Exposição na Gulbenkian

Tudo o que Eu quero – Mulheres que ousam

| 26 Jul 21

Ouse, ouse… ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

(Lou Andréas-Salomé, Memórias)

Para ver as imagens, clicar sobre a foto

Tudo o que eu queria era deambular por uma exposição! Afirmar baixinho com cerca de 40 artistas portuguesas: Tudo o que Eu quero. Dizer alto, com convicção “EU” no meio de um coletivo que me arrasta…

Tudo o que eu quero – Artistas portuguesas de 1900 a 2020 é uma iniciativa do Ministério da Cultura em colaboração com a Fundação Gulbenkian, incluída no Programa Cultural da Presidência Portuguesa da União Europeia que recentemente terminou.

Helena de Freitas (historiadora de arte, crítica de arte e curadora) e Bruno Marchand (o novo programador de artes visuais da Culturgest) são os curadores desta exposição que reúne cerca de duas centenas de obras de pintura, escultura, desenho, objetos, livros, instalações e vídeo, produzidas por 40 mulheres artistas portuguesas, desde o início do século XX até aos nossos dias, estendendo-se portanto por um período de 120 anos.

O título da exposição, Tudo o que eu quero, é inspirado por uma da figuras mais fascinantes do começo do século XX, Lou Andréas-Salomé (LAS) (1861-1937). Esta ensaísta, filósofa, poeta, romancista e psicanalista abriu caminho a tantas outras mulheres no sentido da sua afirmação enquanto tal e de tomada de poder sobre as suas vidas com as próprias mãos, reivindicando o seu lugar. As artistas selecionadas situam-se neste espírito de subtileza, de afirmação e de poder: Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesm[a] ser um modelo para ninguém, lembra Lou Andréas-Salomé.

Um dos autorretratos de Aurélia de Sousa, pintado em 1900, talvez o mais conhecido, é o ponto de partida para uma reflexão sobre um contexto de criação que durante muitos séculos foi quase exclusivamente masculino. Nas palavras dos curadores, “o conjunto de obras, aqui reunido, constitui um documento em si mesmo da luta das suas autoras pelo pleno direito à sua voz”, “uma afirmação de autoria no feminino”, “uma passagem da mulher, de musa para autora”. Uma pequena pintura (que pessoalmente desconhecia) de Maria Helena Vieira da Silva “Moi refléchissant sur la peinture” (1936-37) representa a pintora afundada numa poltrona, faz contraponto com o autorretrato imponente e desafiador de Aurélia de Sousa. Mais adiante, Maria Antónia Siza (1940-1973) impressiona-nos com um conjunto de figuras femininas (sem título) sofridas, pungentes, distorcidas, “flutuantes” (catálogo), indicando um grande tormento: Seja na vida o que você é… alerta Lou Andréas-Salomé.

Artistas de referência como Maria Helena Vieira da Silva, Lourdes Castro, Paula Rego, Sarah Afonso, Salette Tavares, Helena Almeida, Joana Vasconcelos, Fernanda Fragateiro, Ana Hatherly, Menez, Ana Vidigal, estão presentes. Mas figuram muitas outras, umas mais, outras menos conhecidas, estas uma descoberta para mim… Ouse, ouse, ouse tudo! (LAS). São todas mulheres que ousaram ou ousam ainda. As artistas representadas oferecem ao público uma imagem ampla dos seus respetivos universos artísticos. Uma revelação e, simultaneamente, uma confirmação.

 

O corpo, o vivo, o político

Vieira da Silva, História trágico-marítima (1944). Foto © Teresa Vasconcelos.

 

O lindo e substancial catálogo bilingue apresenta as artistas por ordem cronológico-temporal na voz de vários escritores e curadores de arte e reproduz algumas das suas obras. Ao contrário a exposição está organizada por áreas temáticas ilustradas por obras das 40 artistas: Corpo; O olhar e o espelho; O doméstico; O vivo: O político; Quotidiano vernacular; Teatro do corpo.

Como afirmei atrás, Aurélia de Sousa inicia a exposição com um dos seus mais conhecidos autorretratos. Mas para mim a novidade foi encontrar ao longo das galerias outros autorretratos seus menos conhecidos, terminando, na área temática Teatro do Corpo, com uma pintura intitulada Santo António (1902) em que a face do santo é a própria face da artista. Helena de Almeida desafia-nos com as suas faces “armadilhadas” Ouve-me! (1979) e Paula Rego com o seu tríptico Vanitas (2006) entre outras obras. Menez (sem título, 1988) mostra-se numa postura contemplativa ao lado de livros preguiçosamente abertos sobre uma mesa. Detive-me junto à História Trágico-Marítima (1944) de Vieira da Silva: os finais da última grande guerra prolongam-se no cemitério de migrantes e refugiados em que se transformou hoje o Mediterrâneo. Pungente.

