Um Bom Dia para as maganas

| 22 Dez 2023

Ovelhas. Pastor

“Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse.” Foto © Wiggler / Pixabay

 

Era um ano de seca na região algarvia e o rebanho estava faminto.

Na manhã cujo relato se segue, Toine Baguinhe – o pastor – aventurou-se para lá da 125 na esperança de encontrar erva húmida com que alimentar as 500 ovelhas que pastava.

Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse.

E assim foi. Toine Baguinhe sentou-se, encostado ao cajado sob o alívio de ver o rebanho nutrido, enquanto as ovelhas se lambuzavam, e adormeceu.

Lá estava ele – cabeça pendida de boné pousado nos cabelos já grisalhos e crespos, blusa dupla de flanela ao xadrez, casaco de cabedal e calças de ganga gasta – quando o Quim de Abril, que ali passava de bicicleta, lhe gritou:

– Zinhe Toine, Zinhe Toine … Oh, Zinhe Toine.

O homem acordou atordoado com os gritos do rapazito, que se aproximava pedalando à máxima velocidade possível.

–  Qué que foi, Quim? Deixas-me em cuidados a gritar dessa maneira… mas o que é que foi?

–  Zinhe Toine – respondeu o rapaz enquanto derrapava com a bicicleta para estacioná-la junto ao pastor – estão duas ovelhas dentro do Bom Dia a comer as alfaces, Zinhe… as mulheres estão cheias de medo, não há meio de enxotá-las. Eu disse que vinha chamá-lo.

–  Ai, maganas… lá se safaram daqui… atão mas que jête os cães não terem dado conta?? Raios partam…ai que grande veneno que ê cá já tenho.

Entretanto, ao fundo, pelo caminho de terra batida, surgiu o jipe da GNR. Vieram dizer ao Toine que teria de se deslocar ao estabelecimento para retirar as ovelhas de lá.

–  Oh sô guarda, más atão… e que é que eu faço com estas que estão aqui? não posso deixá-las sozinhas. Por mor de quê que na vai o sô guarda buscá-las para aqui?

–  Eu? – respondeu o Guarda indignado – Eu não, homem, sei lá eu lidar com os bichos.

Entretanto, no Bom Dia, as duas fugitivas mamavam tudo que era hortaliça e fruta na secção dos frescos. As empregadas da casa, assustadas, refugiaram-se atrás da caixa registadora.

O Sr. Guarda virou costas ao pastor, entrou no jipe e seguiu sem pronunciar uma única palavra. O Quim de Abril deixou a bicicleta pousada junto ao Toine, tirou um baraço que tinha – por sorte – na mochila, e regressou ao Bom Dia com a missão de resgatar as ovelhas.

Não demorou a voltar com os bichos atados. Soltou-as no meio do rebanho; enrolou o baraço e guardou-o de novo na mochila, montou-se na bicicleta e seguiu.

–  Até amanhã, Zinhe Toine …
– Tchau, Quim, obrigadinhe, pah.
– Sempre às ordens, vizinhe…

O Toine não voltou ao Bom Dia com medo de ter de pagar a despesa que as velhacas haviam contraído.

“Se ao menos chovesse, se ao menos chovesse os bichinhos não passavam fome” – pensava ele de regresso à fazenda, enquanto atravessava o pasto seco do montado.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; Depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em breve, meu amor” e ” O Homem do trator”.

 

Diocese de Braga propõe criação de ministério para o acolhimento e escuta

Sínodo sobre a sinodalidade

Diocese de Braga propõe criação de ministério para o acolhimento e escuta novidade

Apontar para a criação de novos ministérios na Igreja Católica e repensar os já existentes, apostando na formação de leigos para esse fim e tornar os conselhos pastorais efetivos nas comunidades cristãs, com funções consultivas, mas também “executivas” são alguns dos caminhos propostos pela Arquidiocese de Braga, no âmbito da consulta sinodal tendo em vista a segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, que ocorrerá em outubro, no Vaticano. [Texto de Manuel Pinto]

Todos são responsáveis pela missão da Igreja

Relatório síntese do Patriarcado para o Sínodo

Todos são responsáveis pela missão da Igreja novidade

A necessidade de todos serem responsáveis pela missão da Igreja; o lugar central da família; a atenção às periferias humanas; a importância de ouvir as vozes dos que se sentem excluídos; o reforço dos Conselhos Pastorais Paroquiais; e a promoção da participação das mulheres nos ministérios, incluindo a reflexão sobre “a matéria pouco consensual” da sua ordenação – são alguns dos temas referidos no documento elaborado pela comissão sinodal do Patriarcado de Lisboa no âmbito da preparação da segunda assembleia do Sínodo sobre a sinodalidade.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Cada vez mais crianças morrem na Ucrânia por causa da guerra

“Aumento acentuado”

Cada vez mais crianças morrem na Ucrânia por causa da guerra novidade

O número de crianças mortas em território ucraniano devido à guerra com a Rússia está a subir exponencialmente. Em março, pelo menos 57 crianças morreram e, já durante os primeiros dez dias de abril, 23 perderam a vida. “A UNICEF está profundamente preocupada com o aumento acentuado do número de crianças mortas na Ucrânia, uma vez que muitas áreas continuam a ser atingidas por ataques intensos, 780 dias desde a escalada da guerra”, afirma Munir Mammadzade, representante na Ucrânia desta organização das Nações Unidas de apoio humanitário à infância.

Papa cria comissão independente para escutar as vítimas de abusos

Dominicanas do Espírito Santo, em França

Papa cria comissão independente para escutar as vítimas de abusos novidade

O Papa Francisco acaba de ordenar uma nova visita apostólica ao instituto francês das Dominicanas do Espírito Santo, a fim de aprofundar denúncias de abusos que ali se terão verificado nos primeiros anos da década passada. Esta decisão, anunciada por um comunicado emitido pelo próprio instituto nesta segunda-feira ao fim do dia, vem adensar ainda mais o contexto de várias polémicas vindas a lume nos últimos tempos, na sequência da expulsão de uma religiosa, decidida em 2021 pelo cardeal Marc Ouellet, então prefeito da Congregação para os Bispos

Interfaces relacionais insubstituíveis

Interfaces relacionais insubstituíveis novidade

Numa típica sala de aula do século XVIII, repleta de jovens alunos mergulhados em cálculos e murmúrios, um desafio fora lançado pelo professor J.G. Büttner: somar todos os números de 1 a 100. A esperança de Büttner era a de ter um momento de paz ao propor aquela aborrecida e morosa tarefa. Enquanto rabiscos e contas se multiplicavam em folhas de papel, um dos rapazes, sentado discretamente ao fundo, observava os números com um olhar penetrante. [Texto de Miguel Panão]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This