Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 12)

Transformação implica caminho sinodal e escuta atenta

e | 13 Abr 2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

Nesta décima segunda resposta, a Ir. Mafalda Leitão e a Ir. Sandra Bartolomeu, Servas de Nossa Senhora de Fátima, sugerem que as formas concretas de transformação dos abusos em caminhos de vida nova, implicam antes de mais um caminho sinodal, uma escuta atenta a partir dos critérios do Evangelho.

 

As respostas encontram-se na unidade da Igreja, em diálogo com o mundo contemporâneo

“Que mecanismos, então, de vida e de Ressurreição poderão surgir? Que apelo e caminhos poderemos escutar inscritos nesta dor que todos sentimos, cada um com intensidades diferentes, consoante a maior ou menor implicação?” Gravura: Caravaggio, A Ceia em Emaús (1601), National Gallery, Londres

 

Estamos em plena Páscoa. «Quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo» (Mt 20, 26). Contemplámos e celebrámos a decisão livre de Cristo em levar até às últimas consequências esta máxima que dera aos seus próprios discípulos – princípio de uma nova relacionalidade, princípio de fraternidade, princípio de Igreja.

Ao assumir a nossa natureza e ao sujeitar-se às mãos dos seus contemporâneos – e das pessoas de todos os tempos – Cristo colocou, e coloca, a nu a nossa própria humanidade com todas as suas fraquezas. Somos, de facto, muito frágeis. Todos. Mas a Páscoa contém em si a força e a possibilidade da transformação, da purificação, da libertação, da passagem a uma nova condição. E todos os que fomos mergulhados nesta Páscoa (significado etimológico de batismo), temos a responsabilidade de ajudar a esse “parto”, isto é, a contribuir para, em cada momento, dar à luz essa comunidade, a que chamamos Igreja, tecida de relações libertadoras e livres quer de subjugação, quer de abuso.

A Igreja não pode jamais compaginar com atitudes que coloquem em causa a dignidade do outro a quem chama irmão e irmã, como sejam abusos de poder de qualquer espécie: de consciência, espiritual, sexual, económico, social… As formas concretas de transformação dos abusos em caminhos de vida nova implicam antes de mais um caminho sinodal, uma escuta atenta a partir dos critérios do Evangelho, quais discípulos de Emaús, no momento que consideravam ser de derrota. A resposta e resolução do problema que temos a afrontar não se encontra numa pessoa ou num determinado grupo, mas na unidade da Igreja, em diálogo com o mundo contemporâneo. A Igreja é, na imagem paulina, um corpo; e quando um membro do corpo está doente, todo o corpo está implicado. Também no processo de sanar é, portanto, toda a Igreja que é chamada a crescer, a transformar-se, a converter a sua mentalidade e os seus caminhos em maior compromisso de dignidade e integração, de escuta e intervenção, para prevenir, proteger, tratar e servir cada um na sua vulnerabilidade.

Na passagem da mulher adúltera Jesus dá-nos critérios para ver de forma abrangente e agir com justiça. A mulher, apanhada em flagrante delito, sabe que é adúltera; Jesus não o nega, mas também não a apedreja. No seu proceder Ele quer resgatar tanto a mulher, como os homens que a ameaçam. Quão desejável seria se fôssemos capazes de realizar esta atitude no momento doloroso que atravessamos, escutando mais além do imediato e cortando com mecanismos que alimentam o mal e a dor. Afrontar e tratar o problema à maneira de Cristo significaria trazer à luz a verdade e a justiça para vitimados e agressores; tratar convenientemente uns, robustecer as fragilidades de outros e trazer dignidade a cada pessoa.

Que mecanismos, então, de vida e de Ressurreição poderão surgir? Que apelo e caminhos poderemos escutar inscritos nesta dor que todos sentimos, cada um com intensidades diferentes, consoante a maior ou menor implicação?

Fazemos parte de uma mesma família, em Igreja e em humanidade. Por isso, todos somos chamados a contribuir na resposta a dar, por mais singela ou exigente que ela seja. Será sinodalmente que sairemos desta prova mais fortes, mais purificados, desenvolvendo-nos em humanidade até à medida da estatura de Cristo Ressuscitado, doador de perdão, de luz, de paz e de Vida.

 

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