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Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

| 06/10/2026

 

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor.

Título: O mito do contexto. Autor: Karl Popper. A obra trata de problemas de epistemologia e história da ciência, aparentemente nada mais distante dos problemas de natureza ético-política que animam o conflito perpétuo sobre o lugar dos judeus na história e na sociedade. Ora, o mito que Popper quis refutar no artigo com o mesmo título formula-se assim:

«A existência de uma discussão racional e produtiva é impossível, a menos que os participantes partilhem um contexto comum de pressupostos básicos ou, pelo menos, tenham acordado em semelhante contexto em vista da discussão.» (O mito do contexto, ed. 70, 1999, p. 57)

De certa forma, entre 2023 e 2026, Guterres abandonou a pretensão de contextualizar (‘vejam lá, a coisa abjecta tem uma explicação com que podemos estar de acordo’) para aceitar, num ecumenismo político discutível, a ideia de incomensurabilidade dos percursos humanos e abandonar o sonho de um areópago planetário assente precisamente no pressuposto contrário, o da comum humanidade e de um horizonte moral partilhado de direitos e deveres inalienáveis. Algo que Popper certamente também não aceitaria.

Em introdução ao livro que venho citando, o filósofo explicava, com característica clareza, o ponto de partida para a redacção da sua obra mais conhecida – A Sociedade Aberta e os seus Inimigos – que entendeu resumir em duas linhas do 2º volume: «Posso estar enganado e tu certo, mas, pelo esforço, podemos aproximar-nos da verdade.» E acrescentando que os críticos foram surdos ao que escrevera contra os inimigos da liberdade, revela que o fez por recordar a réplica de um jovem nazi, pouco antes da subida de Hitler ao poder: «”O quê, quer discutir? Eu não discuto, disparo!”»

Poucos dias depois do crime, Delphine Horvilleur e Kamel Daoud debatiam o acontecido, Uma rabina, integrante da organização Judaísmo em Movimento – Associação Liberal, e um escritor franco-argelino de cultura muçulmana, conhecido por um romance tornado complemento obrigatório do Estrangeiro de Albert Camus – o muito interessante Meursault, contre-enquête, de 2013 –, encontravam-se nas páginas do Nouvel Observateur (26.10.2023)  para nos lembrar, entre outras coisas, que os assassinos em massa, como os que vitimaram centenas de milhar de argelinos na guerra civil do anos 90,  são variações prosaicas dessas figuras do horror geradas num caldo cultural que suprime o direito à opinião divergente: «Estou zangado porque sou muçulmano de cultura e porque na minha geografia me recusam o direito à expressão e à distinção subtil (nuance), porque quereriam forçar-me a uma unanimidade monstruosa que não é a minha.» E acrescenta, não podendo ser mais claro: «…continuo estupefacto perante o naufrágio moral do que chamam a sociedade árabe.[…] falo daqueles que se considera serem portadores de consciência, os intelectuais. Estou em vias de descobrir o limite em que param de reflectir. Não pensava que houvesse um tal abismo da lucidez.»

A resposta de Delphine Horvilleur resume uma perplexidade que persiste ainda hoje, talvez hoje mais do que naquele momento que testou o discernimento moral de todos, embora, na monstruosidade dos actos, parecesse convocar a piedade universal: «A lucidez vem da palavra luz, mas hoje o que domina é a obscuridade. […] Depois do 7 de Outubro, o que me pareceu mais louco foi que não encontrei uma voz palestiniana em França para denunciar o Hamas. […] Há anos que me empenho em denunciar o governo de Nethanyahou, o horror da ocupação, a deriva da sociedade, a sua hybris, etc., e fiquei siderada por não encontrar uma voz palestiniana em França para dizer “a nossa causa é justa, os palestinianos têm direito a uma terra, mas não por estes meios.”»

No ano seguinte, Delphine Horvilleur publicava uma importante reflexão sobre o 7 de Outubro. São 10 «conversas», como lhes chama. Por exemplo «conversa com a minha dor», «…com a paranóia judaica», «… com os anti-racistas», «… com aqueles que me fazem bem», ou, a finalizar, «…com o Messias». Com o título Comment ça va pas? Conversations après le 7 octobre, continua por traduzir em língua portuguesa como, de resto, obras tão importantes como Vivre avec nos morts (2021) ou, num outro registo, Il n’y a pas de Ajar (2022).  A autora vai publicar por estes dias Sermons sous les décombres. Reflexão ética, política e teológica de extrema urgência e oportunidade, é o que oferece esta, ainda jovem, rabina.

 

João Santos é professor. 

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