Tragédia de Gaza: quem quer calar a revolta dos jovens?

| 9 Mai 2024

© UnicefAbed Zagout Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza

Crianças e jovens a clamar por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza: os estudantes têm protestado contra a situação desesperada da população do enclave. Foto © UnicefAbed Zagout. 

Os mais trágicos acontecimentos, como o que ocorre neste momento em Gaza, são frequentemente cenários em que, a par das mais primitivas e aviltantes formas de mal, se descobrem sinais da grandeza da alma humana. Essa grandeza expressa-se em gestos e testemunhos de quem é capaz de vencer a indiferença e o medo, arriscando o futuro e até a própria vida.

Porque o mundo não é a preto e branco, esses sinais de solidariedade e de esperança nascem em todos os lados e são por vezes surpreendentes. Muitos desses testemunhos vêm, naturalmente, de vítimas que resistem e se entreajudam e dos profissionais e voluntários que não as abandonam. No caso de Israel e da Palestina, surgem também de movimentos e associações que desenvolvem há bastante tempo projetos de colaboração e convivência pacífica entre os dois lados da barricada e que se encontram, nos dias que correm, debaixo de uma pressão brutal.

Perante a destruição e aviltamento de um povo, também merece ser destacado o testemunho de figuras mais ou menos públicas israelitas e/ou judias que se atrevem, em Israel ou nos Estados Unidos da América ou noutra parte qualquer, a discordar do modo como o governo de Israel respondeu ao ataque terrorista do Hamas, em 7 de outubro. Apesar de tal testemunho ser mais visível nas redes sociais do que nos media clássicos, com ou sem lenço (keffiyeh), assumem desasombradamente o seu not in my name (em meu nome não).

Hoje gostaria de destacar como testemunho de humanidade e sinal de esperança o significativo movimento estudantil que se levantou em várias partes do mundo, mas com especial destaque nos Estados Unidos, em solidariedade com o povo da Palestina e com o seu sofrimento e desolação. Os primeiros sinais surgiram ainda em novembro de 2023, em torno da exigência do cessar-fogo, em sintonia com manifestações populares que trouxeram milhares de pessoas para as ruas, incluindo judeus. Mas lentamente foi-se ampliando, culminando, no mês de abril e já em maio, com acampamentos nos campi de mais de uma centena de instituições de ensino superior.

 

“Lucrar com o genocídio na Palestina”

“Na generalidade dos casos, os protestos decorreram de forma pacífica, passando a incluir a exigência do respeito pelo direito ao discurso e ativismo em prol da causa palestiniana.” Imagem extraída de um vídeo no Youtube / Euronews

Progressivamente, o movimento foi alargando as exigências, tocando em pontos sensíveis da política externa de Washington e das políticas de cooperação cientifica e técnica de numerosas universidades. No centro das reivindicações tem estado o apoio formal da administração Biden a Israel e ao seu exército, nomeadamente no terreno do armamento, assumidamente usado nos ataques mortíferos em Gaza e na Cisjordânia. Em muitos casos, os estudantes reivindicaram igualmente o fim de todos os projetos e parcerias das respetivas universidades, por, alegadamente, “lucrarem com o genocídio do povo palestiniano”.

A intervenção policial, solicitada pelas autoridades académicas – em vários casos como resposta a queixas de grupos de estudantes judeus – levou à prisão de mais de 2.100 estudantes (e até professores com eles solidários) e à abertura de processos a outros. Aqui e ali, as universidades aceitaram dialogar e até negociar algumas revindicações, mas no geral a via adotada foi a da força.

Apesar de casos pontuais de violência – aqui e ali provocada por contramanifestantes pró-Israel ou pela própria intervenção policial – na generalidade dos casos, os protestos decorreram de forma pacífica, passando a incluir a exigência do respeito pelo direito ao discurso e ativismo em prol da causa palestiniana.

As tentativas de minar o movimento não demoraram. Há relatos nas redes sociais de campanhas de pressão sobre os alunos com perguntas como esta: “E tu de que lado estás? De Israel ou dos jihadistas radicais e terroristas?” e notícias que mostram agentes da polícia a tirar os hijabs (lenços que cobrem a cabeça) de várias estudantes muçulmanas.

Os dirigentes políticos, que no Ocidente estão tendencialmente do lado de Israel, rejeitaram os argumentos estudantis. Foram muito raros aqueles que, como o primeiro-ministro belga, Alexandre De Croo, considerou, em declarações citadas no jornal The Guardian, expectáveis as “vozes de protesto e as exigências de diálogo, quando se trata de um conflito complexo que põe em evidência a incapacidade de acabar com ele, a nível internacional”. “Se fosse da idade deles, provavelmente também me juntaria”, terá confessado aquele político ao operador público de média, a RTBF.

Em França, por exemplo, estudantes que se manifestavam no conhecido Instituto de Estudos Políticos (Science Po) expressaram frustração porque esperavam que os políticos os escutassem nos seus apelos de paz, em vez da polícia que veio para os expulsar.

Numa concentração em Paris, uma estudante, citada pela repórter do mesmo jornal, lamentava que, por procurarem “colocar os holofotes sobre um genocídio”, foram “infantilizados ou demonizados”, em lugar de serem ouvidos. “Isto não é pró-Hamas, nunca conheci ninguém antissemita, só queremos paz”, acrescentou ela.

 

Jovens querem ser ouvidos, mas mandam-lhes a polícia

Muitos estudantes que iniciaram o movimento na Universidade de Columbia em Nova Iorque enfrentaram detenções, medidas disciplinares e repressão policial. Foto: Twitter/Steven Donziger

Pois antissemita foi precisamente a etiqueta que lhes colou o primeiro ministro de Israel, em finais de abril, sugerindo que os protestos se assemelhavam aos movimentos que conduziram à ascensão do nazismo na Alemanha, nos anos 30 do século XX. Mais recentemente, Netanyahu considerou as movimentações estudantis ataques ao Estado israelita.

Se tal atitude não surpreende, por vir de quem vem, já poderá surpreender o facto de ser uma posição parecida que o Presidente dos EUA assumiu nesta terça-feira, dia 7, na cerimónia de recordação no Museu Memorial do Holocausto, em Washington. Aceitando que a América é um país de liberdade de expressão, Biden foi perentório ao sublinhar que “não há lugar em nenhum campus na América (…) para o antissemitismo ou discurso de ódio ou ameaças de violência de qualquer tipo, seja contra judeus ou contra qualquer outra pessoa”. E mais não disse, nomeadamente quanto aos motivos dos movimentos dos estudantes.

Resta saber quem está mais em sintonia com o sentimento da opinião pública e em que medida, depois de um expectável apoio público a Israel, nos dias subsequentes ao 7 de outubro, não haverá agora uma efetiva solidariedade com os palestinianos, à revelia das elites políticas, como parecem demonstrar alguns estudos de opinião.

Não falta quem ache que os jovens estão hoje virados cada um para seu lado, nos seus nichos e bolhas e não se preocupam com os dramas do mundo e com o exercício da cidadania. Mas quando dão sinais de atenção, ainda que incomodando, tratam-nos como antissemitas e mandam-lhes a polícia. Nada de novo debaixo do sol, é certo. Os acampamentos ir-se-ão desativando, até porque o semestre está a terminar. Mas o testemunho já ‘passou’. E ao reagir como reagiram os jovens dão-nos motivos de esperança.

 

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