Programa do Papa para o Jubileu 2025

Trégua global, perdão da dívida, amnistia, dinheiro para matar a fome e uma data comum para a Páscoa

| 9 Mai 2024

Unicef, Crianças, Guerra

“As crianças perdem sempre a guerra”. Imagem criada para a Unicef por Victor Torres, Fabián Ovando, Kenneth Foweraker, Ricardo Börgel/Agência de publicidade HavasCreative, de Santiago do Chile; produção: Semilla Studio (Santiago do Chile): o Papa pergunta se “será excessivo sonhar que as armas se calem e deixem de difundir destruição e morte?”.

Uma trégua global nos conflitos e guerras que grassam no mundo, o perdão das dívidas dos países pobres, como forma de reparação histórica, uma amnistia para os presos e o convite a todos os cristãos a que encontrem uma data comum para celebrar a Páscoa. É todo um programa de iniciativas o que o Papa propõe na bula de proclamação do Jubileu 2025, que o próprio Francisco apresentou na tarde desta quinta-feira, dia litúrgico da Ascensão no calendário católico, durante uma celebração na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Fazendo referência ao tema do Jubileu e ao título da bula, Spes non confundit (“A esperança não desilude”), Francisco escreve: “Que o primeiro sinal de esperança se traduza em paz para o mundo, mais uma vez imerso na tragédia da guerra.” Lamenta depois que a humanidade se mostre “esquecida dos dramas do passado” e esteja de “novo submetida a uma difícil prova, que vê muitas populações oprimidas pela brutalidade da violência”. E faz várias perguntas: “Faltará ainda a esses povos algo que não tenham já sofrido? Como é possível que o seu desesperado grito de ajuda não impulsione os responsáveis das nações a querer pôr fim aos demasiados conflitos regionais, cientes das consequências que daí podem derivar a nível mundial? Será excessivo sonhar que as armas se calem e deixem de difundir destruição e morte?”.

O título do documento inspira-se numa passagem da Carta de São Paulo aos Romanos (5,5), que diz: “A esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi concedido.” No texto, Francisco pede empenho da diplomacia para se “construírem, de forma corajosa e criativa, espaços de negociação em vista duma paz duradoura”. E, condenando a “chaga escandalosa” da fome, o Papa renova o apelo, feito já na encíclica Fratelli Tutti, “para que, ‘com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, constituamos um Fundo global para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres’”.

As celebrações do Ano Santo, ou Ano Jubilar, decorrem entre 28 de Dezembro de 2024 e 6 de Janeiro de 2026, neste que será o 27.º jubileu ordinário da história da Igreja Católica. Os jubileus retomam a tradição bíblica do ano de descanso que era dado à terra e que servia também para o perdão das dívidas. Na sua forma actual, os jubileus foram instituídos pelo Papa Bonifácio VIII, em 1300. Primeiro, era para ser celebrado a cada 100 anos, passou depois a 50 em finalmente, a cada 25. O último foi proclamado e presidido no ano 2000 pelo Papa João Paulo II, que nessa altura fez uma grande insistência na ideia de perdão da dívida aos países pobres, no que teve a colaboração de Bono Vox, o vocalista dos U2.

Também sobre este ponto, o Papa dirige-se aos responsáveis das nações mais ricas, para que “reconheçam a gravidade de muitas decisões tomadas e estabeleçam o perdão das dívidas dos países que nunca poderão pagá-las”.

“Mais do que magnanimidade, é uma questão de justiça, agravada hoje por uma nova forma de desigualdade de que se vai tomando consciência: com efeito, há uma verdadeira ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efetuado, historicamente, por alguns países”, acrescenta no documento.

“Se queremos verdadeiramente preparar no mundo a senda da paz, empenhemo-nos em remediar as causas remotas das injustiças, reformulemos as dívidas injustas e insolventes, saciemos os famintos.”

 

Amnistiar presos e cuidar dos jovens e dos frágeis

Prisões, Presos

Uma amnistia para os presos seria um sinal de “esperança”, escreve Francisco. Foto © Wendy Alvarez / Unsplash

Na bula de proclamação do Jubileu 2025, o Papa apela ainda a uma amnistia para os presos, como sinal de “esperança”, anunciando que irá abrir uma “porta santa” numa cadeia. “Proponho aos governos que, no Ano Jubilar, tomem iniciativas que restituam esperança aos presos: formas de amnistia ou de perdão da pena que ajudem as pessoas a recuperar a confiança em si mesmas e na sociedade; percursos de reinserção na comunidade, aos quais corresponda um compromisso concreto de cumprir as leis”, escreve.

Alertando para o “vazio afetivo” em que vivem muitos reclusos, o Papa pede que os responsáveis católicos unam a sua voz para pedir “condições dignas” para quem está preso, “respeito pelos direitos humanos e sobretudo a abolição da pena de morte, uma medida inadmissível para a fé cristã”.

