[Moçambique, margem Sul]

Tranças e forças: ambiguidades e magias identitárias

| 29 Mai 2022

Jovem africana segura o penteado. Foto © Suad Kamardeen | Unsplash

O cabelo encerra algo de cultural para os africanos. Foto © Suad Kamardeen | Unsplash

 

Disse-lhe ela: como podes dizer: Eu te amo! não estando comigo o teu coração? Já três vezes zombaste de mim, e ainda não me declaraste em que consiste a tua força./ E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a alma dele se angustiou até a morte./ E descobriu-lhe todo o seu coração, e disse-lhe: Nunca passou navalha pela minha cabeça, porque sou nazireu de Deus desde o ventre de minha mãe; se viesse a ser rapado, ir-se-ia de mim a minha força, e me tornaria fraco, e seria como qualquer outro homem./ Vendo Dalila que ele lhe descobrira todo o seu coração, mandou chamar os chefes dos filisteus, dizendo: Subi ainda esta vez, porque agora me descobriu ele todo o seu coração. E os chefes dos filisteus subiram a ter com ela, trazendo o dinheiro nas mãos. / Então ela o fez dormir sobre os seus joelhos, e mandou chamar um homem para lhe rapar as sete tranças de sua cabeça. Depois começou a afligi-lo, e a sua força se lhe foi. (Juízes 16).

 

Já ouvi imensas estórias sobre cabelos, tranças e penteados. Algumas são comoventes.

Antes dos anos 2000, em Moçambique, fazer penteados africanos em cabelos de negros era contrassenso. Os penteados nesses cabelos eram padronizados e tinham que ser ao estilo de cabelos lisos. As mulheres alisavam os cabelos ou usavam perucas à base de penteados comuns aos das mulheres brancas. Os homens só tinham que ter o cabelo bem cortadinho rente ao seu couro e nada de extravagâncias, de riscos no couro cabeludo ou de punks (cabelos mais altos no meio da cabeça e mais curtos dos lados). Tudo o que não seguisse uma implícita norma ocidentalizada era mal visto. Na verdade, ainda há episódios que nos têm revelado que ainda não nos libertámos de certos estigmas da nossa pretitude.

Antes do contacto com os portugueses, tínhamos, em Moçambique, os nossos tipos de penteados, aqueles que eram de cabelo entrançado, com muitas riscas e caminhos. Até há quem diga que, para além dessa beleza estética, essas riscas poderiam ser códigos culturais. Nunca tendo encontrado uma explicação concreta para esta abordagem, deixo-a de lado, continuando, entretanto, com o desafio de procurar uma melhor interpretação.

Um pouco por influência da África do Sul e de alguns outros países de cultura africano-anglosaxónica, cujas identidades culturais nativas foram pouco abaladas; e também influenciados pelos movimentos da pretitude no Brasil, em Moçambique, passou-se, muito recentemente, por volta dos anos 2000, a cultivar o hábito da valorização do cabelo crespo, apresentado em penteados de cabelo solto ou entrançado. Mas ainda com alguma timidez nesta recuperação de autoestima.

Timidez: há imensos episódios em que uma pessoa se apresenta numa repartição pública para tirar o bilhete de identidade ou passaporte, por exemplo, e os funcionários públicos dão palpites sobre como deve e não deve ser apresentado o cabelo do utente dessa repartição. E há nisso muita ambiguidade. Não têm sido permitidos cabelos soltos às mulheres ou cabelos entrançados um a um – à moda Peter Tosh ou dread locks soltas. O cabelo tem que estar apanhado todo para trás. Entretanto, são permitidos cabelos postiços, seja de que índole forem. É estranho, mas tem sido o que se vive. Sobre esta estória, demasiadas pessoas têm pedido explicações acerca da coartação de liberdades, face à escolha de penteados, mas quase ninguém as dá. E há coartação de liberdades, tanto para homens quanto para mulheres.

Nestas estórias sobre cabelo, há muito que se diga. A mim o que me espantou, nos últimos dias, foi ter deparado com uma situação na qual uma família inteira decidiu se reunir para pedir a um dos seus membros que cortasse o cabelo entrançado ao estilo dread locks. O problema nem era o preconceito relativo ao penteado. A questão era culturalmente mais profunda do que isso. A menina tinha sido entrançada pelo namorado que colocou no cabelo uma planta que lhe dava poderes sobre ela. O seu ascendente relativamente a ela passou a ser cada vez maior, a ponto de ela deixar de ter vida própria e viver sob o comando dele, sem nenhum poder sobre si mesma.

Conhecendo a menina, a sua família se espantou e decidiu que ela deveria cortar o cabelo para voltar a ser ela mesma – o que, de facto, aconteceu, porque a menina, aos poucos tem estado a recuperar a sua dignidade. Há nos cabelos algum poder e estórias antigas já o contavam, a julgar pela narrativa de Sansão e Dalila.

