
“Um coração onde o afecto e a estima pairam na incondicionalidade, nada teme; não tem por onde se lhe roubem pedaços”. Foto: Cadeados do amor na Ponte do Açougueiro em Liubliana, Eslovénia. © Petar Milošević / wikimedia
Li num livro de Milan Kundera que “as metáforas podem ser muito perigosas” e que “o amor começa sempre com uma metáfora”. Estas frases soam-me em eco desde então, não fosse o meu vocabulário um território manco onde a muleta de todas as horas são precisamente as metáforas.
Certa vez, perguntaram-me o que eu achava que fosse a vida e, muito provavelmente por culpa do ambiente que se emaranhava madrugada acima entre copos de vinho a extasiarem-me a consciência, respondi sem pensar nem sentido: “O coração deve manter-se como a casa. A porta sempre aberta e recheado de tudo o que se agregue em afecto, e seja irroubável.” O meu amigo riu-se, com a leve naturalidade com que nos costumamos rir quando um de nós experimenta algum suspiro filosófico, rimo-nos sempre de tudo como quem ri de anedotas. Sorveu então mais um grande gole de vinho e pediu-me que lhe explicasse o devaneio. Eu, simplesmente, não sabia o que aquela muleta onde me havia apoiado tentava expressar e fiz um esforço para lhe achar um significado.
Segui: “Imagina uma casa: quanto mais materialismo nela houver, mais o proprietário quererá fechá-la com medo de ser roubado e menos aconchego elementar o ambiente proporcionará. Se, pelo contrário, a casa tiver apenas uma energia simbiótica de afetos, a porta permanecerá aberta porque não haverá medos relativamente a perdas de qualquer bem material; e o conforto da ternura expandir-se-á a quem quer que frequente esse lar. Numa casa em que há um fogo aceso, uma panela com chá e mantas não haverá margem para roubo nem necessidade de portas fechadas. De igual modo funciona o nosso coração.
Se está revestido de vaidades, arrogância, ganância, medo, ego e competição; teremos tendência a fechá-lo porque há uma probabilidade de que qualquer invasão nos dilacere com um roubo.
Uma crítica trará uma ruptura na vaidade e na arrogância, uma mentira, por sua vez, engasgará o ego até ao sufoco; sentir-nos-emos invadidos e roubados. Nesses corações, a única hipótese de sobrevivência é a mesma da casa munida de materiais, porta fechada e muito pouco para sentir. Para um coração desprovido de tais artimanhas, trancar portas perde o sentido, o medo dá lugar ao amor e a castração dá lugar à propagação.
Um coração onde o afecto e a estima pairam na incondicionalidade, nada teme; não tem por onde se lhe roubem pedaços. Descansa sereno na leveza inimaginável do altruísmo.
E é então que a vida acontece, que a essência irrompe e o ser se humaniza.”
Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.










