Tudo bem, nada mal…

| 1 Out 19

Mulheres no mercado de Xipamanine, em Maputo (Moçambique). Foto © Teresa Vasconcelos

 

Quando há uns anos passei o mês de Agosto em Moçambique, fui tocada pela alegria e sentido positivo do povo moçambicano. Lembro-me de saudar as “mamãs” – as mulheres mais velhas – que vendiam frutas e legumes na rua perguntando-lhes: “Como vai a senhora?” Invariavelmente a resposta era “Tudo bem, nada mal!”… Uma lufada de ar fresco.

Um dia em que quase me perdi no mercado de Xipamanine, em Maputo (um mundo imenso onde se vendia tudo quanto possamos imaginar!), pensei: “A quem vou recorrer?”, e logo me lembrei das “mamãs” sorridentes e felizes nos seus trajes coloridos que cumprimentara à entrada do mercado. Tinha a certeza de que elas me acolheriam e ajudariam. Vidas duras e difíceis, muita pobreza, condições habitacionais pobres, inúmeros filhos cujos pais andavam por longe… e invariavelmente com um sorriso radioso, afirmando: “Tudo bem, nada mal!”

O povo moçambicano sabe rir, gargalhar, gozar a vida, tem um fino sentido de humor, uma imensa alegria de viver. E luta. Estive também na Beira, onde prevalecia o mesmo sentido positivo da vida. E ao receber as últimas notícias sobre o recente desastre ecológico, apesar da dor e do sofrimento, verifico que há sempre uma saída: “Tudo bem, nada mal!”.

Mulheres numa igreja em Maputo (Moçambique): “O sentido da vida convida-nos a ter uma esperança que é escolhida e conscientemente assumida.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Era difícil não estabelecer uma comparação com o nosso país onde, perante a mesma pergunta, a resposta é um “Vai-se andando…” e o olhar é sofrido. Trata-se de uma atitude totalmente oposta: arrastamos a nossa vida, centramo-nos apenas no negativo e numa autocomiseração triste, doentia e conformada. Esta forma de ver a vida descompromete-nos de um estado de alma proactivo enquanto cidadãos e cidadãs, pessoas-agentes que, apesar de dificuldades, acreditam na possibilidade de transformação ou, pelo menos, de alcançarmos alguma qualidade de vida. Em geral, somos cinzentos e tristes.

Moçambique foi salutar para mim. Aprendi a dizer “Tudo bem, nada mal” sem que isso correspondesse a uma atitude acrítica face às injustiças sociais. “Tudo bem, nada mal” tem-se tornado quase um mantra que pronuncio, mesmo que apenas para dentro de mim, um mantra que não me deixa desistir e me faz viver o presente de forma ativa e criadora.

O sentido da vida – nas suas inúmeras limitações e fragilidades, nos seus desastres e misérias – convida-nos a ter uma esperança que é escolhida e conscientemente assumida, porque não nos podemos esquecer de que somos um povo de ressuscitados.

Por isso faz sentido dizermos de forma consciente, crítica e afirmativa, de forma escatológica: “Tudo bem, nada mal”, enquanto insistimos em trabalhar para uma sociedade mais justa e respeitadora da terra em que vivemos.

Neste arranque do ano letivo, retemperados pelas férias, vale a pena cultivar esta atitude dentro de nós à medida que encontramos as dificuldades normais, as crises e contrariedades: “Tudo bem, nada mal!”

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e integra o movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

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