Há, sim, poderes. Depois de eu ter comentado sobre a estranheza de uma família inteira se ter reunido para tomar uma decisão sobre o corte de cabelo de um dos seus membros, contou-me uma aluna que após anos a fazer dread locks teve que os cortar, para que a sua vida melhorasse.

Recuo um pouco na narrativa para explicar que há outros vários mitos ligados ao cabelo, para além do que venho contando: no poder do cabelo, há também a ideia de que o dos negros nunca fica comprido, não cresce, que existe um limite mínimo de crescimento – o que não corresponde à verdade. Daí alguma publicidade no Brasil, sobre cabelo crespo, se basear na ideia de que o cabelo deve ter o tratamento que merece. Deve haver nisso alguma verdade, a julgar pelo crescimento que tem o cabelo natural e entrançado em dread loccks que, algumas vezes pode chegar ao nível dos joelhos até mesmo de uma pessoa de alta estatura. Mas, para além desse crescimento natural, existe um outro, ligado aos dread locks, que é forçado, mas que funciona. Refiro-me ao truque de se fazer extensões com as dreads locks do cabelo natural de outrem. E o cabelo continua a ter o seu crescimento natural, mais o cumprimento que lhe dá a extensão.

Só que, contrariamente à estética das extensões de cabelo postiço, as de extensão de cabelo natural de outrem tem os seus efeitos benéficos ou nefastos. Os benéficos são simples: o cabelo continua a crescer naturalmente; já os nefastos, conforme me contou a minha aluna, vêm com doenças. E essas não advêm de alguma bactéria ou sujidade, não; é algo sobrenatural, contou-me ela:

Colocou extensões de dreads de cabelo natural de uma outra pessoa e começou a emagrecer muito e a ter maus sonhos. A sua vida parecia estar a andar para trás. As aulas corriam lhe mal e passou a desentender-se com muita gente. A sua família decidiu colocá-la numa Igreja Evangéca, a ver se ela melhorava o comportamento. Não tendo acontecido, foi enviada ao pastor, a ver se fazia com que ela manifestasse espíritos (para se saber o que desejavam ou para saber se ela era eleita para professar o curandeirismo), que o pastor pudesse ajudar a exorcizar, mas isso não aconteceu. A verdade é que o seu sufoco só passou depois que alguém sugeriu que ela cortasse o cabelo e ela fê-lo. Querendo saber do segredo, a família da menina perguntou à conselheira o que é que a fez sugerir que cortassem o cabelo, ao que ela explicou haver muitas estórias em torno do poder do cabelo. Verdade seja dita, a vida da minha aluna melhorou muito após ter cortado o cabelo. Ela usava o cabelo de alguém que não desejava ter cortado as suas dreads.

Há várias razões para cortar dreads: há homens que o fazem para poder arranjar emprego, porque esse tipo de tranças não é bem visto em homens. Há, também, casos de mexas postiças feitas à base de cabelo humano. Tem-se dito que, dependendo do dono do cabelo humano misturado nessas mexas, os efeitos podem ser neutros ou maus, para o novo dono. Maus, se o cabelo tiver sido cortado sem consentimento. É por causa disso que algumas pessoas, quando compram dread locks de outrem ou mexas postiças, as passam por um incenso, para as/os exorcizar da má energia.

Há uma estética nas tranças e há poderes instituídos – dos poderes da sedução também rezam os mitos. E sobre estes, uma nota biográfica: fiquei calva há uns anos. Enquanto fazia o tratamento, a preocupação das pessoas era a de que eu usasse uma peruca ou uma prótese, porque ficava mal uma mulher andar com o couro cabeludo à mostra. E sobretudo deixar-se ver a coroa lisa. Vivi anos nisso, mas acreditava e sentia que a minha vida não era o meu cabelo. Eu não era o meu cabelo, havia muitas coisas sobre as quais tinha que dar graças. Sei do poder de um lindo penteado, mas quem disse que a estética é tudo na vida?

Tanto não é que estão mencionadas, nesta crónica, ideias de repartições públicas moçambicanas que disseminam uma norma que remete a nossa identidade à época colonial – aquela na qual o cabelo devia ter uma aparência assimilada. Ou uma menina que, dominada pelo namorado, teve que lhe retirar os poderes colocados no entrançado em dread locks. Uma aluna minha que teve que recuperar o poder de viver e decidir por si, cortando as dreads que tinham extensões feitas à base do cabelo de outrem. Ou mesmo eu, que tendo ficado calva, tive que continuar a enfrentar a vida, na luta de que estava acima de qualquer penteado. Sem cabelo, sentia que tinha poder na mesma. Talvez o meu viesse de algum outro lugar, não sei.

Os cabelos têm poder, sim, mas não devem alienar as nossas vidas, julgo.

 

Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica. Membro do Movimento Graal. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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