Trazer Sophia para o espanto da luz

| 8 Nov 19 | Cultura e artes - homepage, Literatura e Poesia, Newsletter, Últimas

Sophia de Mello Breyner Andresen numa foto datada provavelmente dos anos 1950. Foto Fernando Lemos/Direitos reservados

 

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP). A iniciativa pretende também comemorar os 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, cuja data se assinalou quarta-feira, dia 6.

José Rui Teixeira, director da Cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner, da UCP, e um dos principais responsáveis pela organização do colóquio, diz ao 7MARGENS que crentes e não-crentes irão debater o tema. Também para reflectir sobre o lugar que as artes podem ter para a missão e actividade da Igreja Católica.

O positivismo teológico está em crise, “paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade”, nota o director da Cátedra na apresentação do colóquio. Mas “tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia”. E na sua “performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico” da sua referência fundamental: “a transluminosa treva do Silêncio”, como escrevia o Pseudo-Dionísio Areopagita, pseudónimo de um autor místico cristão do século VI, que influenciou muitos debates durante a Idade Média.

Estas percepções levaram mesmo José Rui Teixeira a cunhar um neologismo: “teotopias”, a análise do lugar de Deus na literatura. Trata-se de estabelecer uma “teo-topografia”: “Falamos muito do problema do tempo, mas não do espaço”, diz. “A ideia é ver as coordenadas dos lugares habitados pela humanidade e por Deus”. O neologismo tem já mesmo uma casa na internet, que inclui textos, uma revista, notícias de edições e de iniciativas como o presente colóquio.

Precisamente nesta sexta-feira, será colocado à venda o livro Vestigia Dei – Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa (ed. Cosmorama), da autoria de José Rui Teixeira, com uma capa onde se reproduz um desenho de José Rodrigues. “E para que servem poetas em tempos de indigência?”, pergunta o autor, na apresentação do volume. Desde logo, para interceder por Deus junto dos homens, explica: “Servem para redescobrir esse espaço em que a imanência e a transcendência se intersectam. O poeta a que se refere Hölderlin desdobra a área de interseção trans-imanente: lugar coabitado, teotopia poética. O poeta desdobra a área de intersecção trans-imanente: é um mediador, agente de intercessão ao modo do santo, mas em sentido inverso: o santo intercede pelos homens junto de Deus, o poeta intercede por Deus junto dos homens.”

Desenho de José Rodrigues na capa do livro “Vestigia Dei – Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa”, da autoria de José Rui Teixeira.

 

Também a Cátedra pretende também ser “uma unidade académica para desenhar os critérios sobre o lugar de Deus” nas artes, diz ainda. E este colóquio, organizado em conjunto com a Faculdade de Teologia da UCP e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, dará atenção a eixos temáticos como as continuidades e descontinuidades entre linguagem poética e linguagem teológica; inter[con]textualidades da linguagem poética e linguagem mística; e aproximações estético-fenomenológicas entre linguagem poética e sagrado.

No programa do colóquio, estarão em debate autores como Dalila Pereira da Costa, Mário Cláudio, Vergílio Ferreira, Ruy Belo, Daniel Faria, Luiza Neto Jorge, Jorge de Sena, Fernando Pessoa e Frei Agostinho da Cruz, além da própria Sophia – o dia de sábado será fundamentalmente dedicado à autora de No Tempo Dividido. Haverá também reflexões sobre poetas e autores estrangeiros como Amelia Biagioni, Alejandra Pizarnik, Hugo Mujica, Graham Greene ou Adélia Prado.

Entre os intervenientes, contam-se académicos portugueses (entre os quais Arnaldo de Pinho, um dos mais importantes investigadores da obra de Sophia e antigo director do Centro de Estudos do Pensamento Português) e estrangeiros (participam quatro estrangeiros, dois espanhóis, dois brasileiros e uma italiana), cujos nomes e temas podem ser conferidos no programa completo.

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