Trabalhadores cristãos pedem lucros distribuídos por todos, libertação do domingo e rendimento básico

| 1 Mai 20

Manifestação sindical. UGT. 1º de Maio 2019

Manifestação sindical em Lisboa, promovida pela UGT (União Geral de Trabalhadores), no 1º de Maio de 2013. Foto © Arlindo Homem

 

A OIT antecipa números devastadores e nesses números o Movimento de Trabalhadores Cristãos coloca rostos de pessoas que já estão a sofrer com a pandemia. Lucros para todos, devolução do domingo e rendimento básico universal são três passos para devolver dignidade às pessoas, diz o MTC.

 

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra um número: 1,6 mil milhões de pessoas que estão na economia informal (metade dos 3,3 mil milhões a nível global) correm o risco de perder os seus rendimentos no imediato. Fátima Pinto, coordenadora do Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC) da diocese de Braga coloca rostos concretos nesse e noutros números: “No MTC conhecemos vários companheiros que já estão a viver a situação” de ficar sem trabalho ou estar em lay-off, diz ao 7MARGENS.

A propósito do Dia Mundial do Trabalhador, que nesta sexta-feira se assinala, a LOC (Liga Operária Católica/MTC de Braga divulgou um comunicado, em que manifesta a trindade de desejos para o mundo que deveria vir no pós-pandemia: “grandes lucros das empresas” distribuídos “por todos e não apenas pelos accionistas”; o domingo voltar a ser um dia livre, para a família, o bem-estar e a celebração da fé; e é preciso criar um “rendimento básico incondicional”, na sequência dos apelos do Papa – porque, se a medida já existisse “a nível mundial, talvez a crise não se fizesse sentir desta forma terrível”.

Em 2018, dizia a Oxfam num relatório divulgado há um ano e pouco, as 26 maiores fortunas do mundo tinham tanto quanto os 3,8 mil milhões de pessoas da metade mais pobre do globo.

Números como estes levam a LOC/MTC e a sua coordenadora de Braga a dizer que a distribuição de lucros não é irrealista. “É justo: tudo o que for justo não é irrealista. Cumprir a lei não é fazer justiça, justiça é muito mais do que a lei. E fazer com que os lucros das empresas sejam distribuídos é fazer justiça.”

Fátima Pinto sugere que, enquanto movimento cristão, os seus membros têm de “sonhar que a justiça será feita”. E justifica: “Não seríamos cristãos se não sonhássemos que o mundo só pode ser melhor”.

A actual crise pandémica, aliás, está a mostrar que, de quem nós precisamos mesmo é das profissões “mais pobres, mais humildes – essas pessoas é que são vitais, não são os que ganham muito”. E enumera: “São os que trabalham no campo, quem nos distribui a comida, quem nos fabrica a roupa, limpa o lixo, os médicos e enfermeiros… Se calhar quem devia ganhar maiores salários eram esses”, acrescenta a coordenadora da LOC/MTC em Braga.

 

Libertar o domingo “seria uma vitória”

O segundo apelo final do comunicado é à libertação do domingo. “Nós pedimos que seja o domingo, mas pode ser outro dia para quem preferir. Deveria ser um dia em que família se possa encontrar, já não como questão religiosa, mas como espaço de encontro.”

“Conseguir isso no nosso país era uma vitória”, comenta ainda Fátima Pinto. “Importámos esta forma de estar nas empresas, com trabalhos rotativos e permanentes, mas em vários países já alteraram esse modelo.”

Finalmente, o rendimento universal deveria servir “para que todos tenham o necessário para viver sempre”. É necessário que os governantes e políticos “tenham capacidade de ir pensando nestas questões”, afirma, para que não seja “a economia a mandar na política” como tantas vezes acontece. “Se há comida para todos e roupa para todos, porque é que há tantas pessoas a passar fome?”, pergunta, para concluir: “É preciso fazer do mundo uma boa morada para toda a gente.”

A saudação da LOC/MTC ao 1º de Maio, divulgada neste dia 30 de Abril, é justificada também porque, em 1955, o Papa Pio XII instituiu este dia como a festa de S. José Operário, fazendo-a coincidir com o Dia Mundial do Trabalhador. Dessa forma, diz o comunicado daquele movimento, “reconhecendo o significado cristão, sempre actual, da luta dos trabalhadores pela dignidade, igualdade e solidariedade”.

