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Trump e líderes religiosos
Paula White-Cain, Conselheira Sénior do Gabinete de Assuntos Religiosos da Casa Branca, canta ao lado do Presidente Donald Trump durante um evento do Dia Nacional de Oração na Casa Branca, com a presença de líderes religiosos de diferentes crenças, (1 de maio de 2025). Foto © Andrew Harnik/Getty Images)

Usos e abusos da religião

Trump é pouco ou nada religioso, dizem sete em cada 10 americanos

| 17/04/2026

 

“Os americanos estão cada vez mais propensos a dizer que Trump não é muito religioso ou não é nada religioso”. De facto, sete em cada dez cidadãos daquele país exprimem-se nesse sentido, num estudo de opinião do Pew Research Center, cujos dados acabam de vir a público.

Os dados apurados representam um aumento de 8 pontos percentuais desde a última vez que a mesma pergunta havia sido colocada, no outono de 2024.

O estudo foi realizado entre 6 e 12 de abril – por conseguinte, pouco antes de Trump começar a criticar o Papa Leão XIV e publicar uma imagem nas redes sociais (cujo impacto negativo o levaria a apagar], na qual se retratava como uma figura semelhante a Jesus.

Os grupos mais propensos a ver Trump como algo ou mesmo muito religioso são os que se situam mais na área dos evangélicos, nomeadamente os evangélicos brancos e, sobretudo, os que se situam politicamente do lado dos republicanos.

No polo oposto estão aqueles que se posicionam a favor dos democratas, os agnósticos e ateus e os protestantes neutros.

E até que ponto Trump defende as crenças religiosas das pessoas, segundo os seus concidadãos? Os resultados da agência indicam que aproximadamente um quinto dos adultos americanos (22 por cento) dizem que Trump defende muito ou bastante as pessoas com crenças religiosas semelhantes às suas, enquanto outros 14 dizem que ele as defende de alguma forma e 47 por cento dizem que Trump defende pouco ou nada as pessoas com crenças religiosas semelhantes às suas. Dezassete por cento mostram-se inseguros quanto à resposta a dar.

 

JD Vance, ao apoiar Trump, dá um tiro no pé sobre a “guerra justa”

JD Vance com Leão XIV

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o Papa Leão XIV têm posições teológicas divergentes | Foto: Encontro no Vaticano (19 de maio de 2025). Foto © Vatican Media

Entretanto, prossegue por terras africanas a viagem do Papa Leão XIV, que lançou, nos Camarões, um convite a “rejeitar a lógica da violência e da guerra, para abraçar uma paz fundada no amor e na justiça”.

A tensão desencadeada pela inusitada mensagem do presidente dos Estados Unidos contra o Papa foi, nos últimos dias, prolongada por interpretações e comentários do seu vice-presidente e católico recém-convertido, J. D. Vance, que não fizeram senão ampliar e agravar os problemas.

Vance pretendeu utilizar o conceito de “guerra justa”, que vem sendo utilizado e debatido desde, pelo menos, Santo Agostinho, esquecendo os requisitos que a doutrina católica estabelece para que o conceito possa ser invocado. Ao mesmo tempo, assumiu uma posição de repreensão a Leão XIV, ao dizer, num programa televisivo, ser “muito, muito importante que o Papa tenha cautela ao abordar questões teológicas”.

As sucessivas declarações dos mais altos responsáveis da Casa Branca suscitaram, entretanto, uma multiplicidade de posições de apoio ao Papa, de autoridades políticas e, naturalmente, de episcopados de vários países, mesmo de setores católicos que têm apoiado, implícita ou explicitamente, o presidente Trump.

Trump

“Não quero um papa que critique o Presidente dos Estados Unidos”, declarou Donald Trump a 13 de abril de 2026. Foto © Gage Skidmore/Flickr/CC BY 2.0

Os bispos católicos dos EUA, através de uma curta posição pública do bispo James Massa, presidente da Comissão de Doutrina da  Fé da Conferência episcopal, esclareceram, sobre a “guerra justa”, o seguinte:

“Durante mais de mil anos, a Igreja Católica ensinou a teoria da guerra justa e é a essa longa tradição que o Santo Padre se refere cuidadosamente nos seus comentários sobre a guerra. Um princípio constante dessa tradição milenar é que uma nação só pode legitimamente empunhar a espada ’em legítima defesa, uma vez que todos os esforços de paz tenham falhado’ (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2308). Ou seja, para ser uma guerra justa, deve ser uma defesa contra outro que ativamente trava a guerra, que é o que o Santo Padre realmente disse: ‘Ele não escuta as orações daqueles que fazem a guerra’.”
Quanto ao sentido das intervenções papais sobre a guerra e, sobretudo sobre a paz, a mesma posição esclarece:
“Quando o Papa Leão XIV fala como pastor supremo da Igreja universal, não se limita a oferecer opiniões sobre teologia, mas a pregar o Evangelho e a exercer o seu ministério de Vigário de Cristo. O ensinamento consistente da Igreja insiste que todas as pessoas de boa vontade devem orar e trabalhar para uma paz duradoura, evitando, ao mesmo tempo, os males e as injustiças que acompanham todas as guerras”.

Uma professora da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Notre Dame (Indiana), especializada em direito internacional e resolução de conflitos, Mary Ellen O’Connell, observou, por sua vez, ao site OSV News, que “os comentários do Papa Leão XIII sobre as guerras em curso são totalmente consistentes com o ensinamento católico e o direito internacional”.

De facto, faz notar O’Connel, a Carta da ONU “segue essas normas morais antigas” quando “proíbe, em primeiro lugar, qualquer recurso à guerra. (…) Esses princípios morais e legais foram violados durante os ataques americanos contra a Venezuela e o Irão”.

Vincent J. Miller, professor de teologia da Universidade de Dayton (Ohio), por sua vez, entende que “a resposta do vice-presidente mostra que ele tem muito a aprender sobre o que a Igreja realmente ensina sobre paz e guerra. Ele poderia meditar sobre o Sermão da Montanha, onde Jesus convida os discípulos a amarem seus inimigos, e ler a passagem do Catecismo dedicada à guerra sob o título ‘Salvaguardando a Paz’, ou a encíclica Pacem in Terris, do Papa João XXIII, ou o documento dos bispos americanos, O Desafio da Paz”.

 

Arcebispa de Cantuária ao lado do Papa

Arcebispa Sarah Mullaly na Catedral de Cantuária. Foto © Neil Turner / Palácio de Lambeth

A Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, emitiu uma declaração em que afirma estar ao lado do Papa Leão XIV, no seu “corajoso apelo e um reino de paz”. “À medida que pessoas inocentes são mortas e deslocadas, famílias e futuros destruídos, o custo humano da guerra é incalculável”, salientou a responsável.

“Cada cristão e todas as pessoas de fé e boa vontade são chamadas a trabalhar e orar pela paz”, disse ela, exortando todos aqueles que têm autoridade política que “busquem todos os meios pacíficos e justos possíveis para resolver conflitos”.

Sara Mullally, que será recebida no final deste mês por Leão XIV, termina a declaração exortando os anglicanos de toda a Igreja da Inglaterra e da Comunhão Anglicana a unirem-se ao Papa para “levantarmos as nossas vozes pela paz e justiça em todo o mundo”.

“Num tempo marcado pelo ódio, divisão e violência, que sejamos firmes nesse chamamento – [a sermos] testemunhas da esperança, agentes da reconciliação e portadores da paz de Deus num mundo ferido”, escreve, a terminar.

 

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