Na área do Quotidiano Vernacular aparece a escultura/instalação feita de collants multicolores de Joana Vasconcelos (Wash and Go, 1998). Já fora do recinto estava suspenso o célebre candelabro A Noiva (2001-2005). A Caixa Azul de Lourdes Castro (1963) impressionou-me pela multiplicidade de objetos azuis, sombrios, em fundo azul ainda mais sombrio. Nesta mesma área aparece uma Sala de jantar (uma instalação/silhueta arrendada e azul, Ana Vieira, 1971) e uma casa como que emparedada em madeira, Móveis ao Cubo de Patrícia Garrido (2013).

Na secção O Político, relembramos o PREC com Ana Hatherly e As ruas de Lisboa (1977) e A Revolução (1977). Pelas paredes, uma galeria de pinturas/cartazes de rua de diferentes autoras (muito vermelho, muita força anímica), lembrando o icónico cartaz 25 de Abril, A poesia está na rua de Vieira da Silva. Graça Morais mostra uma impressiva Caminhada do medo (2011) correspondente aos anos da “crise” de 2008. A obra exemplar de Maria Lamas (que começou por sair em fascículos), Mulheres do Meu País (1948-1950) é um grito de revolta face à situação das mulheres no tempo da ditadura. Ao lado, numa vitrine, um magnífico conjunto de esculturas da nossa popular “surrealista” Rosa Ramalho (1888-1977). Fernanda Fragateiro está representada, entre outras, com a lindíssima série lembrando livros abertos, Measuring (2011). Ana Vidigal emerge contundente na sua Bandalha, sou mais mazinha do que ela (2020). Uma real descoberta foram a escultura de Ângela Ferreira, Talk Tower (2012), acompanhada dos respetivos estudos em desenho, e Os Estores de Isabel Carvalho (2019) enormes, leves, magníficos…

 

“Queima como o fogo da vida”

Isabel Carvalho, Estores, 2019. Foto © Teresa Vasconcelos

Uma área da exposição, em que nos vidros dos quadros se refletem os jardins da Gulbenkian – uma beleza! –, intitula-se O Vivo. Um hino à natureza e uso (ou desuso) que fazemos dela: Uma Árvore cortada em cubos e montada em linha (Gabriela Albergaria, 1965), Sombras à volta de um centro – Lentilhas (1980) de Lourdes Castro ou Corgo (2020) de Maria Capelo. Uma perspetiva de regresso à natureza como lugar de trabalho, descanso e usufruição, sempre cuidando daquilo que é de todos/as nós – a vida. Porque gosto muito das tonalidades verdes, o canteiro de lentilhas de Lourdes Castro salientou-se-me aos olhos (neste caso, um pointillé) no meio de outras figurações de ervas aromáticas.

Não posso falar de todas as obras, a exposição é grande. Pretendo apenas fazer uma introdução à vol d’oiseau. Espero ainda voltar. Mas deixo aqui ficar os nomes de todas as outras artistas que afirmam, também, ao jeito de Lou Andréas-Salomé, Tudo o que eu Quero: Mily Possoz, Sarah Afonso, Ofélia Marques, Maria Keil, Maria José Oliveira, Clara Menéres, Maria José Aguiar, Luísa Cunha, Rosa Carvalho, Ana Léon, Joana Rosa, Armanda Duarte, Susanne Themlitz, Grada Kilomba, Patrícia Almeida, Carla Filipe, Filipa César, Inês Botelho, Sónia Almeida…

Eis algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!, segundo Lou Andréas-Salomé. Para quem ainda não partiu para férias, ou está a voltar, permanece na Fundação Gulbenkian, até ao dia 22 de Agosto, esta magnífica exposição (entrada livre). Trata de mulheres que ousaram, é uma afirmação de “autoria no feminino”, mostra artistas portuguesas de quem tanto nos orgulhamos. A não perder.

 

Tudo o que eu quero – Artistas Portuguesas de 1900 a 2020
Fundação Calouste Gulbenkian – Edifício sede (Galeria principal) e Museu (Galeria de Exposições Temporárias) – Av. de Berna, 45 A – Lisboa
Segundas, quartas, quinta e domingos, 10h-18h; sextas e sábados, 10h-20h; encerra às terças
Até 23 ago 2021
Lotação máxima: Galeria principal – 50 visitantes; Galeria de exposições temporárias – 25 visitantes

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e participante do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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