Trabalho, terra e casa, prioridades dos trabalhadores cristãos

8 Jun 19Destaques, Newsletter, Sociedade, Trabalho e Economia, Últimas

Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos converge para Lisboa nas próximas duas reuniões internacionais; LOC/MTC está em congresso neste fim-de-semana e quer “dignificar o trabalho na era digital”.

 

A equipa executiva internacional do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos (MMTC) confirmou a realização do próximo conselho internacional para o início de Junho do próximo ano, e a assembleia geral do movimento em Setembro ou Outubro de 2021. Ambas as actividades decorrerão em Lisboa.

O bureau internacional do movimento católico de trabalhadores esteve reunido em Alfragide (Amadora), durante esta semana. A portuguesa Fátima Almeida, co-presidente internacional do MMTC, com Jean Claude Tolbiza (Ilha Rodrigues/Maurícias) disse ao 7MARGENS, no final da reunião, que a tríade “trabalho, terra e habitação” será a prioridade para a acção do movimento mundial nos próximos quatro anos.

A realidade a isso leva o MMTC, que integra quase meia centena de movimentos de todos os continentes excepto Oceânia. Por exemplo, em África domina o “trabalho sem direitos nem condições e mal pago”. A terra é muitas vezes expropriada pelas grandes multinacionais ou particulares, que “cercam terrenos públicos que passam a estar fechados” e são retirados às populações. E na América Latina, há uma situação de “retrocesso” democrático, além de muitas pressões sobre sindicalistas e outros activistas sociais, situações de perda de direitos e um clima de medo a instalar-se.

“Em África domina o trabalho sem direitos nem condições e mal pago”, diz Fátima Almeida. Foto © Tonyfamilia/Wikimedia Commons

 

“Essas serão as nossas prioridades, a partir desse olhar para a realidade”, enquanto o movimento mundial começa a preparar a assembleia mundial de 2021, acrescenta Fátima Almeida.

Da equipa executiva do MMTC fazem parte ainda a secretária geral, Marileia Damâsio (Brasil), o tesoureiro, Philippe Chatelain (França) e o assistente eclesiástico, padre Bernard Robert (França). É a ela que, reunindo duas vezes por ano, cabe promover e dinamizar, junto dos movimentos nacionais de trabalhadores cristãos, as decisões da assembleia geral, convocada cada quatro anos, e do conselho internacional, que reúne uma vez por ano.

A aposta em vários tempos e encontros de formação será outra das prioridades do MMTC para os próximos meses, com a realização de vários seminários regionais na África Oriental, Índico e África Ocidental. No próximo ano, será a vez da Ásia, América Central e América do Sul.

 

Assédio moral e trabalho na era digital

No âmbito internacional, os dois co-presidentes e a secretária geral do MMTC participarão, a partir desta segunda-feira, 10, e até dia 21, na 108ª Conferência da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que se realiza em Genebra (Suíça), assinalando os 100 anos da organização e debatendo o futuro do trabalho.

Além dos temas que o MMTC tem no seu alvo, a conferência da OIT terá também em cima da mesa questões como o futuro do trabalho e do emprego, na defesa da dignidade central da pessoa nos processos de desenvolvimento económico. Muitos dos documentos propõem análises e princípios que parecem retirados de documentos da doutrina social católica, diz Fátima Almeida.

O MMTC participa na reunião enquanto observador e não pode, por isso, participar nos debates plenários e votar – os membros da OIT são os governos, as confederações patronais e sindicais. Mas os observadores podem apresentar moções e o movimento católico internacional irá propor, na assembleia, uma moção sobre a questão do assédio moral nos locais de trabalho: “O assédio sexual e a violência não podem fazer parte do mundo do trabalho ou de qualquer outro lugar”, diz a versão provisória do texto a apresentar. “Não é um jogo ou uma atitude desculpável para com os seus semelhantes e mulheres. Provoca dano, humilhação e com isso destrói os valores mais profundos do trabalho: alegria, realização, criatividade e desenvolvimento humano.”

 “Dignificar o Trabalho na Era Digital” é o tema do congresso da LOC/MTC neste sábado e domingo. Foto © Rawpixel.com/Pexels

 

Antes disso, decorrerá entretanto neste sábado e domingo, em Fátima, o congresso nacional da LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento dos Trabalhadores Cristãos), o movimento português que integra o MMTC. O tema em debate será “Dignificar o Trabalho na Era Digital”.

Questões centrais do debate serão, entre outras, a redução do horário de trabalho e a conciliação do emprego com a vida pessoal e social. “É preciso fazer com que a pessoa não viva para o trabalho. O trabalho tem de possibilitar a conciliação familiar e a participação social e cívica das pessoas”, diz Fátima Almeida.

O congresso destes dois dias irá definir linhas de acção, a partir da vontade de fazer e do muito que já se faz: a digitalização exige empregos qualificados, mas não dá resposta à pouca qualificação do país e muita gente terá dificuldade em adaptar-se, diz a dirigente do MMTC. É preciso repensar modelos de protecção social, através de medidas como o rendimento básico que acompanhe toda a vida da pessoa. E também se debaterá a emergência climática e “o que podemos fazer para regredir nas alterações climáticas, seja através das preocupações ou dos estilos de vida”, acrescenta.

