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EACOP, maior oleoduto, em construção pela TotalEnergies. Foto OxFam

ONG inter-religiosa denuncia

TotalEnergies desrespeita milhares de sepulturas para construir maior oleoduto do mundo

| 09/11/2023

EACOP, maior oleoduto, em construção pela TotalEnergies. Foto OxFam

O abandono do projeto tem vindo a ser exigido por vários ativistas e representantes religiosos que alegam estar-se em presença de um ataque à justiça climática, aos direitos humanos e à biodiversidade. Foto © OxFam.

 

São mais de duas mil as sepulturas localizadas ao longo do percurso daquele que se prevê que venha a ser o maior oleoduto do mundo, cruzando o Uganda e a Tanzânia. Com a sua construção, a cargo da petrolífera francesa TotalEnergies, a maioria destes túmulos está a ser destruída, danificada ou relocalizada, “sem qualquer respeito pelos ritos e tradições funerárias locais”, denunciou esta quinta-feira, 9 de novembro, a ONG inter-religiosa GreenFaith.

Num relatório intitulado “Como se nada fosse sagrado”, a GreenFaith destaca que o projeto do Oleoduto da África Oriental (EACOP, na sigla inglesa) que ligará o novo campo de petróleo de Tilenga (Uganda) ao porto de Tanga (Tanzânia), além de desrespeitar o meio ambiente, está também a exercer uma enorme “violência espiritual”, com “consequências psicológicas devastadoras para as famílias que vivem ao longo da rota do oleoduto”.

O documento conta com testemunhos de elementos das famílias afetadas, reveladores do desrespeito manifestado pela TotalEnergies. “Quando foi necessário trasladar os corpos, os caixões adquiridos eram do tamanho errado. O corpo do meu pai foi partido em pedaços para poder entrar no caixão que eles compraram”, partilha um dos entrevistados. Outra mulher conta: “Quando começou o novo enterro, supliquei-lhes que me dessem algum tempo para reunir os membros da família, a fim de oferecer ao nosso defunto um adeus digno. Recusaram e ameaçaram-me de gerir isso com o governo. Tive de enterrar o meu marido sozinha.”

“Já sabíamos que o EACOP é um projeto de morte, contra os vivos. Hoje, este relatório mostra-nos que nem sequer respeita os nossos mortos. Expressamos o nosso apoio e solidariedade com as nossas irmãs e irmãos no Uganda e na Tanzânia”, afirmou Martin Kopp, coordenador da GreenFaith em França, durante a apresentação do documento, que decorreu em Paris.

Em resposta às conclusões do relatório, os líderes religiosos da Tanzânia e do Uganda pediram a suspensão imediata do projeto. “As nossas religiões reconhecem o caráter sagrado que as comunidades africanas atribuem aos túmulos de seus entes queridos falecidos e a profunda importância das tradições espirituais e culturais dessas comunidades”, afirmaram. “Na sua busca de lucros do petróleo, a TotalEnergies negligenciou as coisas que são importantes para o nosso povo, como se não fossem sagradas. Trata-se de neocolonização e de abuso psicológico. A TotalEnergies beneficia da proteção de ambos Governos [do Uganda e da Tanzânia], ao contrário das nossas comunidades”, denunciaram.

Divulgada esta quinta-feira durante uma conferência de imprensa em Dar es Salaam, na Tanzânia, a declaração dos líderes religiosos conclui com um apelo: “A TotalEnergies deve reconhecer a natureza sagrada da vida e protegê-la. Exigimos justiça para as pessoas afetadas e o bem-estar das nossas comunidades e do meio ambiente”.

O abandono do projeto tem vindo a ser exigido por vários ativistas e representantes religiosos que alegam estar-se em presença de um ataque à justiça climática (provocando a emissão de 379 milhões de toneladas de CO2), aos direitos humanos (expropriando mais de 100.000 pessoas de forma inadequada, sob pressão e sem esclarecimento capaz) e à biodiversidade (nomeadamente no parque natural de Murchison Falls).

Crentes de diferentes religiões contra nova exploração de petróleo em África

 

 

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