Também o Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos – do qual a LOC/MTC faz parte – manifesta, na mensagem para a celebração deste 1.º de Maio, o desejo da criação de um “modelo alternativo de vida”. Essa opção deveria estar menos centrada no consumo e antes focada  na agroecologia sustentável e num modelo económico familiar, comunitário, de produção agrícola, pecuária, pequena indústria, cooperativismo, serviços mutuais e comercialização colectiva de excedentes, através dos múltiplos mercados solidários.

O texto denuncia a “ordem geopolítica mundial de domínio do capital financeiro e empresas multinacionais”, que “desregula e precariza direitos laborais, que endivida, despoja e explora os recursos naturais e culturais” dos povos, “aumentando as migrações forçadas” e concretizando “políticas e estratégias de exclusão, marginalização, criminalização e morte”.

Assembleia diocessana da LOC/MTC. Braga

Fátima Pinto, na assembleia diocesana da LOC/MTC de Braga, em Outubro de 2019: “Tudo o que for justo não é irrealista”, diz a coordenadora do movimento na diocese. Foto: Direitos reservados

 

A “chaga” da ilegalidade e a exploração, lembra o Papa

Também nesta quinta-feira, 30 de Abril, o Papa Francisco fez saber, através de uma carta, que intercede pelos trabalhadores que, envolvidos na cadeia agroalimentar, enfrentam os riscos ligados à pandemia e são explorados pela contratação ilegal.

Na carta, assinada pelo substituto da Secretaria de Estado, Edgar Peña Parra, era uma resposta ao secretário-geral da Federação Agrícola Alimentar Ambiental Industrial Italiana, Onofrio Rota, que pedira atenção às questões críticas que afectam o sector.

O Papa, diz a carta, está muito próximo desses trabalhadores que, “dentro da cadeia agroalimentar, estão fazendo um grande esforço, no meio de muitos riscos e dificuldades, para fornecer os alimentos necessários à comunidade”, noticiou o Vatican News.

Esses trabalhadores muitas vezes oriundos de países estrangeiros, vivem uma “dolorosa situação”, são “relegados à margem da sociedade e sofrem condições inaceitáveis de exploração” e a sua situação deve ser regularizada, combatendo “a ilegalidade, a chaga da contratação ilegal e os conflitos entre as pessoas desfavorecidas”.

O Papa já manifestou por diversas vezes, nas últimas semanas, a valorização que faz dos trabalhadores que estão na primeira linha do combate à pandemia ou a manter os serviços indispensáveis para que a vida funcione.

 

“O novo normal tem que ser um normal melhor”, diz OIT

Pessimismo é o que reina na OIT. Nos seus últimos documentos, também a propósito do 1º de Maio, a Organização Internacional do Trabalho prevê que se percam 305 milhões de empregos em todo o mundo (há três semanas, a previsão apontava uma perda de “apenas” 195 milhões de empregos).

Segundo dados citados pela Renascença, há cerca de 436 milhões de empresas em risco. Mas também da OIT vem o aviso de que os mais vulneráveis estão na economia informal, sem direitos nem meios de subsistência.

Mais de dois mil milhões de pessoas trabalha na economia informal, recorda a OIT. Ou seja, tem empregos com pouca ou nenhuma proteção social, sem acesso a serviços de saúde, subsídios de doença ou desemprego (quando os há). Para todas essas pessoas, ficar em casa significa não trabalhar, não receber e não poder comer.

Os jovens e as mulheres serão, mais uma vez, os mais sacrificados. Guy Ryder, director-geral da OIT, não é meigo no aviso: “Para milhões de trabalhadores, não ter salário significa não ter comida, segurança ou futuro. Não têm recursos financeiros ou acesso ao crédito. Se não ajudarmos agora, perecerão”.

A OIT pede, por isso, medidas urgentes, direccionadas para os trabalhadores e as empresas, que devem passar por pacotes de estímulo e medidas de alívio da dívida

Guy Ryder cita ainda o representante do Programa Alimentar das Nações Unidas na última reunião do Conselho de Segurança, que dizia que a “próxima pandemia será de fome, de grandes proporções e devastadora”.

E sobre o que aí vem, não tem dúvidas: “O novo normal, francamente, tem que ser um normal melhor, sem voltar simplesmente ao que tínhamos ou aceitando viver num mundo de trabalho condicionado pela pandemia. Temos que garantir um mundo melhor, em que as pessoas podem ter um trabalho digno.”

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