Um destes dias estava num sítio público e entrou um casal, o que, por si, seria só normal e espectável. É de facto um corrupio de entra e sai o que define aquele lugar. As pessoas em causa teriam cerca de 60 anos, embora o que, delas, chamasse à atenção fosse, não a idade, mas o aspeto e a exuberância,
Pensei de imediato no que é preciso parar de fazer ou nunca deveríamos ter começado, sob pena de nos aprisionarmos em ridículos que, uma vez adotados, passam a ser realmente nossos. E, como o tema é delicado, decidi narrar o que pensei de uma forma metafórica e quase poética. Só não o é realmente porque não sei fazer poesia. Aí vai.
Ao cruzar o limiar dos 50 ou 60 anos, a vida oferece-nos um novo fuso horário. A consciência de que teremos mais passado do que futuro não pode ser um crepúsculo, mas sim uma manhã de Outono, na qual a luz é mais dourada e as sombras mais longas e definidas. É uma etapa de colheita e, sobretudo, de seletividade, na qual o filtro da experiência apura o essencial. Não se trata de uma lista de proibições, mas sim de uma declaração de independência e de liberdade.
Se há algo que a maturidade nos ensina é que as amarras que, por vezes, carregamos se tornam fardos insuportáveis, especialmente quando o tempo, esse tesouro inestimável, se revela como uma moeda algo mais escassa. Desde a, por assim dizer, Primavera da vida, já deveríamos saber o que fazer com ele, mas, agora, só precisamos de não nos enganar, ainda que, alguns, apenas estejam a fazer esta aprendizagem quendo ela já não é facultativa.

“De repente, a simplicidade do que somos e o caminho que percorremos valem muito mais do que todos os bens que possamos possuir.” Foto © Gerd Altmann / Pixabay
Deixar brigas estéreis e sem sentido pedagógico e útil passa a ser a primeira alínea do regulamento para bem existir; não querer mudar o passado é também uma subalínea, um pilar de paz interior. A nossa história está escrita, e cada capítulo, por mais imperfeito ou doloroso que seja, moldou o leitor dela que hoje somos Tentar reescrever o que já é tinta seca é uma batalha perdida que drena a energia do momento presente. A sabedoria está em ler o manuscrito, aprender com ele e fechar o livro para nos dedicarmos à página em branco que se abre a cada manhã.
A par desta aceitação fundamental, impõe-se a recuperação da voz. Chega o tempo de silenciar a autoimposição de ter de ser sempre forte. A armadura, que antigamente serviu para proteger o jovem guerreiro das intempéries do mundo, torna-se demasiado pesada para o viajante maduro. Permitamo-nos a vulnerabilidade. Permitamo-nos ser humanos e dignos. A fragilidade não é o oposto da força. É o seu complemento honesto.
E se a armadura cede, a máscara deve cair. É o momento de nos proibirmos de calar para agradar. A autenticidade não é negociável na maturidade. Manter relações que só se perpetuam por conveniência ou sustentar uniões frágeis que se mantêm porque nos diminuímos ou nos silenciamos, é uma forma mais ou menos lenta de autoflagelação. Se for necessário curvar-se para manter um laço, esse laço não é corda, mas grilhão.
A reavaliação dos relacionamentos é um imperativo existencial. As ligações verdadeiras, as que resistiram às marés revoltosas e às tempestades bravas, não precisam que nos diminuamos ou que sacrifiquemos a nossa essência. Pelo contrário, quem nos ama de verdade alegra-se com as nossas conquistas e aceita, sem reparos nem mexericos, as nossas limitações.
Considero também crucial parar de negligenciar a saúde psicológica e emocional. Na nossa cultura, o cuidado da alma ainda é visto, por vezes, como um luxo ou um sinal de fraqueza, quando, na verdade, é só um ato de sabedoria e de coragem. Procurar ajuda não é admitir a falência, mas sim investir no próprio bem-estar, garantindo que o tempo que se tem seja vivido com plenitude e clareza. E, neste processo, a escolha das pessoas e dos lugares de escuta é determinante. A alma só se abre em território seguro.
Chegamos a uma fase na qual a distinção entre ter e ser se torna gritante. De repente, a simplicidade do que somos e o caminho que percorremos valem muito mais do que todos os bens que possamos possuir.
É tempo de reconhecer e desativar o efeito tóxico da abundância. O materialismo compulsivo é uma espécie de âncora perversa que nos impede de navegar. Fica tudo cá. O património real é a coleção que vamos fazendo de memórias, de vivências e das partilhas que fazemos delas. No final, somos tão somente o arquivo do que experimentámos.
Relativizar as coisas deve guiar o nosso quotidiano. O que parece urgente hoje, será, em breve, areia que se levanta no deserto ventoso. A nossa energia deve ser direcionada para aquilo que tem ressonância, para o que alimenta o propósito e o sentido e não para o protagonismo balofo da exibição.
Cada tempo do nosso tempo é uma nova etapa com as suas exigências e os seus potenciais. Reavaliar a vida para a ressignificar deve ficar como uma tarefa persistente do ser maduro.

“Os objetivos não diminuem. Eles ajustam-se à realidade física e emocional de cada fase, ganhando em profundidade o que, porventura, percam de intensidade.” Foto © Matthew Bennett / Unsplash
Não somos os mesmos aos 20, aos 40 ou aos 60 anos. Os nossos projetos devem ter uma dimensão proporcional à década que estamos a atravessar. Na juventude, construímos longas pontes. Mais adiante, desenhamos jardins e escrevemos criteriosamente a síntese de cada canteiro. Os objetivos não diminuem. Eles ajustam-se à realidade física e emocional de cada fase, ganhando em profundidade o que, porventura, percam de intensidade.
Finalmente, esta nova cronologia exige um pacto consciente com a vitalidade, que é mais do que a ausência de uma doença. É o compromisso de fazer exercício regular para manter a mobilidade do corpo; é a escolha de comida variada para nutrir este equipamento e é, acima de tudo, a manutenção da curiosidade, esse motor do existir. A socialização deve ser um prazer, não uma imposição de presença. O propósito e o sentido são criados, ativamente, a partir de cada escolha.
Em síntese, todos os tempos deveriam ser tempo de total honestidade emocional e intelectual. Não é obrigatório nem muito sábio querer parecer sempre feliz. A plenitude reside na aceitação do ciclo completo de diferentes emoções. A liberdade na idade adiantada é, no fundo, a licença para ser verdadeiramente quem somos, despidos dos “deverias” impostos e focados apenas no que realmente importa – A qualidade e o significado do tempo que temos. Este é, sem dúvida, o último, único e mais belo ato de liberdade.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt










