Transformar o furto em fruto

| 18 Out 2022

“No dia 1 de janeiro de 2020, um casal de músicos embarcou numa corajosa viagem pelo livro dos Salmos, comprometendo-se a publicar semanalmente um salmo musicado, “até todos os salmos serem cantados de novo”. Foto: Every Psalm – Poor Bishop Hooper. Retirada de vídeo do youtube

 

 

No dia 1 de janeiro de 2020, um casal de músicos embarcou numa corajosa viagem pelo livro dos Salmos, comprometendo-se a publicar, a cada quarta-feira, uma adaptação de um salmo, “até todos os salmos serem cantados de novo”. Novamente e em novos encadeamentos.

Jesse e Leah Roberts não imaginavam que pelo caminho se cruzariam com uma pandemia, vários confinamentos e muita incerteza. Tal não os impediu de continuar a jornada. Até à data, musicaram já 146 dos 150 salmos.

Desde 2013, têm vindo a desenvolver diversos projetos artísticos, por vezes contando com a colaboração de outros músicos, e apresentam-se com o nome de Poor Bishop Hooper, em homenagem ao bispo protestante John Hooper, que, em meados do século XVI, foi condenado à fogueira por heresia.

Começa o Salmo 1: “Ele é como árvore plantada junto a riachos: dá seu fruto no tempo devido e suas folhas nunca murcham; tudo o que ele faz é bem-sucedido.”

Gosto de ouvir histórias de pessoas de diferentes pontos cardeais e, às vezes, fico com a impressão que aquilo que as pessoas conheceram do cristianismo, por imersão cultural ou por vivência familiar, as leva a associar o ser-se cristão a um amarfanhamento de si.

Para poder aceitar o batismo, dizer que creio e que sigo, tenho de me posicionar nalgum ponto da realidade, saber de onde parto para me relacionar com Deus e com os outros. É preciso conhecer o seu lugar.  Jesus sabia-se Filho. Também os discípulos aceitaram o convite para segui-lo, não foi algo decidido por convenção familiar ou social. Foi um sim.

Se o mandato de amar o próximo é sentido como mera obrigação, e não como emanação do amor de Cristo em nós, é porque o seguimento de Jesus não foi apresentado como um convite, que deve ancorar-se no centro daquele que segue; alguém se esqueceu de explicar que Deus nos quer livres, desde o início.

bispo António Couto escreve (revista Didaskalia, 2012) que um Deus que não desiste, não obriga e nos abre as portas da sua misericórdia. “Longa viagem. Condescendência de Deus. Misericórdia de Deus. Pedagogia de Deus. Homeopatia de Deus. Desde Abraão até Jesus Cristo. Em Jesus Cristo vê-se tudo melhor.”

Voltando ao início e às árvores, diz-nos: “Note-se bem que se trata de um jardim que o próprio Deus planta e em que ele mesmo faz crescer toda a espécie de árvores. Tantas árvores. Um jardim não feito por mão de homem, mas por Deus, e por Deus dado ao homem.” Um humano-recebedor, “não dono, mas Dom. Implica, portanto, ainda a desconstrução do nosso mundo de posse, interesse, autoconservação, autoexpansão, autorealização e autosatisfação”.

Implica também a vontade, um sabermos “a quantas ando”, por onde andamos, para, como Abraão, nos sair um “Eis-me aqui”.

A palavra ao biblista Carlos Mesters: “Quem diz ‘Tenho muita fé em Deus’ e não luta pela justiça e pela fraternidade, nega pela vida o que professa pela boca. E quem diz ‘Eu só luto pela justiça e pela fraternidade’ e não leva a sério a fé em Deus, este nega pela boca o que professa pela vida. O Deus de Abraão (…) não é de enfeite. Ele é fogo. Arrebenta a gente por dentro, pois a injustiça que Ele combate não está só nos outros, mas também dentro de nós mesmos!”

Não se trata de um apagamento de si mesmo, mas de uma doação de si, em resposta (e atenção a quem se reponde!) a um Deus que espera por nós e alimenta a possibilidade do nosso regresso. Um Deus que é mãe-galinha, à procura de reunir os seus filhos debaixo das suas asas (Lc 13, 34), e é pai em festa (Lc 15, 11-32), sendo mais mãe e mais pai do que nos cabe ser, é Seu esse tempo e modo, e é Seu esse amor.

Quem ama está disposto a desapossar-se de bens, de jugos, de si, porque confia no amor incomensurável de Deus. Não somos Deus, mas imagem de Deus, não criamos deuses, mas fomos criados irmãos.

“A fé não é fogo de artifício; não pretende deslumbrar. A fé é simplesmente reconhecer o nosso pequeno lugar em relação ao enorme e criativo amor de Deus, e então preencher esse lugar com toda a nossa vida.” (Debie Thomas)

Tudo começa com um sim.

 

(Este texto é publicado de novo, depois de acrescentado com alguns pormenores)

 

 

Sara Leão é mediadora educativa, formadora de Português Língua Estrangeira, voluntária no Centro de Acolhimento Temporário de Refugiados/Seminário Redentorista de Cristo Rei (Gaia)

 

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