
Bento XVI na celebração da eucaristia na Praça do Comércio, em Lisboa, 11 de Maio de 2010. Foto © Daniel Rocha/Público, cedida pelo autor.
Ao ler as primeiras palavras e títulos das notícias após a morte de Bento XVI, fez-me muita impressão como o traço mais marcado da pessoa – o seu pensamento evolucionário – ficou ocultado pelo sensacionalismo despertado pelo entretenimento fácil que os escândalos na Igreja Católica suscitam no insaciável desejo pelo melhor sensacionalismo que adormenta as mentes. Pelo contrário, Bento XVI procurou ao longo da sua vida despertar as mentes e os corações e, por isso, não era lá muito divertido. Porém, não escondo a sensação que tenho de que a racionalidade presente no conteúdo de muitas notícias seculares após a sua morte se pautou por alguma trivialidade. Graças a Bento XVI, a racionalidade no amor tem a capacidade de converter a trivialidade em profundidade. Uma ideia que antes de ser Papa habitava no coração e mente de Joseph Ratzinger.
“No Cristianismo, a racionalidade tornou-se religião” — afirmou Joseph Ratzinger numa entrevista publicada no livro Existe Deus? (ed. Pedra Angular). Muitas das imagens que temos de Deus são triviais e Ratzinger procurou com o seu pensamento e perspicácia teológica ajudar-nos a sair dessa trivialidade, convidando a ir em profundidade. Por outro lado, os cientistas e trabalhadores do conhecimento (knowledge workers) pensam de um modo racional e muitos tendem a visionar o que poderia ser uma prova científica da existência de Deus, pelo que Ratzinger ajudou, nessa entrevista, a compreender que a questão está ausente de sentido e significado. Por fim, os ouvidos levam-nos a pensar num Deus silencioso, mas Ratzinger mostra como Deus é tudo menos silencioso. Talvez a nossa surdez esteja em restringir o que escutamos ao que fisicamente ouvimos. Depois de eleito Papa, Ratzinger assumiu um nome novo e com esse uma nova missão, Bento XVI.
Lembro-me de quando ele foi escolhido pelos cardeais pairar no ar (leia-se comunicação social) um sentimento misto de “pode ser” e “isto não é nada bom” em relação ao antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ser Papa. Muitos achavam que a Igreja se tornaria, talvez, numa espiritualidade intelectualista, esquecendo que Ratzinger conhecia a diferença entre ser teólogo e agir como pastor. A demonstração disso foram as profundas três “pequenas” cartas encíclicas repletas de sabedoria e a sua opus magnum dedicada a Jesus de Nazaré. Porém, daquilo que pude aprender com Bento XVI, destacaria três ideias que considero evolucionárias.
A Ideia de “Corpo-Alma”

Na sua Introdução ao Cristianismo [1967], Ratzinger afirmava sobre a alma que “aquilo que amadureceu durante a existência terrena de espiritualidade corporificada e de corporalidade espiritualizada continuará a existir de outra maneira”.
Ou seja, não há qualquer separação entre corpo e alma porque a palavra “alma” possui um significado maior do que o nosso ser restrito à dimensão espiritual humana. A “alma” corresponde à totalidade de nós mesmos, corpo-mente-espírito numa unidade indivisa. Nesse sentido, pensando em Maria como a pessoa que mais se aproxima da nossa condição de criatura e teve uma união inigualável com Deus, a transparência de alma no corpo que descobrimos nela, e que poderíamos imitar, deve entender-se como transparência de sermos interlocutores de Deus, chamados a um diálogo para além do tempo e do espaço com Ele, o que dá origem a um conceito relacional de alma que devemos ter presente. Mas em relação a Maria, Bento XVI desenvolveu uma segunda ideia evolucionária relacionada com um tema bem actual: a ecologia.
Maria e Ecologia

Bento XVI em Fátima, Maio de 2010. “Maria Imaculada ajuda-nos a redescobrir e defender a profundidade das pessoas, porque nela existe uma perfeita transparência da alma no corpo.” Foto © Santuário de Fátima/Direitos reservados.
Em Dezembro de 2009, Bento XVI reflectia por ocasião da solenidade da Imaculada Conceição sobre a pureza de Maria e a vida na cidade. No seu discurso adianta um exemplo prático do tipo de poluição que pode haver relativa à ecologia espiritual (a terceira da tríade entre essa, a ambiental e a humana [1]) e dos eco-males que lhes estão associados, encontrando em Maria uma via que ajuda a ultrapassar a crise ecológico-espiritual onde a alma se entende como a totalidade do nosso ser.
Diz Bento XVI que “Nós muitas vezes lamentamos a poluição do ar, que em determinados locais da cidade é irrespirável. É verdade: precisamos do empenho de todos para fazer a limpeza da cidade. E, no entanto, existe uma outra poluição, menos perceptível aos sentidos, mas tão perigosa como a outra. É a poluição do espírito, é o que torna a nossa cara menos sorridente, mais sombria, o que nos leva a não cumprimentar uns aos outros, a não olhar para o outro no rosto. A cidade é feita de rostos, mas, infelizmente, a dinâmica colectiva pode fazer desaparecer a percepção da sua profundidade. Nós vemos tudo superficialmente. As pessoas tornam-se corpos, e estes corpos perdem a alma, tornam-se coisas, objectos sem rosto a serem trocados e consumidos. Maria Imaculada ajuda-nos a redescobrir e defender a profundidade das pessoas, porque nela existe uma perfeita transparência da alma no corpo.»
Maria cuida de nós ao ajudar-nos a sermos mais transparentes como ela. Mas, para isso, seria necessário compreender uma terceira ideia evolucionária orientada para a descoberta da Verdade nesta época de (Des)Informação.
Verdade que nos liberta da desinformação

Na encíclica Caridade na Verdade, Bento XVI escreve que “Em cada verdade, há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado; no amor que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos surpreende”.
No Dia Mundial da Paz em 2010, Bento XVI dizia ser “preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização”. E uma das formas de o fazer seria crescer no modo como lidamos com o mar de informação no qual navegamos todos os dias.
Nesse mar a céu aberto, iluminado por uma luz uniforme, não conseguimos distinguir um Sol que nos oriente. A universalização dos conteúdos que nos chegam pela internet como informação, levam muitos a tomar trigo pelo joio e joio pelo trigo. A incapacidade de sabermos o que é real ou ficção resulta da proliferação da desinformação. Aliás, a verdade passou a ser uma ilha difícil de descobrir.
O que fazer? Bento XVI propõe uma ideia evolucionária que parte da vida: amar, vivendo a caridade na verdade. E questionar como acto de amor na procura da verdade. Na encíclica Caridade na Verdade escreve que “conhecer não é um acto apenas material, porque o conhecido esconde sempre algo que está para além do dado empírico. (…) Em cada verdade, há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado; no amor que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos surpreende” (nº 77).
A simplicidade sapiencial de Bento XVI que procurou sempre a verdade com a mente e coração, ficará connosco para sempre nas palavras que nos deixou e que vale a pena meditar por muito, muito tempo.
Notas:
[1] Miguel O. Panão, “Pensamento ecológico a partir da Caritatis in Veritate”, Brotéria 170 (2010), pp. 357-370.
Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao. Contacto: miguel@miguelpanao.com










