
A alegria da irmã Elisabete Almendra e de duas das jovens que acompanha na diocese de Wau, Sudão do Sul, no dia em que estrearam as bicicletas que recentemente conseguiram adquirir. Foto: Direitos reservados
Há precisamente um ano, quatro jovens do Sudão do Sul desembarcavam no aeroporto de Lisboa, para aquela que seria a primeira participação de sempre de um grupo daquele país nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ). Ao chegarem, depois de uma autêntica odisseia de obstáculos que pareciam intransponíveis, confessavam ao 7MARGENS: “Se nós conseguimos estar na JMJ, então nada é impossível”. Passado um ano, falámos com a missionária portuguesa que acompanhou o pequeno grupo a Lisboa. Apesar da difícil situação que se vive no Sudão do Sul, a alegria na voz da irmã comboniana Elisabete Almendra permanece: “Ir à JMJ renovou a nossa esperança e deu-nos muita força. E têm acontecido pequenos milagres…”, revela.
“A vida aqui continua a ser muito difícil e os desafios são enormes”, reconhece a missionária, que todos tratam carinhosamente por irmã Beta. “Há muita pobreza, há muita fome, e isto é um ciclo: se as crianças e jovens não se alimentam, ficam doentes… não vão à escola. Ou então, para conseguirem sobreviver, procuram trabalho… as raparigas vão servir em cafés e bares à beira da estrada, muitas vezes são vítimas de abusos sexuais, engravidam… e desistem definitivamente da escola”, lamenta a religiosa, cuja principal missão é prestar apoio a jovens como elas, para que possam “romper o ciclo”, prosseguir os seus estudos até ao ensino universitário e ter “uma vida melhor do que têm os seus pais”.
Num país em que apenas 16% das raparigas com mais de 15 anos continuam a estudar, a situação tem vindo a piorar também porque “há milhares de pessoas a chegar do vizinho Sudão em guerra”. A maior parte destas pessoas, explica a irmã Beta, não são refugiadas, mas sim retornadas. “Fugiram do Sudão do Sul para o Sudão quando a guerra era cá, e agora que o Sudão está a ser destruído veem-se forçadas a regressar… Mas aqui já não têm nada, o que significa que vão para casas de familiares ou amigos… E onde antes viviam dez já com dificuldade, agora vivem 20, com ainda mais dificuldades”, assinala a missionária, que chegou a Wau – a segunda cidade mais populosa do Sudão do Sul – no início de 2021.
Na iminência da realização de novas eleições, aquela que é a nação mais jovem de África (comemorou 13 anos de independência no passado dia 9 de julho), continua a sofrer com a anarquia, falta de serviços, corrupção e má administração dos recursos disponíveis. “Os funcionários públicos estão já há nove meses sem receber… As escolas deixaram de funcionar, os hospitais também… só as instituições privadas e da Igreja continuam abertas, e com muito esforço”, alerta Elisabete Almendra, que neste momento teme pelo futuro de duas das jovens que foram consigo à JMJ, Rejoice e Nyadeng. “Quando regressámos de Lisboa, elas ficaram na capital, Juba, porque conseguiram entrar na universidade, e ambas estão agora a terminar o primeiro ano de Medicina, o que é maravilhoso. Mas os professores já avisaram que os resultados dos últimos exames não vão sair se os seus salários não forem pagos, e recusam-se a iniciar o novo ano letivo, que supostamente devia arrancar já em agosto…”, conta.

