O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.
Francisco é, realmente, um santo singular. E revela-se como tal inclusive no modo como encarou a sua morte.
Narram os que com ele viveram seus últimos momentos, que, ao sentir aproximar-se a “irmã morte”, Francisco manifestou o desejo especial de se despedir da sua amiga romana de longa data, Jacoba de Settesoli, e de saborear, pela última vez, os seus deliciosos biscoitos romanos (mostaccioli). A originalidade do Santo volta a surpreender-nos. Como uma grávida que ao morrer (verdadeiro parto) tem desejos aparentemente pouco “santos”, o Pobre de Assis quer despedir-se da terra saboreando uma guloseima que lhe lembra quão doce é a amizade e o amor puro e verdadeiro.
E Deus fez-lhe a vontade. Pouco tempo após o Santo ter manifestado tal desejo, alguém bateu à porta: com surpresa de todos, era a amiga Jacoba que pressentira a urgência e vinha despedir-se.
E como alguns dos seus frades se mostrassem incomodados, senão mesmo escandalizados, com a presença de uma mulher na clausura conventual, Francisco pacificou-os: “Com esta senhora não deve observar-se a norma da clausura.” Facto ainda mais espantoso é que ela não se tinha esquecido dos bolinhos tão apreciados por Francisco (Legenda Perusina, 101).
É só mais uma e última prova da ternura e humanidade de alguém que, longe de querer fazer da morte um espetáculo espalhafatoso ou mesmo miraculoso, nos ensina a morrer bem, depois de ter ensinado a viver melhor. Afinal que há de mais “comum” e familiar do que a morte? Francisco recuperou a vida, mas recuperou também a morte, irmanando-a com a vida. Para ele, a morte é o cume e a porta da vida, e toda a existência é um caminho de encontros só aparentemente interrompidos, o último dos quais, nesta vida, é com a “irmã” mais certa.
Se para todos morrer é uma “passagem”, para o cristão Francisco esse transitus é uma verdadeira Páscoa, e por isso, o Santo de Assis partiu cantando e celebrando com seus irmãos, com Jacoba e os seus biscoitos.
Jacoba de Settesoli era amiga do Santo e da Ordem havia alguns anos. Um dia o Santo confiou-lhe o cuidado de uma ovelhinha que tinham oferecido a Francisco e que aprendera com ele a acompanhar os irmãos no canto dos Salmos. Tendo acompanhado, com sentidas lágrimas, a morte de Francisco, mereceu, quando chegou a sua vez de partir deste mundo (cerca do ano 1239), o privilégio de ficar sepultada ao lado de Francisco, junto dos seus primeiros companheiros mais chegados.










