Tudo Sobre Deus, o novo livro do escritor José Eduardo Agualusa, conta a história de Leopoldo G. Borges, “geólogo e poeta conhecido e respeitado no seu país” que, à beira da morte, compra uma igreja abandonada no deserto do Namibe, em Angola, junto a um enorme penhasco debruçado sobre o Atlântico. “Leopoldo decide transformar os últimos meses de vida numa escavação — não de pedras, mas da própria alma”, lê-se na sinopse desta ficção de Agualusa. “Naquele silêncio mineral, escreve o seu diário, além de poemas, juntando reflexões, memórias, visões e presságios. No subsolo da capela em ruínas, Leopoldo descobre a réplica preservada desta, onde o tempo se dissolve e a morte espera, paciente.” E entre esses dois mundos o poeta busca a filha desaparecida, Gaia, e a si próprio.
“Tratado sobre o espanto – e uma história sobre a finitude, a memória, a culpa e a redenção”, é como a editora Quetzal, apresenta a história. “Sobre o amor entre um pai e uma filha; sobre a arte de despedir-se e o milagre de permanecer.” Um “romance iluminado pela luz estonteante do deserto, onde, contaminada pela ficção, a realidade se torna fluída e inconfiável” e que estará à venda na próxima quinta-feira, 30 de outubro. O 7MARGENS publica a seguir o primeiro capítulo.
Sobre a Solidão
Quando soube que estava a morrer, Leopoldo G. Borges comprou uma igreja abandonada, no deserto do Namibe, e fez dela a sua última morada. Na primeira noite em que lá dormiu foi despertado por um rumor profundo – logo a seguir, sentiu a terra estremecer.
Abriu o zip do saco-cama e, na escuridão, procurou o iPhone. Viu as horas: 4:13. Acendeu a lanterna do aparelho. Abriu um caderninho de capa amarela, com o número 27 escrito na lombada, a tinta preta, e anotou:
… Quarta-feira, 2 de abril de 2025, 04:13.
O chão tremeu levemente, como um vasto animal adormecido, virando-se no sono. Um estremecimento breve, mas inteiro. Foi como se a igreja respirasse por baixo de mim. O silêncio rangendo. As pedras bocejando, abrindo um olho, e depois o outro…
A igreja ergue-se a cem metros de um penhasco profundo. Adiante, para ocidente, estende-se o Atlântico. Em redor, expande-se o mais antigo deserto do mundo. Nem uma só casa, nem uma única árvore. Aqui e ali, arbustos espinhosos despenteiam a paisagem. Se caminharmos meia hora para o interior, iremos encontrar os primeiros exemplares de Welwitschia mirabilis, essa planta singular, antiquíssima, com a aparência de um polvo, que se tornou um símbolo do próprio deserto. E pedras, claro. Muitas, muitas pedras.
Leopoldo G. Borges, nome com que assinava ensaios científicos e livros de poesia, sempre gostou de pedras. Aos 6 anos, a caminho da escola, encontrou um pequeno fóssil. Chegou a casa agitadíssimo:
— Vê isto, papá, vê isto! Encontrei uma pedra que parece uma concha!
O pai, Pedro Fernandes Borges, era um homem penumbroso e melancólico que deixara a sua Goa natal para estudar Medicina em Coimbra, onde conhecera uma jovem angolana, Emília, finalista de Ciências Históricas e Filosóficas. Apaixonaram-se, casaram, e radicaram-se em Moçâmedes, onde vivia toda a família da moça — os simpáticos progenitores, três tias, uma das quais solteirona, e uma trupe de alegres e ruidosas primas.
O entusiasmo do garoto contaminou o pai:
— É um fóssil — disse-lhe. — Um animal muito antigo que se transformou numa pedra. Guarda-o bem. O teu primeiro fóssil.

“Capela Senhor Jesus dos Navegantes, no Namibe (Angola), que inspirou a localização do romance de José Eduardo Agualusa”. Foto: Direitos reservados.
Leopoldo perdeu a mãe antes de festejar 6 anos de vida. Um acidente absurdo: ao visitar uma amiga, em Luanda, Emília abriu a porta do elevador e entrou — e o elevador não estava lá. Nos seus diários, Leopoldo refere-se a ela em meia dúzia de entradas, quase sempre para lamentar não a ter conhecido melhor:
…Terça-feira, 19 de setembro de 2017. Da minha mãe guardo um punhado de vagas recordações. Sei que nenhuma delas é autêntica. Inventei-as ao longo dos anos para melhor suportar a ausência dela.
