu a liderança que deveria assumir sobre a questão. Porém, o grande parceiro de Marrocos e inimigo da questão saraui é a França e é através dela que o boicote internacional, seja ao nível da União Europeia, seja ao nível das Nações Unidas, é principalmente promovido.

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