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Reprodução de "Mãe africana a carregar o seu filho". © Arthckunskap, CC BY-SA 3.0 , via Wikimedia Commons.

[Os dias de Cabo Delgado]

Trevas e luzes

"Vi-me como uma mãe, com a sua criança às costas, abrindo caminho pelo emaranhado de ruas desconhecidas, numa cidade já distante na memória." Reprodução de "Mãe africana a carregar o seu filho". © Arthckunskap, CC BY-SA 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0>, via Wikimedia Commons.

“Vi-me como uma mãe, com a sua criança às costas, abrindo caminho pelo emaranhado de ruas desconhecidas, numa cidade já distante na memória.” Reprodução de “Mãe africana a carregar o seu filho”. Ilustração © Arthckunskap, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

 

Vi-me como uma mãe, com a sua criança às costas, abrindo caminho pelo emaranhado de ruas desconhecidas, numa cidade já distante na memória.

Mas uma angústia tomava conta de mim, na tensão da busca ou talvez da fuga, não sei dizer. E ao dar um passo, pelo caminho estreito, as silvas arranhavam a minha pele e aquele corpo pequeno.

Havia um amigo no caminho que me indicava para onde seguir… E de repente, desaparecia.

Ouvia-se o pranto, o pranto profundo da mãe que chora o seu filho morto… E o meu espírito inundado de sombras e soluços.

Era a nuvem do meu sonho.

Talvez seja o medo do que está sucedendo, o terror que não formulo, que talvez esteja ligado ao que me pode provocar mais dor. Não é o que virá, é o que há, o que tenho de enfrentar hoje.

E não sei se existe o amanhã, se esta noite sem fim vai acabar, não sei se vale a pena…

E assim, eu subo contigo, para escapar à névoa, acima dos meus pensamentos.

A luz brilha apenas na obscuridade. Tem de o dia ser tenebroso para que o brilho das vestes brancas se possa distinguir mais… Porque se o dia é claro a luz confunde-nos. Nas sombras, as que sempre projectamos, nunca estamos. São parte do movimento e da vida, do tempo e do silêncio, mas nunca somos nós.

E necessito de o dizer a mim próprio muitas vezes, mas sobretudo quando a luz se esconde.

É a dor dos pobres, o que não me deixa, o que, às vezes, parece encher o copo, que quase derrama… Às vezes, não sei o que fazer com ela.

É também o meu maior medo, que as minhas decisões ou acções tenham levado ao sofrimento aqueles que se encontraram comigo, aqueles que vejo e com quem vivo nesta etapa da minha vida. E no exame pergunto-me… Que não tenha conduzido os mais pequenos pelo caminho estreito onde os espinhos ferem.

E então eu rezo para que a graça me proteja e eu não faça chicotes e não açoite com os pedaços das minhas frustrações… Rezo para que a minha vulnerabilidade não se apodere de mim e me faça perder o juízo, e não saiba para onde vou. Rezo para não esquecer o amor que me deu razões para continuar quando tudo já estava perdido. Mas, acima de tudo, rezo para que essa luz que espera para se manifestar, quando se revele plenamente esse filho que somos, não tarde, e eu não resista, para que a minha vida não seja em vão, e não me assuste se, a cada dia, algo mais quebra este corpo, se, entretanto, alguns aquecem os seus corações e despertam as suas almas…

…Ainda que o meu coração angustiado não o veja, porque a luz confunde nos dias claros, e só se a escuridão for densa, a luz que se escapa pelas brechas e pelos pedaços rotos parece um milagre.

As experiências mais duras são como picos de transfiguração, embora talvez nos tenhamos tornado um pouco cegos para as cintilações da alma. Talvez não vejamos além da pele, demasiado ensimesmada, esquecendo o Interior e o íntimo, a fonte inesgotável de luz… Que pode sentir esta criança pequena?

Mas o seu coração é um raio de luz que ganha brilho… E um dia não haverá mais pedaços rotos que a enturvem… E ela sentirá o poder de ser escolhida.

Por isto, somente, acho que é verdade que temos de novo de nos tornar pequenos.

Mahate. 13 de Março de 2022

Eduardo Andrés Roca Oliver, padre natural de Mequinenza (Saragoça, Espanha) é pároco e missionário na periferia de Pemba (Cabo Delgado, Moçambique) desde 2012, numa zona maioritariamente muçulmana. Empenhado na educação, na evangelização e no diálogo inter-religioso, é também professor na Escola diocesana de Ética, Cidadania e Desenvolvimento e prepara uma tese de doutoramento em filosofia moral e política.

 

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