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Trumpistas ou cristãos?

| 30/06/2021

Numa das suas mais dramáticas reuniões anuais que reuniu 16.000 pastores e líderes, a maior denominação protestante dos Estados Unidos, a Convenção Baptista do Sul, elegeu há dias em Nashville o seu novo presidente, um pastor moderado do Alabama, evitando assim a tomada de poder por parte da ala direita insurgente da denominação.

Ed Litton: “somos uma família, mas por vezes parece que somos incrivelmente disfuncionais, apesar de nos amarmos.”  Foto retirada da página do pastor no Facebook.

 

Este grupo tinha-se organizado e apresentou às eleições o pastor ultraconservador da Geórgia, Mike Stone. O jornal The New York Times trazia em título “Baptistas do Sul evitam aquisição ultraconservadora”.

Ed Litton, o eleito, sublinhou a necessidade de cura para aquela confissão religiosa: “somos uma família, mas por vezes parece que somos incrivelmente disfuncionais, apesar de nos amarmos.” Adiantou ainda que o seu objectivo seria “construir pontes e não muros”, o que não deve ter agradado nada aos trumpistas. Numa entrevista colectiva após a vitória, Litton pediu uma investigação independente sobre a forma como a Convenção lidou com os abusos, e disse que a denominação precisava ser “pastoral” na abordagem às vítimas.

A verdade é que, depois de um debate acalorado sobre raça, género e outras questões culturais, quando os resultados foram anunciados em palco e se verificou que a vitória de Litton sobre Stone tinha sido por apenas quatro pontos percentuais ou 556 votos, a assembleia explodiu entre vivas e vaias.

O presidente anterior criticou duramente os “fariseus” da denominação que reclamavam pureza ideológica na missão evangelística mas desprezavam pastores negros, latinos, assim como sobreviventes de abuso sexual ou mulheres em liderança: “Somos principalmente um grupo de afinidade cultural e política, ou testemunhas do evangelho? Qual é a parte mais importante do nosso nome: sulistas ou baptistas?”

Os observadores do campo religioso consideram que a Convenção Baptista do Sul, que integra 40 mil igrejas locais, funciona como termómetro do evangelicalismo americano branco. Segundo o Pew Research Center, a denominação tem cerca de 14,5 milhões de membros, mas perdeu mais de dois milhões desde 2006, sendo 85 por cento brancos, seis por cento negros e três por cento latinos.

A denominação é profundamente conservadora, tendo sido fundada antes da Guerra Civil (1845) em ruptura com o Norte e na defesa da escravatura. A sua importante facção ultraconservadora, a Conservative Baptist Network, procura resistir a uma liderança nacional que considera elitista e comprometida por um desvio à esquerda devido às questões sociais. Tudo isto leva a prever uma fragmentação próxima numa confissão em perda acelerada, tendo em conta as persistentes declarações de ruptura que se ouviram neste evento, nos momentos em que os ânimos estavam mais exaltados, a ponto de alguns líderes terem requisitado segurança.

A convenção acabou por condenar o assalto ao Capitólio em Janeiro passado e reafirmar o pedido de desculpas público realizado em 1995 devido ao racismo sistémico que defendeu durante muito tempo, mas rejeitou definir o racismo como problema social fora dum contexto espiritual. Aliás, a sua hostilidade contra a teoria racial crítica funciona como arma do Partido Republicano, que se recusa a aceitar que padrões históricos de racismo permanecem enraizados na sociedade e nas instituições americanas modernas.

O chefe do departamento de ética e políticas públicas da denominação abandonou a confissão tal como a popular autora e palestrante Beth Moore, que lamenta o apoio dado a Trump por aquele grupo religioso, sobretudo devido ao persistente tratamento discriminatório deste para com as mulheres. O ex-Presidente dos EUA Jimmy Carter já tinha saído também.

No fundo, a Convenção Baptista do Sul corporiza aquela América sulista que tem saudades dos “bons tempos” do racismo e gerou o Klu Klux Klan. Receia um país que é cada vez mais multirracial, onde negros, latinos e asiáticos ganham peso político e social a cada dia que passa, e as mulheres assumem cada vez mais o seu papel na comunidade e nas igrejas, denunciando ao mesmo tempo o assédio sexual e a violência doméstica.

É o sobressalto da velha sociedade WASP, que conspirou durante dez anos contra uma Casa Branca onde residia um presidente negro, que nunca aceitou de bom grado e que ficaria horrorizado com uma mulher sentada na principal cadeira da Sala Oval.

São as dores de parto de um tempo novo que se aproxima inexoravelmente, e que levará cada vez mais as igrejas cristãs a fazerem uma escolha, optando por seguir a essência da sua fé ou os populismos que querem fazer a roda da História andar para trás.  

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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