A participação cívica e sindical em declínio na Europa exige novas formas de organização, formação e intervenção social. Esta foi uma das principais conclusões do seminário internacional promovido pela Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC), que decorreu entre 4 e 7 de junho, em Leiria, reunindo representantes de organizações de trabalhadores cristãos de vários países europeus.
Sob o tema “Desenvolver novas capacidades e novas respostas das organizações de trabalhadores, por mais cidadania ativa na Europa”, o encontro contou com membros da LOC/MTC de várias dioceses de Portugal, e também de outras organizações nacionais e internacionais, ligadas ao mundo do trabalho, da formação e do sindicalismo cristão. A sessão de abertura foi presidida pelo bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, e integrou também a coordenadora nacional da LOC/MTC, Fátima Pinto, o assistente nacional do movimento, padre Pedro Lima, a vice-presidente do EZA (Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores), Maria Reina, e um representante da Câmara Municipal de Leiria.
Os trabalhos partiram de uma experiência concreta vivida na região: a tempestade Kristin, que em janeiro provocou destruição significativa em Leiria. Segundo os participantes, a resposta solidária desencadeada pela população demonstrou que a cidadania ativa continua a ser um instrumento indispensável para enfrentar desafios contemporâneos como as alterações climáticas, os conflitos armados, a pobreza ou a desinformação.
Ao longo do seminário, foi analisada a situação social em vários países europeus, tendo sido destacada a persistência do aumento do risco de pobreza e exclusão social, especialmente entre famílias monoparentais, desempregados e migrantes. Os participantes alertaram que a pobreza não se limita à privação material, afetando também a participação democrática. Pessoas em situação de vulnerabilidade tendem a votar menos, a envolver-se menos na vida pública e a confiar menos nas instituições.
Perante este cenário, a LOC/MTC defende que as organizações de trabalhadores devem reforçar a sua capacidade de escuta, formação e mobilização. “Um trabalhador que conhece plenamente os seus direitos e deveres, a função de um sindicato e o valor da ação coletiva estará mais capacitado para uma cidadania ativa”, afirma o comunicado final.
O encontro sublinhou igualmente a necessidade de as organizações laborais alargarem o seu campo de intervenção para além das reivindicações estritamente profissionais. A defesa do acesso à saúde, da qualidade da educação, da habitação digna ou da proteção social deve fazer parte da sua ação, considerando também trabalhadores frequentemente excluídos das estruturas tradicionais de representação, como desempregados, reformados, cuidadores, trabalhadores domésticos, migrantes indocumentados ou pessoas em regime de teletrabalho.
Outro dos temas em destaque foi o impacto da inteligência artificial e da transformação digital no futuro do trabalho. Os participantes recordaram os alertas lançados pelo Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas, defendendo que a inovação tecnológica deve estar subordinada “à verdade, à liberdade, à dignidade da pessoa e ao bem comum”. O documento alerta para a crescente concentração do poder digital nas mãos de um número reduzido de grandes atores privados globais.
Num contexto marcado pelo crescimento de movimentos populistas e de extrema-direita em vários países europeus, o seminário defendeu que as organizações de trabalhadores devem reforçar a sua presença no espaço público, nas redes sociais e nos meios de comunicação, promovendo a participação eleitoral e combatendo a desinformação. A ação em rede com associações culturais, movimentos sociais, universidades e organizações ambientais foi apontada como uma das formas de reconstruir laços comunitários e contrariar o individualismo.
Entre as linhas de ação identificadas figuram ainda o reconhecimento dos limites ecológicos do planeta, a valorização da diversidade, o apoio a experiências de economia solidária e a construção de formas renovadas de participação comunitária. “Organizar a esperança significa acreditar que somos semente de algo novo no meio de um mundo velho”, refere o texto final, enviado ao 7MARGENS.
Na conclusão do seminário, a LOC/MTC reafirma a sua missão como “escola de democracia participativa”, comprometida com a defesa da dignidade do trabalho e com a construção de uma cidadania ativa capaz de responder aos desafios sociais, económicos e tecnológicos do presente.