Por vezes, quando fecho os olhos, vejo-a na varanda da nossa casa, em Moçâmedes, o cabelo apanhado num coque, sacudindo uma toalha ao vento. Noutras, imagino-a inclinada sobre mim, medindo-me a febre com a palma da mão, ou penteando com paciência infinita o meu cabelo liso. Uma tia contou-me certa vez que Emília gostava de cantar baixinho sempre a mesma canção, enquanto preparava o almoço — «Manazinha», na versão da Lilly Tchiumba. Juro que também me lembro. A cada ano me recordo com mais nitidez — a voz dela deslizando como água.
Há ainda o cheiro do sabonete no seu vestido, numa tarde de vento, quando me pegou ao colo após uma queda. Continuo a sentir o algodão áspero na minha cara. Tudo o resto é ficção. Mas será que não é isso, afinal, uma mãe? A ficção que nos protege, mesmo quando já não está presente?
A descoberta do fóssil transformou Leopoldo num colecionador de pedras e, anos mais tarde, num geólogo respeitado. A poesia surgiu um pouco por acaso, enquanto percorria, como funcionário da Endiama*, os córregos das Lundas, no Nordeste do país, à procura de jazidas aluviais de diamantes.
A acreditar no que Leopoldo confessou a um jornalista no lançamento do seu décimo livro, Ensaio Sobre a Solidão, vinte anos após a independência, a poesia surgiu como alternativa à violência: «Havia muita raiva dentro de mim. Primeiro, antes da independência, raiva contra os colonos, raiva contra o colonialismo. A seguir a 1975, raiva contra os movimentos de libertação, que se matavam uns aos outros. Assassinavam inclusive os seus próprios militantes. A minha vontade era pegar numa catana e começar a cortar cabeças. Ao invés disso, sentava-me de noite, sozinho, no quintal, a escrever poesia, mas era como se estivesse a cortar cabeças.»

“Em Angola, durante os anos da revolução, os anos da ditadura do proletariado, os anos duros, distinguiam-se dois tipos de poetas: os torturadores e os torturados.” Foto: Capela Senhor Jesus dos Navegantes, no Namibe (Angola). Direitos reservados.
Num dos seus diários encontrei o seguinte trecho, que mostra como permaneceu isolado — ou, pelo menos, como se sentia isolado — nos anos violentos que se seguiram à independência:
…Terça-feira, 1 de fevereiro de 2005, 15:44.
Em Angola, durante os anos da revolução, os anos da ditadura do proletariado, os anos duros, distinguiam-se dois tipos de poetas: os torturadores e os torturados.
Os torturadores mandavam prender, interrogavam, torturavam. Os outros eram torturados. Eu nunca estive preso. Nunca mandei prender ninguém. Nunca torturei ninguém. Ambos os grupos me olhavam com desconfiança. «É preciso vigiar o Leopoldo», diziam os poetas torturadores. Os poetas torturados diziam o mesmo.
A ira era um dos melhores defeitos de Leopoldo. Isto disse-me Ana Maria, que, durante sete intensos anos, entre 2000 e 2007, partilhou a vida com ele. A ira? Sim, as explosões de ira — a justa ira!, a ira sagrada! —, continuou Ana Maria. Era fácil imaginá-lo a cortar cabeças à catanada. Nunca o fez, claro. Mas poderia tê-lo feito.
Sei do que Ana Maria fala. Assisti de perto a algumas dessas explosões. Há uns quinze anos viajei com Leopoldo, desde Luanda até ao Rio de Janeiro, a convite de um festival literário. Lembro-me dele, leve, solto, bebendo cerveja nas alegres noites cariocas, e contando piadas. Estava feliz com o reconhecimento que a sua obra poética começava a obter, expandindo-se para além de um círculo estreitíssimo de devotos.
Certa noite, dividimos uma mesa com um jovem autor português, cujo nome, graças a Deus!, não recordo mais. Lembro-me, contudo, da figura. Era um rapaz alto e magro, com uma cabeleira clara, redonda, que brilhava sobre a sua cabeça como um halo fantástico. Também me lembro que agitava muito as mãos, enquanto exibia a amargura palavrosa de quem se acha genial e injustiçado.
