Trump e os evangélicos

| 9 Jan 20

A prestigiada revista americana fundada por Billy Graham em 1956 defendeu, a 19 de Dezembro passado, a destituição de Donald Trump, uma atitude inédita que está a provocar algum desconforto nos meios evangélicos.

De facto, foi com alguma surpresa que se leu um vigoroso editorial de Mark Galli, editor-chefe da Christianity Today (CT) considerada pelo Washington Post como “a principal revista do evangelicalismo” –, onde se exigia a destituição de Trump. Aquela publicação religiosa começa por se referir aos documentos fundadores nos quais o famoso evangelista colocava como seu objectivo contribuir para que os cristãos evangélicos pudessem interpretar as notícias de modo a reflectir a sua fé.

O histórico da CT é não se envolver directamente em política, permitindo que cristãos de todo o espectro político defendam os seus argumentos em praça pública, mas incentivando-os sempre a procurar a justiça segundo as suas convicções e em amor, já que a política não é um fim em si mesmo. A ideia é orar a Deus pelo presidente da América a cada momento, seja ele quem for, mas também pela classe política em geral, da esquerda à direita. Mas a revista reconhece que os factos são inequívocos. O presidente dos Estados Unidos usou o seu poder para coagir um líder estrangeiro a assediar e desacreditar um oponente político. E isso não constitui apenas uma violação da Constituição, mas sobretudo uma profunda imoralidade.

Mas a CT vai mais longe. Justifica que se isso não chocou o povo americano tanto como seria suposto, é porque Trump apresenta um histórico de imoralidade constante na sua presidência, tanto ao contratar e demitir várias vezes indivíduos agora condenados por crimes, como ao admitir atitudes imorais nos negócios e no seu relacionamento com mulheres, actos de que se orgulha, e ao publicar constantemente no Twitter manipulações, mentiras e calúnias, tornando-se assim um exemplo quase perfeito de um ser humano moralmente perdido e confuso.

As audiências do processo de impeachment deixaram absolutamente claro, mais do que a investigação de Mueller, que Trump abusou da sua autoridade para obter ganhos pessoais e traiu o seu juramento constitucional, revelando ao mundo profundas deficiências morais, o que prejudica a presidência e a reputação do país, assim como o espírito e futuro dos americanos, pelo que nenhum ponto positivo do seu governo pode equilibrar o perigo moral e político que o país enfrenta com um líder de carácter tão imoral e anti-ético.

De acordo com um estudo do Pew Research Center os protestantes evangélicos brancos apoiam Trump 25 pontos acima da média nacional. Provavelmente para agradar aos conservadores a revista compara esta posição com a que tomou contra Clinton há vinte anos, traçando um paralelo moral entre ambos. Só que Clinton nunca fez sequer um por cento de tudo o que é censurável em Trump. Mentiu a propósito do caso Lewinsky, mas Trump mente todos os dias, desde a campanha eleitoral até agora, além de ter atitudes muito mais graves do que essas.

A CT confronta os apoiantes cristãos do presidente com as bases da sua fé e o seu testemunho perante o mundo, avançando que “Se não revertermos o curso agora, alguém levará a sério qualquer coisa que venhamos a dizer sobre justiça e rectidão nas próximas décadas?” O editorial concluiu confessando que a revista reservou um pronunciamento sobre Trump durante anos, sendo por isso criticada em alguns sectores. Mas tratou-se – justifica – de prudência, de tentar entender o ponto de vista dos seus apoiantes evangélicos, e porque a caridade deve estar presente antes de se condenar o comportamento de alguém. Mas agora não dá mais para calar, pois isso colide com a reputação evangélica e a compreensão do evangelho no mundo.

As reacções ao editorial no meio evangélico foram repartidas. Muitos apoiaram e outros criticaram. Três dias depois, a revista confirmou a sua posição adiantando que “a aliança do evangelicalismo americano com esta presidência tem provocado enormes danos ao testemunho cristão. Alienou muitos de nossos filhos e netos. Prejudicou irmãos afro-americanos, latino-americanos e asiáticos-americanos, e minou os esforços de incontáveis ​​missionários que trabalham em campos distantes”, pelo que “a percepção do apoio evangélico ao governo Trump tornou tóxica a reputação da Noiva de Cristo.” Esta perspectiva está em linha com outros pronunciamentos como o do jornal The Atlantic que já este Verão afirmava que “o apoio a Trump tem um alto custo para o testemunho cristão”, falando em crise aprofundada no cristianismo evangélico.

Franklin Graham, filho de Billy Graham e arauto da direita religiosa americana, veio criticar a CT dizendo que o pai teria ficado desapontado com a posição da revista. Mas Franklin não tem moral para levantar a voz depois de usar dois pesos e duas medidas, ao dizer que o comportamento extramarital de Clinton tinha que ver com todo o mundo, enquanto sobre Trump afirmou que ninguém tinha nada a ver com os casos de traição conjugal a não ser a mulher… No entanto Jerushah Duford, neta de Billy e sobrinha de Franklin veio a público contestar quem quer que fale pelo avô. E deixa a pergunta que realmente importa: “As palavras e acções da vida de Billy Graham estão alinhadas com as do atual presidente?”

P.S. – Já depois de escrita esta crónica Trump ordenou o assassinato do general iraniano Soleimani, empurrando assim o mundo para uma nova guerra.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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