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Maria Manuela de Carvalho

Trocando o Dogma por miúdos

| 24/01/2022

Maria Manuela de Carvalho “merece ser lembrada pelo ar fresco que trouxe às aulas e às conversas sobre os mistérios da vida”. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

 

Há homens que para serem grandes precisam de uma mulher “atrás”. E há mulheres que não precisam senão de Deus para seguir o seu caminho e ir muito “à frente”. Vem isto a propósito da Professora Maria Manuela, falecida neste domingo, 23, em Barrancos: a primeira mulher portuguesa a doutorar-se em teologia e a ensinar matérias até então reservadas a homens ou clérigos. Mas não é por isso que merece que dela falemos. Merece, sim, ser lembrada pelo ar fresco que trouxe às aulas e às conversas sobre os mistérios da vida e a vida despida de mistérios ou tabus. Merece ser lembrada pelo entusiasmo e humor com que falava do presente e da esperança que nos move. Ensinar, para a Prof. Manuela, não foi apenas mera atividade académica, mas partilha de uma experiência intelectualmente averiguada e afetivamente abraçada. A sua vida foi um serviço de inteligência à escola, às comunidades e à Igreja, até ao fim. Efetivamente, nunca se quis reformar da vocação e ministério que, desde muito jovem, abraçou. E não precisou de entrar num convento para o fazer. Ensinou com paixão e competência muitos e muitas que decerto se revêem neste retrato apressado de despedida.

A paixão pela teologia ajudou-a a amadurecer uma teologia da paixão verificada na própria vida, marcada pela doença e sofrimentos que nunca foram tabu. Assumiu a fragilidade sem temor, como se esta fosse a sua melhor parte, talvez inspirada em S. Paulo (2Cor 12,9) no qual só não admirava o “mau feitio”.

Como teóloga refletiu como poucos sobre o Homem, no qual viu, como S. Agostinho e Hans Urs Von Balthasar, “a grande questão teológica”; refletiu e escreveu sobre a escatologia e os chamados “novíssimo”, isto é, sobre o que nos espera depois da morte corporal.

Depois de três décadas a ensinar teologia na universidade Católica, em Lisboa, retirou-se para Barrancos, onde quis “continuar a trabalhar e ser útil”, trocando o Dogma por miúdos, para que a teologia chegue também às periferias, como quer o Papa Francisco.

Na hora da sua partida ao encontro do “abraço do Pai” de que tanto gostava de falar, não nos apetece nada chorar esta mulher conduzida pelo Espírito. Porque esta alma festiva, que tanto gostava de reunir amigos, cozinhar e conviver com eles, sempre mostrou no brilho do seu olhar que tudo o que ensinava era verdade: sim, no fim do percurso, encontraremos o Oceano do Amor.

 

Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, onde foi aluno e, depois, colega de Maria Manuela de Carvalho; pode ler-se outro texto sobre a professora de teologia aqui.

 

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