Um mundo onde a maioria das pessoas trabalha cerca de metade das horas que trabalha hoje, dispõe de mais tempo para a família, a participação cívica e a vida comunitária, enquanto as desigualdades diminuem drasticamente e o aquecimento global permanece abaixo dos 2°C. A proposta pode parecer utópica, mas é apresentada como um cenário exequível – e necessário – por um grupo de 45 investigadores do World Inequality Lab, no recém-publicado Global Justice Report (Relatório de Justiça Global).
Coordenado pelos reconhecidos economistas franceses e co-diretores daquele centro de investigação Thomas Piketty e Lucas Chancel, o relatório procura responder simultaneamente à crise climática, à concentração extrema da riqueza e à erosão das democracias. A tese central é simples: não haverá transição ecológica sem justiça social, nem justiça social duradoura sem respeito pelos limites do planeta.
Uma das conclusões mais surpreendentes do estudo publicado esta quinta-feira, 4, diz respeito ao trabalho. Segundo o cenário desenvolvido pelos investigadores deste centro de investigação global (com sede na Paris School of Economics e na Universidade da Califórnia, em Berkeley), o número médio anual de horas trabalhadas por pessoa empregada deveria descer das atuais cerca de 2.100 para aproximadamente 1.000 horas até ao final do século, o que equivale aproximadamente a uma semana de trabalho de dois dias e meio. E isto não apenas como efeito do progresso tecnológico, mas de uma escolha política e civilizacional.

A capa do Relatório de Justiça Global.
O cenário inclui ainda incentivar as pessoas a consumirem menos carne vermelha, principal responsável pelo desmatamento e pela destruição ecológica; e redirecionar a economia para atividades de baixo consumo.
De acordo com o relatório – que se apoia em bases de dados compiladas por mais de 200 investigadores de todo o mundo – é essencial substituir a obsessão pelo crescimento económico por uma visão de prosperidade baseada no bem-estar, no acesso universal à educação, à saúde, à cultura e ao tempo livre. O objetivo não é produzir sempre mais, mas viver melhor.
Deste modo, “uma vida boa para os 99% não é um sonho impossível: pode ser concretizada”, escrevem os autores no relatório. Noutra passagem, explicam que “a impossibilidade técnica não é o que está no caminho; o que falta é uma visão partilhada de progresso social”. Para os investigadores, a grande barreira não é económica nem tecnológica, mas política.
Os autores afirmam que a sua visão oferece uma alternativa positiva às projeções sombrias de tecnoextrativistas de extrema-direita, nacionalistas e bilionários que alegam que o futuro inevitavelmente trará mais combustíveis fósseis, mudanças climáticas e desigualdade.
Um profunda redistribuição de riqueza e o papel de cada um

A apresentação do Relatório Global de Justiça decorreu na Paris School of Economics. Foto: Direitos reservados
O cenário desenhado prevê que, em 2100, todos os países possam atingir um rendimento médio mensal por pessoa próximo dos cinco mil euros, eliminando grande parte do atual fosso entre Norte e Sul globais. Atualmente, as diferenças de rendimento médio entre as regiões mais ricas e mais pobres do mundo chegam a ser de dezasseis para um.
Para alcançar essa convergência, os autores propõem uma profunda redistribuição da riqueza. A metade mais pobre da população mundial, que hoje detém apenas cerca de 2% da riqueza global, passaria a controlar aproximadamente 30%. Em sentido inverso, a parcela detida pelos multimilionários seria reduzida de cerca de 6% para apenas 0,05%. Deste modo, quase 90% da humanidade veria os seus rendimentos aumentar, ao mesmo tempo que beneficiaria de jornadas de trabalho mais curtas.
A transformação seria financiada através de um Fundo Global para a Justiça, apoiado por impostos internacionais sobre grandes fortunas e rendimentos muito elevados. O relatório sugere também a criação de novos mecanismos democráticos de governação global, capazes de enfrentar desafios que já não podem ser resolvidos apenas pelos Estados nacionais.
Do ponto de vista ecológico, o documento afasta-se tanto do negacionismo climático como da confiança exclusiva em soluções tecnológicas. Os autores defendem uma estratégia de “suficiência”: consumir menos recursos materiais, reduzir desperdícios, alterar padrões alimentares, reforçar os serviços públicos e orientar a economia para setores como a educação, a saúde e os cuidados. Segundo os cálculos apresentados, esta combinação permitiria limitar o aumento da temperatura média global a cerca de 1,8°C até ao final do século. Mantidas as tendências atuais, o aquecimento poderá ultrapassar os 4°C.
Embora reconheçam as enormes dificuldades políticas de um programa desta natureza, os autores insistem que as grandes transformações históricas sempre pareceram impossíveis antes de acontecerem. Recordam a universalização do voto, da educação e dos sistemas públicos de saúde, bem como a redução das jornadas laborais ao longo do século XX.
Sem nunca mencionar a encíclica Laudato si’, é inegável que várias das propostas ecoam ideias centrais nela contidas. Tal como o texto do Papa Francisco, o relatório recusa a separação entre crise social e crise ecológica, insistindo que ambas têm uma raiz comum num modelo económico baseado na acumulação ilimitada e no consumo excessivo. A defesa de uma economia orientada para os cuidados, a redução das desigualdades, a valorização do tempo livre e das relações humanas, bem como a ideia de que os recursos da Terra devem servir o bem comum, aproximam-se da noção de “ecologia integral” desenvolvida pelo anterior pontífice. Tanto a encíclica como o Global Justice Report convergem na convicção de que a resposta aos desafios do século XXI exige uma transformação profunda dos estilos de vida, das estruturas económicas e das formas de governação.
“Um século XXI habitável, igualitário e próspero é materialmente possível”, concluem os investigadores do World Inequality Lab. A questão, acrescentam, não é saber se existem recursos suficientes, mas se existe vontade coletiva para os distribuir de forma mais justa e colocá-los ao serviço do bem comum.
Thomas Piketty deixa o apelo: “Há uma enorme batalha cultural, intelectual e política em curso. E todos nós temos um papel a desempenhar”.










