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À Margem_Jorge Wemans

Três encontros felizes… e outro que promete

| 21/11/2024

À Margem_Jorge Wemans A conferência de hoje, quinta, 22, proferida em Lisboa por Tomáš Halík, concluiu uma série feliz de três encontros muito diversos entre si, no conteúdo e na forma, mas todos portadores de um mesmo significado: existe um conjunto alargado de católicos interessados em não deixar morrer a dinâmica criada pelo último Sínodo e desejosos de participar ativamente no aprofundamento do carácter sinodal da Igreja em Portugal.

Não importa tanto reter o facto de serem uma minoria os que afirmam aquela vontade e partilham tal desejo. No quadro de uma Igreja Católica que em Portugal é mais tridentina do que inspirada pelo Concílio Vaticano II, ultraclerical e incipientemente sinodal, não seria de esperar outra coisa.

Mágico ou milagroso seria ver, de repente e sem mais, as paróquias, os movimentos, as dioceses e outras instituições católicas a fomentar a participação corresponsável dos leigos, estes a tomarem parte nas decisões que afetam a vida comunitária em todos esses níveis e a exigirem “a prestação de contas do próprio ministério à comunidade” que, como refere o nº 95 do Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade “pertence à tradição mais antiga, que remonta à Igreja Apostólica”.

E quantos católicos em Portugal gostariam de participar, sentindo que têm algo a contribuir, no discernimento a que aquele documento os convida quando afirma no seu nº 60: “(…) Não há razões que impeçam as mulheres de assumir funções de liderança na Igreja: não se pode impedir o que vem do Espírito Santo. A questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal também permanece em aberto. É necessário prosseguir o discernimento a este respeito.”

Tendo em conta a realidade de onde partimos, o caminho a percorrer e as mudanças a introduzir no modo de ser Igreja em Portugal para que algo do que são os desafios deixados pelos padres sinodais se possa tornar realidade são de tal dimensão e amplitude que podem descorçoar os menos convictos. Por outro lado, esse longo caminho e as imensas mudanças exigidas pelo aggiornamento à sinodalidade da Igreja em Portugal favorece, por ser tão enorme, os (muitos) que defendem o imobilismo, confundindo o atual modo de ser com a única e permanente forma possível na verdadeira fidelidade ao Evangelho. Bem pode o Papa Francisco pregar que o conceito “sempre foi assim” é não só errado (porque nem sempre foi assim!), mas sobretudo constitui “um veneno na vida da Igreja”.

 

O mundo à espera da Igreja

Tomáš Halík na Fundação Gulbenkian, na conferência a propósito da publicação do seu livro O Sonho de Uma Nova Manhã. Foto © António Marujo/7MARGENS

Tomáš Halík, na sua conferência de hoje à tarde, situou-se, tal como o faz no seu último livro O Sonho de Um Nova Manhã, agora editado pela Paulinas Editora, para lá das fronteiras do debate clericalizado, salientando para “os que temem a perda de identidade da Igreja”, que esta “não se encontra dentro dos muros das igrejas, mas deve antes ser procurada fora de portas, junto dos pobres, feridos e excluídos do nosso tempo que transportam as próprias feridas do Cristo ressuscitado”.

Quanto ao movimento sinodal que o Papa Francisco desencadeou, Halík considerou-o, “caso vá por diante e se aprofunde”, um “enorme contributo para a recuperação da credibilidade da Igreja, mas como um contributo importantíssimo para a própria humanidade”, enquanto método capaz de responder às questões do nosso tempo.

O teólogo checo revelou que, além das cartas a um Papa sonhado – que é o seu correspondente no livro O Sonho de Um Nova Manhã –, tinha recentemente enviado uma carta ao Papa Francisco em que propunha “que o próximo grande passo no processo de renovação sinodal fosse um sínodo ecuménico de teólogos, por quanto os teólogos, representando diferentes tradições cristãs, devem aprender não só em estudos académicos, em conferências e congressos, mas também em reuniões sinodais, para se ouvirem e, assim, escutarem o que ‘o Espírito está dizendo às igrejas hoje’”.

Mas, já antes dele, no debate organizado pelo 7MARGENS no dia 14 de novembro, mais de 160 pessoas ouviram os teólogos Cristina Inogés Sanz e João Duque e a jornalista Clara Raimundo apresentarem a sua avaliação do Sínodo em que participaram (caso da teóloga), que seguiram com atenção (caso do teólogo), ou que acompanharam de perto (caso da jornalista). Quem esteve presente durante aquelas duas horas, mais do que simplesmente ouvir, tratou de participar. A partir de uma leitura do Documento Final informada das peripécias e processos que permitem entender melhor as razões do que nele vai escrito e do que nele ficou por inscrever, a conversa centrou-se de imediato sobre como traduzir para a realidade da Igreja Católica em Portugal o conteúdo mais inovador daquele texto.