 

Acção contínua, resultados menos imediatos

A LOC/MTC, que décadas atrás, reunia milhares de membros, é hoje um movimento com cinco centenas de militantes em cerca de sete dezenas de grupos. Fernando Abreu, vice-presidente da LOC em 1966-67 descreve alguns resultados do trabalho do movimento: “Desde os primórdios da sua fundação, a LOC empenhou-se com determinação na defesa dos interesses e dos direitos dos trabalhadores, tendo sido relevante a luta pelas oito horas, o descanso semanal ao domingo e o salário familiar.”

Muitas dessas reivindicações eram difundidas pelo jornal O Trabalhador,que por isso, em Novembro de 1967, viu a sua publicação proibida pelo Estado Novo de Salazar. Mas, na sequência de orientações da Junta Central da Acção Católica, “que tinha como desígnio a conversão do corporativismo estatal, os filiados da LOC entraram ‘em força’ nos sindicatos estatais assumindo muitos deles cargos diretivos com a objetiva intenção de os colocarem ao serviço da defesa dos interesses dos trabalhadores”, acrescenta Fernando Abreu, num texto publicado na página da internet da Base-Frente Unitária de Trabalhadores (Base-FUT), da qual também foi fundador.

Hoje, reduzido a um pequeno movimento, a LOC/MTC privilegia sobretudo uma acção que seja pessoalmente mais eficaz, diz Fátima Almeida. “O movimento é menor mas pessoas têm participação activa nos locais em que estão: actividade sindical, associações de meio ambiente, associativismo, partilha de saber, preocupação da maioria dos militantes pelo acompanhamento directo a outras pessoas”, descreve. “Há uma acção contínua, mas os resultados não são imediatos nem tão visíveis.”

A mobilização é um problema em todos os lados – sindicatos, partidos, associativismo”, verifica Fátima Almeida. E não só em Portugal, diz: no México, só em 2018 e 2019 já há várias dezenas de dirigentes sindicalistas mortos e em muitos sítios estes são pressionados ou perseguidos.

Em Portugal, a LOC/MTC pretende sensibilizar a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e outros agentes pastorais para estas questões. Em estruturas como a carta “Compromisso social cristão”, que junta, além da LOC, a Cáritas, a Comissão Nacional Justiça e Paz e a Associação Cristã de Empresários e Gestores, a LOC/MTC quer também continuar a juntar sinergias para “lutar por trabalho digno”, o que “faz todo o sentido”. E, conclui, os apelos do Papa no sentido de colocar a pessoa no centro da economia e do desenvolvimento têm de ser levados à prática pelos cristãos.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Freira Indiana apela ao Vaticano contra a sua expulsão da ordem

A irmã Lucy Kalappura, da Congregação das Irmãs Clarissas Franciscanas, que protestou contra o bispo Franco Mulakkal devido à suposta acusação de violação de uma freira, apela ao Vaticano que evite a sua expulsão da ordem a que pertence, depois de lhe terem sido instauradas alegadas “ações disciplinares”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

Bicentenário do Báb, “Manifestante de Deus” e fundador da Fé Bahá’í novidade

Uma das particularidades da religião bahá’í é ter na sua origem dois Profetas: o Báb e Bahá’u’lláh. E se na terminologia bahá’í os fundadores das grandes religiões mundiais são referidos como “Manifestantes de Deus” (porque manifestam características divinas), a origem dupla da Fé Bahá’í levou alguns autores a referir os seus fundadores como “Manifestantes Gémeos”.

A crise do capital, uma doença demolidora

Tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população.

Cultura e artes

Três rostos para a liberdade

De facto, para quem o sabe fazer, o cinema é mesmo uma arte muito simples: basta uma câmara, um ponto de partida e pessoas que se vão cruzando e dialogando. E temos um filme, quase sempre um magnífico filme. Vem isto a propósito do último trabalho do iraniano Jafar Panahi: Três Rostos.

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

A intenção do autor é dar lugar às mulheres. Não restam dúvidas, fazendo uma leitura atenta dos quatro Evangelhos que Jesus lhes dá o primeiro lugar. A elas, anuncia-lhes quem é Ele, verdadeiramente. Companheiras de Cristo, continuarão a sua missão, juntamente com os homens. Anunciando, tal como eles, a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo; curando, baptizando em nome do Senhor. Tornando-se diáconos. Sabe-se, está escrito. Mas, nos Actos dos Apóstolos, elas desaparecem sem deixar rasto.

Mãos cheias de ouro, um canudo e uma intensa criatividade

Na manhã de 7 de Julho, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) inscreveu o Convento de Mafra, o santuário do Bom Jesus de Braga e o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, na sua lista de sítios de Património Mundial. Curta viagem escrita e alguns percursos falados, como forma de convite à viagem para conhecer ou redescobrir os três novos lugares portugueses do Património da Humanidade.

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Parceiros

Fale connosco