Numa aldeia do Chade, onde era a única branca, contraiu malária e chegou a dormir com 40º Celsius numa casa sem eletricidade. Sentiu medo quando, durante algumas horas, foi a única mulher num centro de refugiados em revolta, na Sicília. Nada disto a demove de voltar a trabalhar com refugiados, desta vez em Adjumani, no norte do Uganda, para gerir os projetos de educação do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, da sigla inglesa).

Joana Gomes, 30 anos, estava na Sicília em 2016, quando se registou uma das grandes vagas de chegada de refugiados à Europa. Uma experiência “muito intensa: vinham todos com depressão, não conseguiam dormir e andavam muito perdidos e desorientados – já que o processo de pedir asilo e estatuto de refugiado era muito novo”, contava ao 7MARGENS, antes de partir para o Uganda, no final de setembro. 

Tendo dedicado vários anos a trabalho de voluntariado e missionário, Joana recorda algumas das suas experiências. Na Sicília, esteve no mesmo centro de acolhimento a refugiados em três momentos diferentes. Isso permitiu acompanhar as mudanças dos migrantes: de refugiados perdidos a pessoas mais estáveis e, por fim, cidadãos inseridos na sociedade. 

Entre as histórias que a marcaram, está a de Buba, um jovem natural da Gâmbia. 

Natural de Lisboa, licenciada em serviço social, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa e com mestrado em Gestão de recursos humanos no ISCTE, Joana sempre olhou para a problemática dos refugiados como algo que a toca especialmente. Por várias vezes na Europa, viu condições de vida muito precárias: “A Europa diz que está preocupada e a acolher mas aquilo não era bem um acolher. Temos de tentar perceber qual a causa de saída dos países (dos refugiados), o que está a acontecer lá e trabalhar na origem.”

É essa a motivação de Joana para trabalhar em locais diferentes e remotos, “amassar a massa que ninguém quer amassar”. Ainda há muito a fazer para que o processo de um refugiado se torne seguro, diz. Conheceu histórias chocantes de pessoas que “trabalham o ano inteiro como escravas” para ter lugar num pequeno barco que atravessa o Mediterrâneo e que, muitas vezes, “nem gasolina tem para o caminho todo”. 

“Choca-me como é que não se atua aqui, como é que não há políticas que facilitem o processo. Mas digo isto e sei que, politicamente, é algo muito exigente – porque ajudar implica que a Europa aceita e recebe.”

Vem-lhe desde pequena o gosto, que se torna evidente quando fala, por trabalhar nesta área. Joana desenvolveu a consciênciade que “o mundo é muito maior do que a minha vida, do que Lisboa e Portugal”. Foi isso que aguçou a sua curiosidade “pelo mundo, pelas culturas e pelas pessoas”.

Com 18 anos, depois de terminar o ensino secundário, Joana Gomes decidiu fazer um ano sabático antes de se matricular em Serviço Social, na universidade. Partiu para Palmas, em Tocantins (centro leste do Brasil), onde esteve sete meses, a trabalhar numa favela, numa casa de acolhimento de crianças desfavorecidas.

Na altura, lembra-se de sentir um grande chamamento para o trabalho que hoje desempenha: “Os meus amigos, que estavam na faculdade, contavam-me as histórias deles. E eu dizia-lhes: ‘eu também sinto que estou numa faculdade, mas na faculdade de Deus, a aprender mais sobre mim, mais sobre o mundo e sobre o que Deus fez e faz em mim.”

Vem daqui o seu gosto por trabalhar com refugiados: de saber que o mundo “se pode tornar ainda mais como Deus o sonhou”. 

Joana sente este chamamento, de “trocar o certo pelo incerto”, frase que deu o nome  à sua página de Facebook, o diário de bordo das suas aventuras

“Porque troquei o quentinho e conforto da voida que tinha em Lisboa pela aventura de ir procurar aquilo a que Deus me chama. Larguei os 99 por cento de felicidade que tinha para ir pcourar o um por cento que me faltava; pois não era uma questão de juntar um por cento, mas de mudar os 99 por cento…”, justifica. 

“Pensei que ia morrer ali mesmo”

Também teve já de lidar com o medo, nestes anos de missões várias: um dia, no campo de refugiados na Sicília, ficou sozinha, única mulher entre 30 homens, todos grandes e fortes – os outros “morrem pelo caminho”… 

Os refugiados estavam em revolta com as condições em que viviam: “O clima era tenso e eles recusavam-se a fazer a atividade proposta. Um técnico tinha saído com dois voluntários, para acompanhar um deles ao hospital. Eles gritavam, queixavam-se da comida, diziam que ela lhes provocava alergias e que aquilo não era forma de acolher.”

Veio a seguir o susto: “Um deles gritava-me com a cara junto a mim a dizer para eu olhar para a cintura. Pensei que ele tinha uma faca e que eu ia morrer ali mesmo.” Afinal, era só o cinto que estava estragado. Joana sugeriu então que se juntassem e escolhessem um deles para falar em nome de todos…

Apesar do episódio e do medo, Joana crê que o receio de muitos europeus, no que toca a hábitos e culturas diferentes, não é fundamentado: “Vivendo com refugiados, vê-se que somos todos pessoas e isso obriga-nos a olhar para o que temos em comum e não o que temos de diferente. Na verdade, muitos dos que tenho conhecido são pessoas como nós ou melhores ainda, com uma enorme capacidade de trabalho. Podem ter uma religião diferente, uma cor de pele diferente, mas tem os mesmos princípios. Por isso, temos todos a ganhar – nesta multiculturalidade podemos crescer mais virados para o mundo e não para o nosso umbigo.”

Joana sabe que o processo de integração é exigente para ambas as partes. Por isso, pensa que a educação é um fator crucial para desenvolver o respeito mútuo. 

A educação não tem de ficar restrita às paredes das escolas, como mostra o testemunho de Joana: no Chade, conta, “discutia muito o papel da mulher muçulmana”. E não só: mesmo as católicas, quando se casam, deixam de trabalhar fora de casa. “Acabávamos por pôr em causa a própria (forma de viver a) religião e a cultura”. Às vezes, Joana até brincava com os amigos e colegas muçulmanos, que rezavam cinco vezes ao dia. Dizia-lhes: “Podes ir rezar, se rezares também por mim.”

Nas duas aldeias onde esteve – Gozbeida e Koukou –, Joana era a única branca. Evitava aparecer na escola em horário de aulas, pois as crianças vinham tocar-lhe na pele para confirmar a cor. Na rua, chamavam-na por “branca, branca”. Na primeira celebração em que participou, com homens e mulheres separados na igreja, Joana chegou ligeiramente atrasada e ficou ao fundo, pensando que ninguém iria reparar. “Esqueci-me que eu era a única branca”, recorda a rir.  

Nesses 20 meses – entre Janeiro do ano passado e Agosto último –, Joana trabalhou com uma equipa de vinte pessoas, entre muçulmanos, católicos e protestantes. Jantavam juntos por vezes dos diferentes entendimentos que tinham de amor: “Nós vivemos muito um amor de são Valentim, eles vivem um amor muito mais prático e concreto.”

 

 

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