[Os dias de Cabo Delgado]

Trevas e luzes

| 17 Mar 2022

"Vi-me como uma mãe, com a sua criança às costas, abrindo caminho pelo emaranhado de ruas desconhecidas, numa cidade já distante na memória." Reprodução de "Mãe africana a carregar o seu filho". © Arthckunskap, CC BY-SA 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0>, via Wikimedia Commons.

“Vi-me como uma mãe, com a sua criança às costas, abrindo caminho pelo emaranhado de ruas desconhecidas, numa cidade já distante na memória.” Reprodução de “Mãe africana a carregar o seu filho”. Ilustração © Arthckunskap, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

 

Vi-me como uma mãe, com a sua criança às costas, abrindo caminho pelo emaranhado de ruas desconhecidas, numa cidade já distante na memória.

Mas uma angústia tomava conta de mim, na tensão da busca ou talvez da fuga, não sei dizer. E ao dar um passo, pelo caminho estreito, as silvas arranhavam a minha pele e aquele corpo pequeno.

Havia um amigo no caminho que me indicava para onde seguir… E de repente, desaparecia.

Ouvia-se o pranto, o pranto profundo da mãe que chora o seu filho morto… E o meu espírito inundado de sombras e soluços.

Era a nuvem do meu sonho.

Talvez seja o medo do que está sucedendo, o terror que não formulo, que talvez esteja ligado ao que me pode provocar mais dor. Não é o que virá, é o que há, o que tenho de enfrentar hoje.

E não sei se existe o amanhã, se esta noite sem fim vai acabar, não sei se vale a pena…

E assim, eu subo contigo, para escapar à névoa, acima dos meus pensamentos.

A luz brilha apenas na obscuridade. Tem de o dia ser tenebroso para que o brilho das vestes brancas se possa distinguir mais… Porque se o dia é claro a luz confunde-nos. Nas sombras, as que sempre projectamos, nunca estamos. São parte do movimento e da vida, do tempo e do silêncio, mas nunca somos nós.

E necessito de o dizer a mim próprio muitas vezes, mas sobretudo quando a luz se esconde.

É a dor dos pobres, o que não me deixa, o que, às vezes, parece encher o copo, que quase derrama… Às vezes, não sei o que fazer com ela.

É também o meu maior medo, que as minhas decisões ou acções tenham levado ao sofrimento aqueles que se encontraram comigo, aqueles que vejo e com quem vivo nesta etapa da minha vida. E no exame pergunto-me… Que não tenha conduzido os mais pequenos pelo caminho estreito onde os espinhos ferem.

E então eu rezo para que a graça me proteja e eu não faça chicotes e não açoite com os pedaços das minhas frustrações… Rezo para que a minha vulnerabilidade não se apodere de mim e me faça perder o juízo, e não saiba para onde vou. Rezo para não esquecer o amor que me deu razões para continuar quando tudo já estava perdido. Mas, acima de tudo, rezo para que essa luz que espera para se manifestar, quando se revele plenamente esse filho que somos, não tarde, e eu não resista, para que a minha vida não seja em vão, e não me assuste se, a cada dia, algo mais quebra este corpo, se, entretanto, alguns aquecem os seus corações e despertam as suas almas…

…Ainda que o meu coração angustiado não o veja, porque a luz confunde nos dias claros, e só se a escuridão for densa, a luz que se escapa pelas brechas e pelos pedaços rotos parece um milagre.

As experiências mais duras são como picos de transfiguração, embora talvez nos tenhamos tornado um pouco cegos para as cintilações da alma. Talvez não vejamos além da pele, demasiado ensimesmada, esquecendo o Interior e o íntimo, a fonte inesgotável de luz… Que pode sentir esta criança pequena?

Mas o seu coração é um raio de luz que ganha brilho… E um dia não haverá mais pedaços rotos que a enturvem… E ela sentirá o poder de ser escolhida.

Por isto, somente, acho que é verdade que temos de novo de nos tornar pequenos.

Mahate. 13 de Março de 2022

Eduardo Andrés Roca Oliver, padre natural de Mequinenza (Saragoça, Espanha) é pároco e missionário na periferia de Pemba (Cabo Delgado, Moçambique) desde 2012, numa zona maioritariamente muçulmana. Empenhado na educação, na evangelização e no diálogo inter-religioso, é também professor na Escola diocesana de Ética, Cidadania e Desenvolvimento e prepara uma tese de doutoramento em filosofia moral e política.

 

No regresso do Papa a África, esperam-se encontros “comoventes” e recordes de participação

31 de janeiro a 5 de fevereiro

No regresso do Papa a África, esperam-se encontros “comoventes” e recordes de participação novidade

Não foi a 37ª viagem apostólica de Francisco, como estava previsto, mas vai ser a 40ª: de 31 de janeiro a 5 de fevereiro, o Papa cumprirá o prometido e visitará a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul. Entre os muitos compromissos agendados, incluem-se dois encontros que o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, prevê que sejam “comoventes”: um com vítimas de violência, outro com deslocados internos. E a missa do dia 1 de fevereiro, no aeroporto Kinshasa-Ndolo, é forte candidata ao top dos eventos mais concorridos deste pontificado.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

E se os Simpsons fossem uma família judia deportada para Auschwitz?

Murais recordam vítimas do Holocausto

E se os Simpsons fossem uma família judia deportada para Auschwitz? novidade

Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie: se a família criada por Matt Groening tivesse vivido em Itália nos anos 40 e fosse judia, teria certamente sido forçada a partir da Plataforma 21, na Estação Central de Milão, com destino aos campos de concentração de Auschwitz. Sobreviveriam? O ativista e artista pop contemporâneo aleXsandro Palombo quer acreditar que sim, mas nunca mais seriam os mesmos. Assim, para assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (27 de janeiro), retratou-os junto a essa mesma estação, num “antes e depois” que não deixa ninguém que ali passe indiferente.

Custo do palco da JMJ “magoou” responsáveis mas haverá novas conversas e pode ser reduzido

Igreja prevê gastar 80 milhões de euros à sua conta

Custo do palco da JMJ “magoou” responsáveis mas haverá novas conversas e pode ser reduzido

O custo anunciado de cinco milhões de euros para construir o palco principal da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023 “magoou” os responsáveis da Igreja e da iniciativa. A confissão foi do próprio bispo auxiliar de Lisboa Américo Aguiar, presidente da Fundação JMJ, que diz que agora é possível estudar soluções alternativas que reduzam os custos. Ao mesmo tempo, o mesmo responsável diz que estão orçamentados 80 milhões de euros para os custos de organização por parte da Igreja, relativos sobretudo ao acolhimento dos peregrinos – alimentação, alojamento e outros aspectos relacionados.

Irene Pimentel: “Não aprendemos com a História” e por isso devemos perceber como chegámos ao Holocausto

Dia em Memória das Vítimas assinala-se nesta sexta, 27

Irene Pimentel: “Não aprendemos com a História” e por isso devemos perceber como chegámos ao Holocausto

“Está mais que provado que a História nos ensina muito pouco!” A frase é da historiadora Irene Pimentel. Valerá então a pena continuar a estudá-la e a transmiti-la, particularmente aos mais jovens? A Prémio Pessoa responde, a propósito do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que se assinala neste 27 de janeiro.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This