
“Por vezes tenho de voltar àqueles dias de silêncio à beira mar, para me lembrar de que ali decidi a minha profissão.” Foto: Pedreira na Dinamarca. © Inês Patrício
Esta semana, enquanto despia a farda, para regressar a casa depois do dia de trabalho, subitamente assaltou-me uma ideia “a minha vida profissional nunca vai ficar fácil”. Incomodou-me o pensamento. Felizmente ninguém se cruzou comigo, saí e pude caminhar à sombra, até ao próximo “a fazer” do dia. As palavras, primeiro de sabor azedo, foram fazendo o caminho comigo. Dispersas e intrigantes. Sempre houve uma certa inquietação em mim em relação à profissão. A dada altura, durante o curso, nuns exercícios espirituais de 3 dias de silêncio senti, não sem algum estrondo, que ia fazer o curso até ao fim e pronto, eu que me deixasse de coisas! Seria capaz, estava certo, fim de hesitações.
Por vezes tenho de voltar àqueles dias de silêncio à beira mar, para me lembrar de que ali decidi a minha profissão. Também foi nesses dias que decidi não voltar a ter superstições, mas isso seria outro assunto.
À casa dos meus pais não tenho de voltar. Está tão em mim que me basta dizer o meu nome. Acho que sempre falámos sobre isso. Que o nosso trabalho era um contributo para a sociedade. Que era melhor ter um trabalho que se gostasse, que se escolhesse. Mas se isso não acontecesse podíamos tentar começar a gostar. E fazer o nosso trabalho sempre bem. Esse bem era muito importante. Mas o mais importante não era o trabalho. E o dinheiro nunca justificou passar mais tempo ausente. A minha família sempre falou assim.
E eu incorporei isso. Tanto, que depressa, nos vários trabalhos que já tive, desistem de me perguntar se quero fazer horas extra ou se me chateio que os turnos de fim-de-semana não me sejam atribuídos.
Reconheço que não são estes (nós) que mudam o mundo, que fazem as incríveis descobertas, que criam a arte mais transformadora. Somos os que fazem bem, que mantêm as crianças a aprender tranquilas, os serviços públicos competentes, as decisões diárias mais perto de ser justas, a ciência escrupulosa.
Consegui ir organizando aquela ideia. Nunca será fácil. Essa expectativa tem de cair. Cada etapa tem as suas evoluções positivas e os seus acréscimos difíceis. Sempre que mudei de trabalho ou de funções senti-me dar passos atrás e muitas inseguranças. Felizmente tive sempre quem tivesse paciência e me soubesse criticar sem me destruir. Felizmente tenho de continuar a aprender.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.









