Tornar o catolicismo português mais franciscano, a tarefa do bispo Ornelas na CEP (análise)

| 19 Jun 20

José Ornelas, bispo de Setúbal. Presidente da CEP eleito 16 Junho 2020

José Ornelas, bispo de Setúbal, no dia 16, em Fátima, depois da sua eleição como presidente da CEP. Foto © Paulo Rocha/Agência Ecclesia

 

No dia 16 de Junho, 28 bispos elegeram os novos titulares dos órgãos da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), escolhendo o bispo de Setúbal, José Ornelas, como presidente. Até hoje, a CEP não foi muito capaz liderar dinamismos significativos de renovação da Igreja Católica em Portugal. Podem eleições como estas mudar alguma coisa? Podem, mas para tal é preciso reunir a vontade colectiva dos bispos.

A escolha da CEP foi feliz: o bispo de Setúbal é, no actual quadro, um dos poucos com capacidade de imprimir um ritmo diferente à Conferência, libertando-a de vários espartilhos históricos. Para isso, terá de conseguir que o organismo seja mais do que uma mera assembleia de partilha de reflexão e produção de documentos – apesar de ela integrar bispos empenhados em dar o seu melhor, sinceramente interessados na renovação.

Há um pecado original na criação da CEP: nascida na década de 1960, a conferência era nesse tempo liderada pelo cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa e personalidade forte e carismática. Mas, formado 50 anos antes, já não conseguiu, ou não quis, adaptar-se às mudanças que o II Concílio do Vaticano traçou. O que ficou, numa Igreja também sujeita à ditadura, à censura e à perseguição da discordância, foi a imagem de uma hierarquia cinzenta, com tiques de autoritarismo e monolitismo, muito próxima do ditador e do salazarismo – mesmo se este é um retrato incompleto, pois sempre houve quem quisesse um outro catolicismo para Portugal.

Desde aí, a CEP viveu quase sempre na sombra dos bispos da capital (no senso comum, quem “manda” na Igreja é o patriarca de Lisboa, ao contrário do que acontece noutros países, em que vários outros bispos se destacam). Mais grave ainda, a Conferência continuou enferma de falta de ousadia, criatividade e espírito colectivo, factores agravados pelo monolitismo vivido em Portugal durante décadas.

 

Timidez

Excepções? Alguns rostos dos últimos 40 anos e, sobretudo, alguns momentos: a plena adesão, liderada pelo cardeal Ribeiro e pelo então bispo do Porto, António Ferreira Gomes, à democracia implantada em 1974; a dinâmica da pastoral do domingo (finais de 1970-início de 1980), os congressos nacional e diocesanos dos leigos; o relançamento das semanas sociais; o congresso da família… Mas, se revisitarmos as conclusões dessas iniciativas, percebemos que a esmagadora maioria delas ficou no papel. O catolicismo português, preso à falta de debate interno, tem a mesma incapacidade do país de ficar muitas vezes por bons diagnósticos, sem consequências.

De fora, houve ainda um sopro de frescura em 2004, com o encontro de jovens promovido pela comunidade ecuménica de Taizé, pouco aproveitado na atenção aos jovens, espiritualidade, diálogo ecuménico e compromisso social que poderia ter provocado. E, na quarentena de que saímos, o bispo de Leiria e o patriarca de Lisboa foram assertivos na decisão de suspender celebrações comunitárias (incluindo o risco absurdo que seria o 13 de Maio, em Fátima) e de afirmar o essencial da fé.

A renovação sugerida pelo Concílio (1962-65) deu passos tímidos depois do 25 de Abril, até à mudança de século. Os bispos de então não eram muito arrojados, mas estavam alinhados com o Vaticano II e davam espaço à iniciativa de pessoas e grupos. Esses tempos esfumaram-se e os passos no sentido da renovação não foram muito longe.

Há 55 anos, a 6 de Agosto de 1965 (a poucos meses do encerramento, em Dezembro, do Vaticano II), o episcopado português publicava uma nota pastoral sobre o Concílio, onde escrevia que “reforma sem disciplina e actualização sem ordem resultariam em anarquia destruidora.” Essa tem sido, grosso modo, a atitude do episcopado em Portugal: nada de sujar as mãos e arriscar, como tem pedido o Papa Francisco, mesmo que isso implique depois repensar e corrigir. Antes manter a disciplina e a ordem – ou seja, “prudência” e “receio”, manter o que está, não dar espaço à criatividade, não enfrentar problemas sociais graves. Como diz a expressão usada em âmbitos católicos quando se quer dizer delicadamente que algo/alguém não existe, a CEP tem sido demasiado “apagada”…

Conferência Episcopal. José Ornelas.