“A fim de oferecer aos presos um sinal concreto de proximidade, eu mesmo desejo abrir uma porta santa numa prisão, para que seja para eles um símbolo que os convida a olhar o futuro com esperança e renovado compromisso de vida”, acrescenta.

Na bula, Francisco deixa ainda uma mensagem particular aos doentes e aos profissionais de saúde, considerando que o cuidado com quem sofre “é um hino à dignidade humana, um canto de esperança que exige a sincronização de toda a sociedade”. E dirige-se aos jovens, que enfrentam um futuro “incerto”, pedindo que rejeitem “a ilusão das drogas, o risco da transgressão e a busca do efémero”.

“Que o Jubileu seja, na Igreja, ocasião para um impulso em seu favor: com renovada paixão, cuidemos dos adolescentes, dos estudantes, dos namorados, das gerações jovens! Mantenhamo-nos próximo dos jovens, alegria e esperança da Igreja e do mundo”, pede.

O Papa alerta também para os “preconceitos e isolamentos” que afetam migrantes, exilados, deslocados e refugiados, desejando que cada comunidade cristã esteja “sempre pronta a defender os direitos dos mais fracos”.

Sinais de esperança merecem-nos os idosos, que muitas vezes experimentam a solidão e o sentimento de abandono. Valorizar o tesouro que eles são, a sua experiência de vida, a sabedoria que trazem consigo e o contributo que podem dar, é um empenho da comunidade cristã e da sociedade civil, chamadas a trabalhar em conjunto em prol da aliança entre as gerações”.

O documento que convoca o Jubileu 2025 deixa uma referência especial aos “milhares de milhões de pobres, a quem muitas vezes falta o necessário para viver”. E acrescenta: “Não podemos desviar o olhar de situações tão dramáticas, que se veem já por todo o lado, e não apenas em certas zonas do mundo.”

No texto, o Papa sugere ainda uma “aliança social em prol da esperança, que seja inclusiva e não ideológica”, e uma abertura à vida com “uma maternidade e uma paternidade responsáveis”, lamentando que se assista a uma “preocupante queda da natalidade”.

 

Um Jubileu com forte dimensão ecuménica

Taizé, Liubliana, ecumenismo

Oração no 46º Encontro Europeu de Taizé, em Liubliana (Eslovénia). em Dezembro 2023: o Papa quer que o ecumenismo marque também o Jubileu. Foto © Laura Pisanello, cedida pela autora

Coincidindo com o ano em que se assinalam os 1700 anos do Concilio de Niceia, durante o qual foi assumida a profissão de fé que uniu os cristãos [ver 7MARGENS],

o Papa dá ao Jubileu uma dimensão fortemente ecuménica. E convida as Igrejas cristãs a entenderem-se para definir uma data comum para a Páscoa, na qual coincidem em 2025.

“Seja isto um apelo a todos os cristãos do Oriente e do Ocidente para darem resolutamente um passo rumo à unidade em torno duma data comum para a Páscoa. Vale a pena recordar que muitos desconhecem as diatribes do passado e não entendem como possam subsistir divisões a tal propósito”, escreve.

“Niceia constitui também um convite a todas as Igrejas e Comunidades eclesiais para avançarem rumo à unidade visível, não se cansando de procurar formas apropriadas para corresponder plenamente à oração de Jesus”, acrescenta o Papa.

Relacionando o Jubileu com o actual momento que a Igreja Católica está a viver, o Papa Francisco diz que nos primeiros séculos da fé cristã se multiplicaram “os Sínodos tanto no Oriente como no Ocidente cristão, mostrando como era importante guardar a unidade do Povo de Deus e o anúncio fiel do Evangelho”. O Ano Jubilar pode, agora, “ser uma importante oportunidade para tornar concreto este modo sinodal, que hoje a comunidade cristã sente como expressão cada vez mais necessária para melhor corresponder à urgência da evangelização”.

Ainda com um sentido ecuménico, haverá uma rota de peregrinação proposta, a Iter europaeum – 28 Igrejas de 27 países europeus e da União Europeia, e mais alguns templos de outras comunidades cristãs, em Roma. Do mesmo modo, o Papa propõe o ecumenismo dos mártires que, “pertencentes às diferentes tradições cristãs, são também sementes de unidade, porque exprimem o ecumenismo do sangue” E sugere que haja uma “celebração ecuménica para evidenciar a riqueza do testemunho destes mártires”.

 

Guerra e Paz: angústias e compromissos

Um ensaio

Guerra e Paz: angústias e compromissos novidade

Este é um escrito de um cristão angustiado e desorientado, e também com medo, porque acredita que uma guerra devastadora na Europa é de alta probabilidade. Quando se chega a este ponto, é porque a esperança é já pequena. Manda a consciência tentar fazer o possível por evitar a guerra e dar uma oportunidade à paz. — ensaio de Nuno Caiado

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