De 31 de agosto a 4 de setembro

Três eixos-motivos para a inesperada visita do Papa à Mongólia

| 28 Ago 2023

Vista aérea de Ulan Bator, capital da Mongólia. Foto Andrey Khrobostov

Vista aérea de Ulan Bator, capital da Mongólia, onde Francisco chegará esta sexta-feira. Foto © Andrey Khrobostov.

 

Quando ainda se digere a sua visita a Portugal para participar na Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco parte nesta quinta-feira, dia 31, para a Mongólia, onde vai encontrar-se com pouco mais de milhar e meio de fiéis. É a primeira vez que um Papa visita esta ex-república socialista, encravada entre a Rússia e a China, quase nos confins da Ásia. A diplomacia vaticana tem o olhar projetado sobre toda a Rota da Seda, mas pode haver outros motivos de interesse.

O Papa parte de Roma ao fim do dia de quinta-feira e chega no dia seguinte à capital da Mongólia, Ulan Bator, ficando esse dia sem programa oficial (também para adaptação à diferença horária).

No sábado, a manhã estará ocupada com encontros com as autoridades políticas, diplomáticas e da sociedade civil e audiências com o Presidente, presidente do parlamento e chefe do governo, enquanto à tarde terá um encontro com bispos, presbíteros e religiosos e fiéis.

No domingo, o momento alto será a celebração da eucaristia na Steppe Arena, havendo ainda um encontro ecuménico e inter-religioso.

No último dia, antes de partir, pelo meio dia (hora local), Francisco terá um encontro com colaboradores de instituições de caridade e inaugurará uma instituição de beneficência.

 

Crise ambiental no centro?

Se fosse pelo número de batizados, o Papa faria melhor ao gastar as suas energias noutra visita ou tarefa. Mas não é o número que conta. “Partirei em viagem de alguns dias ao coração da Ásia, na Mongólia. Esta é uma visita muito desejada e será a oportunidade de abraçar uma Igreja pequena em número, mas viva na caridade, para encontrar um povo nobre e sábio”, afirmou Francisco, este domingo, 27, na oração do Angelus.

Além do motivo da proximidade e conforto aos católicos locais e às redes em que eles se inserem e que constroem, esta visita do Papa é vista pelo teólogo e antropólogo cultural Francês Michel Chambon, como tendo três objetivos, num artigo que escreveu para o site The Diplomat.

Um é de natureza geoestratégica, relacionado, em particular, com a guerra que a Rússia impôs à Ucrânia. Neste quadro, segundo o analista, o Papa pretende mostrar que, apesar de consciente dos limites da ação do Vaticano e do pouco que tem conseguido quer junto de Moscovo quer de Pequim, “permanece firme no seu compromisso com o diálogo”.

O segundo objetivo seria dar um sinal claro de estar com o povo da Mongólia, o qual, 30 anos depois do colapso da União Soviética e da conquista de um caminho próprio para o desenvolvimento, vê crescer o desgaste dos ideais democráticos e a corrupção a ganhar terreno. “Num ambiente em que as influências vizinhas são grandes, as tendências autoritárias podem ressurgir”, considera Michel Chambon. O que poderá levar o Pontífice a insistir nos “fundamentos éticos das virtudes cívicas, promovendo políticas sociais inclusivas”.

Finalmente, o terceiro motivo será em torno dos destinos da casa comum, um dos eixos do pontificado deste Papa. Nesta matéria, o caso da Mongólia, que os próprios mongoleses consideram “o segundo pulmão do mundo”, ao lado da Amazónia, já que é o grande filtro da água do planeta, pode ser um excelente motivo para Francisco desenvolver o que escreveu na encíclica Laudato Si’. Acresce que, apesar de ser considerado um país pobre, a Mongólia tem riquíssimos recursos minerais, que têm sido sobre-explorados por empresas russas, chinesas e australianas. “Depois de décadas de abusos, o país enfrenta uma crise ambiental que pode afetar ecossistemas inteiros da Europa e da Ásia”, conclui o analista.

 

Um país maioritariamente budista

Papa com autoridades do budismo da Mongólia, recebidas em audiência em 28/5/2022 , Foto Vatican Media

Papa recebe líderes budistas da Mongólia, em maio de 2022. Foto © Vatican Media.

 

A relação da Igreja Católica com a Mongólia remonta pelo menos ao séc. XIII e é recordada pelo prefeito apostólico de Ulan Bator, o cardeal Georgio Marengo, numa entrevista dada ao Vatican News: ela “pode ser ligada a um evento que ocorreu há oitocentos anos, quando o Papa Inocêncio IV enviou o frade Giovanni da Pian del Carpine como seu mensageiro de paz aos mongóis que estavam às portas da Europa”. Em suma, os primeiros contactos entre os papas e os imperadores mongóis já existiam no século XIII”.

Contudo, só depois do fim do regime soviético e da democratização do país é que os dois estados estabeleceram relações diplomáticas, formalizadas em 1992, o que possibilitou a verdadeira fundação da Igreja Católica no país. Os católicos andavam pelo meio milhar no ano 2000 e são, atualmente, cerca de 1500, maioritariamente ligados a instituições estrangeiras presentes no território. Os missionários, por exemplo, vêm em boa parte da Coreia do Sul.

Do ponto de vista religioso, a Mongólia é maioritariamente budista, ainda que o shamanismo tenha alguma influência na sociedade. Os que se declaram sem filiação religiosa são mais de 40 por cento. Em todo o caso, os mongoleses são conhecidos pela sua tolerância religiosa e pela atitude de acolhimento.

 

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