Leopoldo falou primeiro. Explicou que embora a sua poesia proviesse de um lugar de sofrimento e de revolta, era também uma expressão de amor pelo povo simples, os pescadores, os camponeses, seu mundo e linguagens.
Quando a moderadora me passou a palavra elogiei o trabalho do meu compatriota. Salientei que o ofício dele enquanto geólogo — o de escutar a Terra — se refletia na poesia. Toda a poesia de Leopoldo é um esforço de escuta, disse. Reparei, enquanto falava, que o português se retorcia na cadeira. Mal terminei, o jovem agarrou no microfone e, numa voz estridente, lançou-se num discurso áspero, confuso, atacando o «exotismo tropical» e aqueles escritores africanos que exploram o «remorso do homem branco» para melhor comercializarem os seus livros na Europa.

“Tenho pena de todos vocês, pobres diabos, que cresceram em apartamentos minúsculos e gelados! Eu cresci na imensidão!” Foto: Capela Senhor Jesus dos Navegantes, no Namibe (Angola). Direitos reservados.
Ia em crescendo, subindo de tom, multiplicando insultos numa embriaguez de rancor, quando Leopoldo se levantou e, sem pronunciar uma só palavra, o atingiu com um soco no nariz. O português caiu para trás — alguns leitores aplaudiram, outros protestaram —, e quando se levantou, com o rosto coberto de sangue, perdera o halo e a arrogância. A moderadora, aterrorizada, interrompeu a sessão.
O episódio repercutiu na imprensa. Explodiu um escândalo, houve ameaças de processos, e o meu inflamável compatriota nunca mais recebeu nenhum convite para visitar o Brasil.
Leopoldo foi sempre o pior inimigo dele mesmo, prosseguiu Ana Maria. Sabia encantar plateias, e quando acordava bem-disposto tornava-se o homem mais fascinante do planeta. Contudo, magoava-se com um ínfimo reparo, amuava se não lhe dedicavam toda a atenção, e era capaz de morder a mão de quem o afagava, só pelo prazer da dentada.
Uma vez organizei um jantar na casa dele, lembra Ana Maria, na altura era ainda a nossa casa, no Kinaxixi, juntando diplomatas escandinavos e meia dúzia de músicos, artistas e escritores da banda. Estava a correr tudo muito bem. Até ao momento em que a embaixadora sueca, uma senhora gentil, de modo plácidos, começou a elogiar o sistema político e social do seu país. Leopoldo tomou o entusiasmo dela como um ataque velado às debilidades de Angola e atacou:
— Tenho pena de todos vocês, pobres diabos, que cresceram em apartamentos minúsculos e gelados! Eu cresci na imensidão!
Na sequência deste episódio, Leopoldo ganhou a alcunha de «Camarada Imensidão», usada tanto pelos melhores inimigos quanto pelos piores amigos. Ainda hoje há quem ressuscite a alcunha, para troçar do poeta nas tertúlias literárias.
Enfim, concluiu Ana Maria, a ira, ainda que justa; o talento para satirizar os erros alheios; a intolerância à crítica; a inveja, o ciúme, o mau vinho, a propensão para a violência e para a melancolia, tudo isso contribuiu para que familiares, amigos, antigos colegas da Endiama, colegas da universidade, alunos e ex-alunos se fossem, pouco a pouco, afastando de Leopoldo.
Foram poucas as pessoas com quem se manteve ligado até ao final da vida — além de Ana Maria, o escritor moçambicano Mia Couto, que conheceu em Maputo, e com quem conversava regularmente sobre corujas e poesia; Corina Miranda, médica e antiga namorada; uma geóloga brasileira chamada Alma e Inácio Brito Capitanga.
Nota
* Diamang era o nome original da poderosa Companhia de Diamantes de Angola, fundada em 1917, com capitais portugueses, americanos, sul-africanos e belgas. Após a independência, em 1975, a Diamang foi nacionalizada, passando a chamar-se Endiama. Leopoldo trabalhou na Endiama entre 1980 e 1988. Abandonou a empresa na sequência de conflitos com um dos administradores da mesma. Poderia ter ganho muito dinheiro, quer na Endiama, quer, mais tarde, nos petróleos, após o país ter abandonado o modelo socialista, mas preferiu dar aulas na Universidade Agostinho Neto.