A vontade e o desejo de caminhar em direção a uma Igreja sinodal para que esta constitua uma experiência comunitária de fé capaz de seduzir os nossos contemporâneos “buscadores de sentido” impôs-se à mágoa resultante da distância entre o que o povo de Deus foi dizendo e escrevendo durante estes quatro anos de reflexão sinodal e as conclusões finais do Sínodo. Ou seja, tendo em conta tudo o que foi soprado pelo Espírito aos grupos de discernimento espalhados por todo o mundo, o resultado sinodal sabe a pouco. Mas não foi o desalento desse pouco que caracterizou o debate de 14 de novembro. Pelo contrário, a procura dos passos a dar, das questões a eleger como prioritárias, dos caminhos a percorrer e das pessoas a desafiar esteve no centro das intervenções havidas.

 

Ordenação das mulheres e hino à criação

Andrea Grillo

Teólogo italiano Andrea Grillo, fotografado em Lisboa no dia 16. Foto © António Marujo/7MARGENS

Também no sábado 16 de novembro, o teólogo Andrea Grillo, falando em Lisboa numa conferência organizada pelo portal dos Jesuítas, Ponto SJ, tinha alertado para o “mecanismo de bloqueio” enxertado na Igreja Católica pelo recurso ao medo de cisma e ao “não podemos” mudar aspetos da doutrina e da prática eclesial pois decorrem diretamente da vontade de Deus e, por conseguinte, não compete à Igreja repensar ou modificar. Refutando as razões que presidiram a este “mecanismo de bloqueio”, Grillo defendeu a necessidade de aprofundar o pensamento e a reflexão teológica, escutando e indo ao encontro das pessoas e, assim, descortinar e percorrer caminhos novos para a Igreja Católica.

Novos caminhos que não podem deixar de se fundar no confronto (e aprendizagem) com a cultura atual e nos ensinamentos do Concílio Vaticano II que substituiu a conceção de uma Igreja em que “os leigos são súbditos e o clero soberano” por uma visão de Igreja em que todos os batizados e batizadas integram uma “complexa ‘participação’ nos dons de Cristo, isto é, na profecia, na realeza e no sacerdócio”. Ou seja, seguindo Grillo: “O Concílio Vaticano II ensina, ainda melhor do que alguns juristas, que os três ’munera’ (profecia-palavra, reino-governo e sacerdócio-santificação) dizem respeito a todos os membros do povo de Deus. Uma vocação universal ao ministério ordenado, como é correto dizer sem receio, implica não só uma vocação ‘de todos’ e ‘de todas’ ao ministério, mas também uma vocação universal a todo o ministério, a todos os seus aspetos.”

A partir da desconstrução da conceção antiga de Igreja é também preciso “descobrir que o ‘mundo’ é lugar de presença do Espírito” o que “constitui a oportunidade para uma interpretação do dom do Espírito para a vida do mundo”, que deve oferecer uma reconstrução da relação entre a Igreja e o mundo capaz de mediar entre escândalo e reconhecimento”.

Quer a conferência escutada por duas centenas de pessoas quer a conversa em pequenos grupos quer ainda a sessão final de perguntas e respostas permitiram consolidar o pensamento teológico e eclesiológico que fundamenta a convicção de que sendo a Igreja para o mundo, só uma Igreja verdadeiramente sinodal o poderá ser. E pressentia-se ser esse o sentir dos que enchiam o auditório.

Para não ficar, neste registo de encontro felizes, apenas pelo já acontecido, lembro que amanhã, sexta-feira dia 22 de novembro, João Maria Carvalho canta, no adro da Igreja de Santa Isabel – na Rua Saraiva de Carvalho nº 2, em Lisboa –, o Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis. Às 7h30 a sua voz encherá, pela última vez esta semana, o espaço diante da igreja, despertando a manhã e a cidade para louvar a Criação, “cantando a nossa proximidade e dependência de todas as criaturas”. A iniciativa tem como pano de fundo a Cimeira do Clima que deverá terminar este domingo, em Bacu, e os organizadores definem a sua intenção deste modo: “Cantamos, porque acreditamos que uma outra forma de estar sobre a Terra – mais justa, mais fraterna – é possível. Cantamos por todos aqueles a quem foi tirado o direito a cantar. Enquanto tudo o que existe não puder louvar, não deixaremos de o fazer.”

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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