uma guerra longa, comenta-se, não serve os interesses de ninguém.
pensando bem, um morticínio rápido, asséptico,
em voo de águia,
só tem vantagens,
tanto logísticas como mediáticas, é bom de ver.
além do mais evitam-se aborrecimentos suplementares:
trocas de prisioneiros, claro,
e aquele cansaço do direito humanitário.
já não há paciência para crianças retalhadas
em horário nobre,
restos de vísceras, jogos de ossos, dedos avulso,
comentados em directo, semanas a fio.
um nojo
para pessoas sensíveis.
um enfado para o governo
a quem não basta a maçada de cumprir com o seu dono
e para ele reforçar a ordem pública.
até aquela curiosidade de caserna,
(pequena pérola do genocídio anterior)
– um pénis carbonizado trazido no bolso como troféu de caça,
acaba por incomodar o espectador que chega cansado do emprego:
mesmo em torresmo, há partes da anatomia humana que convém não exibir,
nem no jornal da noite nem nas aulas de cidadania.
sejamos sérios:
se o sangue se dissimular silencioso,
como se escoa o tempo,
em sua sabedoria alquímica,
se,
sobretudo,
os preços dos combustíveis permanecerem dóceis,
a má consciência ficará boa num instante.
Luís Soares Barbosa é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis.
Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância”.