A irmã Beta com as jovens Rejoice e Nyadeng, à entrada da escola Bento Franco, na Ericeira, onde foram acolhidas durante a JMJ Lisboa 2023. Foto © Clara Raimundo
Rejoice e Nyadeng não regressaram ainda a Wau – que fica a cerca de 600 km de Juba – por causa dos elevados preços das viagens e da insegurança que se vive no país, mas a missionária contacta regularmente com elas pelo telefone. É também através do telefone, e apesar da fraca rede móvel, que conta ao 7MARGENS uma das mais recentes conversas que tiveram: “Agora que passou um ano desde a JMJ, perguntei-lhes o que ainda carregam dessa experiência… Responderam-me que deixaram de ter medo, que a fé delas cresceu, e também o seu amor… o que é muito bonito”.
As duas raparigas são um exemplo para as meninas mais jovens que a irmã Beta continua a acompanhar nas quatro paróquias da diocese de Wau. “A experiência na JMJ foi algo que nos encheu o coração e que me deu mais força para prosseguir esta missão, para contrariar aquele espírito de que, por não termos dinheiro, não podemos fazer nada. Isso não é verdade, e pudemos ver isso com a ida à Jornada, com o Papa e com aqueles jovens de todo o mundo que lá estavam. Com Jesus, podemos sempre fazer alguma coisa, mesmo que pequenina, nem que seja um jogo de futebol”, diz, entusiasmada, a missionária de 53 anos.
Prova disso é que ela própria tem assumido o papel de “treinadora” nos jogos de futebol que dinamiza regularmente entre as jovens. Através do pároco da sua terra natal, a Ericeira, no Patriarcado de Lisboa (o mesmo que dinamizou a recolha de fundos para que o grupo do Sudão do Sul pudesse vir à JMJ), Elisabete Almendra conseguiu um “pequeno milagre”, como gosta de lhe chamar: que a Federação Portuguesa de Futebol oferecesse todo o equipamento – incluindo as chuteiras – para as meninas poderem treinar. “Agora, jogamos futebol todos os domingos para passar uma mensagem de união e de paz e de que realmente estas jovens conseguem fazer diferente”, afirma, orgulhosa.

Algumas das jovens da diocese de Wau a treinar com o equipamento oferecido pela Federação Portuguesa de Futebol. Foto: Direitos reservados
A possibilidade de adquirir quatro bicicletas foi outro dos “pequenos milagres” que aconteceu neste último ano, fruto de alguns donativos recebidos. “As bicicletas têm sido muito importantes para ajudar nos trajetos de casa para a escola ou para a igreja, porque as distâncias em Wau são realmente muito grandes. E também servem para ajudar as jovens a perceber que podem andar de bicicleta em vez de usarem outros meios de transporte e que há muitas vantagens nisso, especialmente económicas”, explica.
Num país em que é difícil fazer planos a longo prazo, a missionária comboniana admite que nem ousa, por enquanto, sonhar com a ida à JMJ de Seul, em 2027. “É claro que gostaria muito de levar algumas meninas, mas para já o meu grande objetivo é levá-las ao Quénia ainda este ano, no âmbito de um projeto que temos vindo a desenvolver”, adianta. Trata-se de uma iniciativa que visa torná-las embaixadoras da Talitha Kum, uma aliança internacional de religiosas contra o tráfico humano.
“O tráfico de pessoas é um problema real aqui… Muitas meninas não têm noção dos riscos que correm, acham que, se saírem do país, tudo vai ser mais fácil… Mas depois acabam nas redes de tráfico e prostituição, sem conseguirem sair delas porque ficam sem nada e têm de lutar para sobreviver”, sublinha a irmã Beta, justificando assim a importância da iniciativa. “Este projeto dá-lhes formação sobre os riscos que correm, sobre os seus direitos e obrigações, e sobre a importância de falar… Porque aqui há uma cultura muito grave do silêncio, que faz com que as jovens sofram muitas vezes sem dizer nada”, acrescenta.
Prestes a terminarem a formação, que até agora decorreu em modo online, as jovens participantes têm já ido a algumas escolas de Wau para transmitir o que aprenderam. “E a formação vai terminar com um encontro presencial no Quénia, por isso estou a ver se consigo levá-las… Espero que seja mais fácil do que foi ir até Portugal”, diz, soltando uma gargalhada.

Algumas jovens da diocese de Wau durante a formação online para se tornarem embaixadoras da aliança Talitha Kum contra o tráfico de pessoas. Foto: Direitos reservados
A rede móvel continua a não ajudar e a chamada cai várias vezes, mas a irmã Beta não quer desligar definitivamente sem antes contar mais um motivo da sua alegria. “Ontem mesmo, fui levar à universidade uma das jovens que tenho acompanhado e que terminou o secundário. Se tudo correr bem, vai ser enfermeira. Ela estava tão feliz por poder continuar os seus estudos! E eu fiquei tão feliz por ela! Conseguimos pagar a propina, que é de 100 dólares para um ano… Sei que em Portugal pode parecer pouco, mas aqui é inalcançável para a maioria das pessoas”, partilha.
Mais um feito tornado possível com as ajudas que vão chegando à missão das irmãs combonianas em Wau. “E também com a oração de tantos, que sei que rezam por nós e pelo nosso trabalho”, sublinha a irmã Beta, sem disfarçar a emoção. “Isto só mostra que Jesus está connosco e está realmente vivo, como sentimos na JMJ. E só assim é que os pequenos milagres podem continuar a acontecer”, conclui.









