Triangulações cristãs em tempos de guerra

| 21 Fev 2022

Foto: Sede da Associação Cristã de Estudantes em Coimbra. Ilustração Portuguesa nº645, 1 de julho de 1918.

 

O triângulo vermelho é conhecido na história do cristianismo português como o símbolo das Associações Cristãs da Mocidade, parte integrante de um movimento internacional, de origem anglo-americana e de inspiração evangélica, que preconizava o desenvolvimento espiritual, intelectual e físico da juventude. Em Portugal, a organização começou por denominar-se União Cristã da Mocidade (UCM) e foi fundada por iniciativa da comunidade protestante no Porto em 1894, data a partir da qual se multiplicaram um pouco por todo o país os núcleos que, no seguimento do IV Congresso da instituição, em 1920, passaram a ser denominados como Associações Cristãs da Mocidade (ACM).

Seguindo os sistemas de organização e ação desenvolvidos nas Young Men Christian Associations (YMCA) anglófonas, as ACM desenvolveram em Portugal a teorização e a prática dos chamados princípios “acemistas”, implementando simultaneamente uma simbologia própria. A valorização dos “Soul”, “Body” e “Mind” – cujas iniciais em português coincidiam precisamente com a sigla da associação: Alma, Corpo e Mente (ACM) – constituíam os três elementos da obra de educação integral da mocidade e os três lados do triângulo equilátero de base invertida e de cor vermelha – representativa, dizia-se, do “entusiasmo” e “força” que o movimento procurava encabeçar. O símbolo foi adotado no início da I Guerra Mundial, num momento em que a associação investiu na adaptação do seu programa ao contexto do conflito armado.

Foto: 1º Grupo de enfermeiras militares destinadas aos hospitais da base do CEP no dia da chegada a Paris. Ilustração Portuguesa nº 644, 24 de junho de 1918.

O “Movimento do Triângulo Vermelho”, como passou então a ser conhecido, resultando essencialmente dos esforços norte-americanos e ingleses, prestou serviços de assistência às tropas aliadas em campanha na Europa. Entre as centenas de milhares de soldados que receberam o auxílio do Triângulo Vermelho estiveram os militares do Corpo Expedicionário Português (CEP). A organização da assistência específica junto dos soldados portugueses resultou na constituição formal do Triângulo Vermelho Português, cuja organização definitiva, depois de enfrentadas algumas dificuldades e obstáculos burocráticos, em parte relacionados com a acusação de que existiriam por detrás do seu plano de intervenção propósitos de “propaganda religiosa”, acabaria por ser autorizada pelo governo republicano e por se concretizar em 1918, sob a coordenação do missionário norte-americano Myron Augustus Clark (? – 1920), importante dinamizador das ACM no Brasil e fundador também da “Associação Cristã de Estudantes” em Coimbra; e de Alfredo Henrique da Silva (1872-1950), pastor metodista português. A sede do Triângulo Vermelho Português instalou-se em Paris (no nº29 da Rue de Montholon) e a sua ação foi publicitada nas ruas e gares da cidade através da instalação de placards anunciando, em língua portuguesa, que os membros do CEP poderiam dirigir-se aos Postos de Informação da associação.

A assistência fornecida pelo Triângulo Vermelho Português, em dependência estreita do movimento internacional, concretizou-se essencialmente na participação da edificação e equipagem de pavilhões que funcionavam como casas hospitaleiras onde os soldados podiam passar o seu tempo livre. As tendas militares instaladas pelo Triângulo Vermelho dispunham de gabinetes de leitura e sala de correspondência, onde se ofereciam livros, papel e tinta, e de cantina e sala de recreio, onde se forneciam bolos, chá, refrescos e jogos de sala; dinamizando também sessões de cinema e de lanterna mágica, concertos, conferências, aulas e a prática de desporto. Estabelecendo como regra o “princípio de neutralidade assectária”, a associação forneceu também naqueles espaços o local para a realização de reuniões devocionais de qualquer culto, ao mesmo tempo que declarava estar na base daquele programa de atividades a dinamização de “boas práticas” e um plano de morigeração da juventude e de combate à imoralidade e ao vício, retratando os soldados como estando sujeitos a múltiplas tentações.

Com o final da guerra, a ação do Triângulo Vermelho entre as tropas não terminou, sendo que o mesmo foi responsável pela abertura em Lisboa, Porto e Coimbra, de centros militares – conhecidos como os “Pavilhões do Triângulo Vermelho” – onde se mantinha o fornecimento daqueles serviços e atividades aos soldados (não exclusivamente portugueses), cuja afluência era muito considerável. Em 1920, o Governo português concedeu a Myron Clark o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo pelos serviços prestados ao país durante o conflito e em 1921, representantes do Triângulo Vermelho Português foram convidados a participar nas cerimónias de homenagem ao Soldado Desconhecido como forma de reconhecimento pelo trabalho daquela organização durante a Grande Guerra.

Desde aqueles anos, e até bastante tarde, a história do movimento do Triângulo Vermelho e das ACM em Portugal entrecruzou-se quase completamente, sendo que as duas expressões passaram a ser comummente utilizadas como sinónimas. Entre novembro de 1920 e abril de 1923, a Aliança Nacional das ACM publicou um mensário ilustrado intitulado precisamente Triângulo Vermelho, sob a coordenação de outro importante pioneiro do protestantismo em Portugal, Eduardo Moreira (1886-1980). A revista teria uma segunda série, entre 1974 e 1988 e ambas as coleções podem atualmente ser consultadas na Biblioteca Nacional de Portugal. No mesmo periódico, podemos acompanhar ainda o percurso do Triângulo Azul, obra social congénere, mas especialmente dedicada às mulheres e que há precisamente um século, a partir de 1922, procurou dar continuidade em Portugal a um trabalho internacional de apoio à juventude feminina e às mulheres operárias, tendo sido dinamizada no nosso país pelas Associações Cristãs da Mocidade Feminina (ACMF), ligadas, por sua vez, à Young Women Christian Association (YWCA). Da rede dos Triângulos e das ACM nasceriam também as primeiras dinâmicas escotistas masculinas e femininas em Portugal e dos seus esforços de desenvolvimento dos campos intelectual e educativo, surgiriam movimentos como o da promoção da Educação Física como disciplina indispensável no interior do sistema de ensino, sendo que práticas como a do basquetebol, ténis e ping-pong chegaram por esses caminhos ao nosso país.

 

Rita Mendonça Leite é investigadora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa (UCP-CEHR); contacto:  ritamenleite@gmail.com

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