Da esquerda para a direita, o vice-presidente, presidente e secretário da Conferência Episcopal (bispos Virgílio Antunes, de Coimbra, e José Ornelas, de Setúbal e padre Manuel Barbosa: a CEP precisa de passar a existir. Foto © Agência Ecclesia

 
Ausências

Alguns exemplos: nenhum inquérito sociológico ou da prática dominical originou dinâmicas pastorais diferentes ou opções por prioridades; não há perspectivas de uma pastoral de conjunto nas cidades; a participação dos leigos, mulheres e jovens nos processos de decisão é, muitas vezes, apenas retórica, sujeita ao poder frequentemente autoritário do bispo ou do padre; ignoram-se problemas como a solidão do clero, da profunda crise de identidade da vida religiosa ou da regressão na formação dos seminários para um modelo clerical e de “casta”, no qual a formação humana, cultural e espiritual é deficiente, e nem sequer entusiasma os seminaristas por conhecer o pensamento de teólogos ou investigadores fora dos manuais.

Olhando para o que se passa na sociedade, a voz da hierarquia quase só se faz ouvir para falar de temas como o aborto e eutanásia. E peca pelo silêncio em realidades como a violência doméstica, o desemprego, o racismo e populismo crescentes (por vezes protagonizado por quem se faz fotografar em igrejas ou faz profissões genéricas de fé)? Falta diálogo cultural (com excepção de iniciativas pontuais, como a página da Pastoral da Cultura), falta presença na questão da emergência ambiental, ainda mais tendo um “manual de instruções” espantoso como é a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, falta formação católica de lideranças económicas, políticas e financeiras para uma economia que não mate…

Se este diagnóstico fosse exagerado, possivelmente alguns dos indicadores católicos estariam hoje melhor do que há 20 ou 40 anos e haveria mais pessoas nas missas, mais baptizados e matrimónios, universos intelectuais, políticos e sociais mais próximos e interessados no diálogo com os católicos… O catolicismo sofre uma erosão a vários níveis e não só porque o mundo mudou. Também (sobretudo?) porque a Igreja Católica não tem tido arrojo, criatividade, ousadia, nas propostas que faz, limitando-se quase só a repetir o que já se sabe, o que já se faz, o que já se pensa. Escasseiam as vozes que reflectem, debatem e propõem caminhos alternativos. E as poucas que há são olhadas de lado. Há muito.

 

Urgência

Este é um diagnóstico cáustico? Sim, porque há factores positivos que aqui não são referidos; num momento em que volta a haver uma nova liderança no episcopado, este é o momento de olhar para o muito que falta fazer. E as primeiras declarações do bispo José Ornelas indiciam essa vontade.

Na Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), a sua exortação apostólica programática, o Papa Francisco diz que “a vida comunitária e o compromisso com os outros” são o “coração do evangelho” (nº 177). Na Laudato Si’, acrescenta que se devem considerar “inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” – ou seja, as dimensões mística e espiritual (nº 10).

No primeiro destes textos, o Papa sugere consequências da renovação: recusa do clericalismo (e do narcisismo, acrescentou ele em diversas ocasiões, a propósito dos abusos sexuais), apelo à criatividade a ousadia (não serve o argumento de que “sempre se fez assim”), não querer ver inimigos em todo o lado, chamar pessoas que pensem diferente e não se limitem a lisonjear os bispos ou padres, não ficar pela moral; e, pelo contrário, propor a misericórdia, a atenção a todas as periferias, ter atenção às novas dinâmicas urbanas, aceitar o pluralismo e o debate, dar protagonismo aos leigos, às mulheres e aos jovens…

D. José Ornelas já referiu a necessidade de coordenar “solidariamente” actividades conjuntas, de dialogar com a sociedade de que a Igreja Católia faz parte, de dar atenção aos múltiplos problemas sociais. Mas nada disso serão tarefas fáceis, até porque já outras vezes houve intenções semelhantes, que esbarraram na inércia da CEP enquanto conjunto. As mudanças não se fazem com poucas pessoas, mas com uma vontade colectiva e o facto de a liderança da CEP (presidência e conselho permanente) estar, no fundamental, alinhada com o pensamento e modo de agir do Papa Francisco é uma ajuda importante para começar a mudar o rumo.

É necessária, no entanto, uma liderança firme, que rompa a sensação de que a adesão de uma boa parte do clero português ao Papa é apenas epidérmica, sem grandes consequências de ordem prática. Quando Francisco quis convencer José Ornelas a vir para Setúbal (o então superior geral dos padres dehonianos preparava-se para uma missão em Angola) disse-lhe que Setúbal também é terra de missão para um clérigo católico. E Portugal, poderia acrescentar-se. Com uma urgência: trazer “franciscanismo” ao catolicismo português. Essa é a missão, a tarefa que o novo presidente da CEP tem pela frente.

 

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