AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Entre Margens

Três reis para uma cadeira

 

11 de novembro de 1975. Eu estava lá.

É meia-noite em Angola.

Há uma bandeira a flutuar no céu sem estrelas de Luanda e um presidente, Agostinho Neto, apadrinhado pela Rússia, a proclamar “para o país e para o mundo” a independência nacional.

A 800 quilómetros, no Huambo, agitando outra bandeira, outro presidente, Jonas Savimbi, com a bênção dos Estados Unidos, lança o mesmo pregão.

Holden Roberto é o terceiro presidente a empunhar a outra bandeira da independência, no Uíje, apoiado pelo vizinho Mobutu do Congo-Kinshasa.

Em lugares diferentes, com povos diferentes, línguas e festas diferentes, só uma coisa reclamam em comum: a Cadeira de Presidente.

A seguir, a história foi escrita pelas armas. A balcanização ideológica depressa passou ao confronto, à destruição, à dispersão.

Enquanto a Cadeira esperava por um Presidente, os padrinhos iam falando de paz em bases aéreas e em barcos de guerra.

Como sempre, as nações grandes fazem a guerra com os soldados das pequenas. Ou, como se diz por lá: quando os elefantes lutam, quem paga é o capim.

O país esvaziou-se de técnicos, agricultores, industriais e encheu-se de mutilados, órfãos, viúvas, oportunistas, mercenários e generais.

Os missionários ficaram. Solidários na dor, na cultura, na política e na língua do seu povo.

No Norte, o missionário celebrou a independência na língua do povo e ao ritmo bakongo. No centro do país, a festa era seguida em umbundo. Em Luanda, onde eu estava, em vez do kimbundu,acompanhámos o momento na língua que vinha da emissora nacional de Lisboa. A liturgia era diferente consoante a língua e a política. Só o refrão era o mesmo: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz”.

Também a política é uma missão. Se for exercida sem armas e sem confrontos, mas com diálogo, tolerância e aceitando a diferença.

Naqueles dias conturbados, o missionário tinha de saber fazer o discernimento evangélico: afirmar na língua de cada um, sim sim, não não (Mateus 5,37); assumir a cultura de cada um, fiz-me tudo para todos (1 Coríntios 9,22); entrar na política de cada um, dando a Deus o que é de Deus e a César o que é de César ( Marcos 12,13-17).

Manuel Rito Dias (à direita) em Luanda com frei Benjamin Maiato, que morreu em Lisboa, em 2017, e cuja causa de beatificação será introduzida em breve pelos Capuchinhos de Angola. Frei Maiato foi uma referência religiosa, cultural e política em Angola, pela sua simplicidade, sabedoria e cultura, admirado por pessoas do povo e muitas figuras públicas do país. Foto: Direitos reservados.

Manuel Rito Dias (à direita) em Luanda com frei Benjamin Maiato, que morreu em Lisboa, em 2017, e cuja causa de beatificação será introduzida em breve pelos Capuchinhos de Angola. Frei Maiato foi uma referência religiosa, cultural e política em Angola, pela sua simplicidade, sabedoria e cultura, admirado por pessoas do povo e muitas figuras públicas do país. Foto: Direitos reservados.

Manuel Rito Dias é frade da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e autor do livro Estradas da Memória, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

Notícias Relacionadas

Notícias Relacionadas

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.