Trump deve ser removido do cargo, defende revista evangélica “Christianity Today”

| 27 Dez 19

A página digital da “Christianity Today” com o editorial a pedir a remoção de Trump

 

“O Presidente dos Estados Unidos tentou usar o seu poder político para forçar um líder estrangeiro a assediar e desacreditar um de seus oponentes políticos. Isso não é apenas uma violação da Constituição; mais do que isso, é profundamente imoral.” As palavras vigorosas surgem no editorial do mais recente número da revista Christianity Today, talvez a mais importante publicação dos Estados Unidos no campo evangélico, o qual tem sido um dos grandes baluartes de Donald Trump.

Baseado na convicção de que o Presidente é “moralmente inapto” para o lugar, e numa atitude pouco comum, o editorial de Mark Galli, editor-chefe da revista, exige que Donald Trump seja destituído do cargo após o julgamento político que irá enfrentar no Senado, no próximo mês de Janeiro.

Em causa, estão as acusações de abuso de poder (por ter pressionado o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a anunciar uma investigação a Joe Biden, ex-vice-Presidente de Barack Obama e um dos candidatos democratas melhor colocado para enfrentar Trump nas próximas presidenciais), e obstrução ao Congresso, por este orientar os funcionários da Casa Branca a não cooperar com as investigações.

O editorial, não representando provavelmente a maioria dos evangélicos, é visto como um sinal revelador da incomodidade que o Presidente tem vindo a gerar em muitos dos seus eleitores. O texto acrescenta mesmo exemplos sobre o facto de o próprio Trump ter admitido “atos imorais nos negócios e no relacionamento com mulheres, dos quais se orgulha”. Galli acrescenta que “só o que publica no Twitter, com a série de caracterizações falsas, mentiras e calúnias, já é um exemplo quase perfeito de um ser humano moralmente perdido e confuso”.

Trump não perdeu pela demora. Recorrendo à rede social Twitter, ripostou acusando a Christianity Today de ser “uma revista da extrema-esquerda ou muito ‘progressista’”, que “tem tido um mau desempenho e não está com a família d[o fundador] Billy Graham há muitos anos”. “A verdade é que nenhum Presidente até hoje fez o que eu fiz pelos evangélicos ou pela própria religião”, acrescentou.

Vários líderes de igrejas evangélicas procuraram sacudir os efeitos da tomada de posição da revista, aproveitando para reforçar o apoio a Trump. Um grupo de 200 “Evangelicals for Trump”, por exemplo, criticou a revista, manifestando o seu apoio ao presidente e, de acordo com o Expresso, deixando a ameaça velada de que a Christianity Today pode vir a perder leitores ou receitas publicitárias por causa do editorial.

Reagindo a estas manifestações, o colunista de publicações cristãs Peter Wehner, que trabalhou na redacção de discursos para George W. Bush, escreveu no New York Times que, ao contrário das lideranças, que pretendem criar a ideia de que todos os evangélicos estão com Trump, o editorial referido dá a conhecer que, no movimento evangélico, nem todos enfileiram nessa linha.

Do mesmo modo, a revista America, dos jesuítas dos EUA, apoiou o processo de destituição, ainda que de forma crítica.

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