Trump anuncia 25 milhões para defender liberdade religiosa, mas alia-se a países que perseguem crenças

| 24 Set 19 | Destaque 2, Últimas

O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o Presidente dos EUA, Donald Trump, no encontro das Nações Unidas sobre liberdade religiosa. Foto © ONU/Manuel Elias

 

Ao mesmo tempo que vários líderes mundiais escutavam a jovem activista sueca Greta Thunberg com o seu grito emocionado sobre o clima, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump deslocou-se, nesta segunda-feira, 23 de Setembro, ao edifício das Nações Unidas para participar num encontro sobre liberdade religiosa, defendendo a necessidade de a salvaguardar e prometendo 25 milhões para a protecção da liberdade de crença.

“Lamentavelmente, a liberdade religiosa de que gozam os cidadãos norte-americanos é rara no mundo. Aproximadamente 80% da população mundial vive em países onde a liberdade religiosa é ameaçada, restrita ou mesmo proibida”, afirmou Trump, citado pelo portal de notícias da ONU.

Trump acrescentou que a liberdade de religião está consagrada na Constituição dos EUA e é protegida pela Declaração de Direitos, o nome dado às 10 primeiras emendas à Constituição norte-americana, recorda a mesma fonte.

De acordo com a mesma informação, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lamentou, na ocasião, que haja um número crescente de pessoas humilhadas, assediadas e atacadas publicamente por causa de sua religião ou crença. “A melhor maneira de promover a liberdade religiosa internacional é unir as nossas vozes para o bem, combatendo mensagens de ódio com mensagens de paz, abraçando a diversidade e protegendo os direitos humanos em todos os lugares”, afirmou, acrescentando ser “totalmente inaceitável” que as pessoas enfrentem discriminação religiosa no século XXI.

“Judeus foram assassinados em sinagogas, as suas lápides foram desfiguradas com suásticas; muçulmanos foram mortos a tiro em mesquitas e os seus locais religiosos vandalizados; cristãos foram mortos durante a missa e as suas igrejas incendiadas. E em muitos lugares do mundo, comunidades inteiras foram alvo por causa de sua fé – inclusive em lugares onde essas comunidades existem há séculos, se não há milénios”, afirmou ainda Guterres, que recordou recentes iniciativas da ONU no combate à intolerância com base religiosa.

 

“Chocante” a atitude de Trump

Trump, por seu turno, pediu aos países que acabem com a perseguição religiosa, revoguem leis que restringem a liberdade e crença e aumentem a penalização por crimes contra comunidades religiosas. E acrescentou que o seu governo destinará 25 milhões de dólares adicionais para proteger a liberdade religiosa, locais religiosos e relíquias, entre outras medidas.

Quem notou a contradição deste discurso e destes apelos com a prática diplomática e as alianças políticas dos EUA foi o articulista Loïc Tassé, no Journal de Montréal (Canadá). Na mesma altura em que faz estes apelos e anuncia estas medidas, Trump “reforça a sua aliança militar com a Arábia Saudita, um regime totalitário religioso sunita”, que ataca muçulmanos não-sunitas e pune com a morte quem renuncie ao islão.

Na véspera, entretanto, Trump encontrara-se no Texas com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que apoia um nacionalismo religioso hindu, nota o articulista, que tem como consequência a perseguição de muçulmanos e o aumento da violência contra cristãos.

Também em relação ao Irão o Presidente dos EUA omite a questão religiosa e fala apenas da energia nuclear. E em Israel, o primeiro-ministro cessante, Benjamin Netanyahou, governou nos últimos dez anos graças ao apoio do partidos judeus ultra-ortodoxos, que também “cultivam o terror religioso na sua comunidade”. “Há qualquer coisa de chocante” nestas atitudes de Donald Trump, acusa Loïc Tassé.

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