
” José Tolentino Mendonça, poeta cardeal, na sua homilia no funeral do professor revelou a “única vez” que viu Eduardo Lourenço chorar: “ele tropeçou, como o Apóstolo Paulo terá tropeçado, na palavra ‘Jesus’.” Eduardo Lourenço. Foto: Direitos reservados/SNPC
Foi numa conversa pessoal, entre amigos e de coração descalço, que Eduardo Lourenço tropeçou na palavra “Jesus”. Quem o revela é esse outro explorador e cartógrafo do espírito, digno herdeiro daquele decifrador de signos, a quem Portugal deve também maior entendimento de si. José Tolentino Mendonça, poeta cardeal, na sua homilia no funeral do professor revelou a “única vez” que viu Eduardo Lourenço chorar: “ele tropeçou, como o Apóstolo Paulo terá tropeçado, na palavra ‘Jesus’. E os seus olhos encheram-se de água e a sua voz de silêncio, de lentidão e de soluços. Passou muito tempo para que me dissesse, chorando: ‘não há nada superior a Jesus. Já se imaginou um Deus que diz ‘Bem-aventurados os pobres, os humildes, os misericordiosos, os puros de coração, os perseguidos, os que têm fome e sede de justiça, os que constroem a paz’? Não há nada superior a isto”.
São palavras maravilhosas e comoventes do nosso grande filósofo e ensaísta (1923-2020) que se sentia católico, mas também – confessou-o – “um místico sem fé”.
Esta revelação fez-me regressar ao texto das Bem-aventuranças que o evangelista Mateus (Mt. 5, 1-12) coloca no início da vida pública ou ministério de Jesus.
Sempre me interroguei sobre a razão de Mateus colocar as bem-aventuranças no início do ministério de Jesus pois tais palavras, de tão densas, parecem mais ajustadas a um momento de grande maturidade existencial, fruto de longo amadurecimento e reflexão, quase sempre de um árduo e profundo trabalho interior, apanágio de quem teve uma vida abundante de anos. No entanto, o evangelista preferiu fazer desse discurso não uma síntese ou testamento de vida, mas um programa de vida, um discurso programático.
Em todo o caso, as bem-aventuranças são o espelho e o corolário de um esforço interior de interrogação da vida, de cabotagem e mapeamento do humano, de exploração e leitura de si, de decifração íntima de Deus, de cartografia da imagem de Deus que se foi formando a partir da meditação das Escrituras, de obediência à Sua vontade percebida na paixão pelas mesmas Escrituras e a conjugação desta vontade com a vida do dia a dia das pessoas simples, dos pescadores, das multidões que entrarão nas suas parábolas, dos vinhateiros e camponeses, dos doentes e deserdados a quem testemunhará uma atitude que não se improvisa no momento, mas que nasce de uma demorada e dolorosa aprendizagem do amor.
As palavras de Jesus revelam que por detrás delas há períodos longos e misteriosos de gestação, que os textos evangélicos omitem, ou não dão a conhecer facilmente, porque pertencem àquele universo da infância, da adolescência, da juventude e da idade adulta que passaram à história como os trinta anos de vida oculta e desconhecida de Jesus, antes da vida pública.
Colocando as bem-aventuranças no início da atividade pública de Jesus, o evangelista Mateus talvez nos queira sugerir a construção da humanidade de Jesus no tempo e no espaço. A vida furtiva de Jesus talvez não seja tão anónima quanto isso. Lendo e meditando as bem-aventuranças talvez descubramos, afinal, em que ocupou Jesus os seus dias de ilustre desconhecido: a construir e forjar a sua alma.
As bem-aventuranças são, por isso, uma palavra que sintetiza, antes de mais, quem é o próprio Jesus, o seu melhor e mais fascinante autorretrato. Jesus é o homem de que se fala nas bem-aventuranças. A primeira chave de leitura do texto é, portanto, cristológica. Depois, as bem-aventuranças são também uma palavra que revela quem é Deus. Jesus expressa-se com firme autoridade a propósito de Deus afirmando que o Reino de Deus pertence a quem é pobre em espírito, pertence a quem é perseguido pela justiça, diz que os puros de coração verão a Deus, que os que trabalham pela paz serão chamados filhos de Deus…
A segunda chave de leitura é, assim, teológica. Finalmente, as bem-aventuranças desvelam também a via para uma humanidade humanizada, uma humanidade capaz de narrar Deus. A pobreza em espírito, a humildade, a misericórdia, a retidão de coração, a paz, a busca da justiça arriscando o sofrimento por sua causa são uma via de humanização e de futuro para a humanidade. Esta é, enfim, a terceira chave de leitura, a antropológica.
As bem-aventuranças de Jesus, vividas antes de mais por si próprio, tornam-se assim revelações de uma vida outra possível, de uma humanidade alternativa, em que até a perseguição e a aflição, a falta de justiça e a ruindade, a ausência de santidade enfim, são situações que podem abrir à felicidade.
Roma, 4 de Dezembro de 2020
Mário Rui de Oliveira é padre, autor de O Livro da Consolação, e trabalha em Roma.










