
“Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse.” Foto © Wiggler / Pixabay
Era um ano de seca na região algarvia e o rebanho estava faminto.
Na manhã cujo relato se segue, Toine Baguinhe – o pastor – aventurou-se para lá da 125 na esperança de encontrar erva húmida com que alimentar as 500 ovelhas que pastava.
Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse.
E assim foi. Toine Baguinhe sentou-se, encostado ao cajado sob o alívio de ver o rebanho nutrido, enquanto as ovelhas se lambuzavam, e adormeceu.
Lá estava ele – cabeça pendida de boné pousado nos cabelos já grisalhos e crespos, blusa dupla de flanela ao xadrez, casaco de cabedal e calças de ganga gasta – quando o Quim de Abril, que ali passava de bicicleta, lhe gritou:
– Zinhe Toine, Zinhe Toine … Oh, Zinhe Toine.
O homem acordou atordoado com os gritos do rapazito, que se aproximava pedalando à máxima velocidade possível.
– Qué que foi, Quim? Deixas-me em cuidados a gritar dessa maneira… mas o que é que foi?
– Zinhe Toine – respondeu o rapaz enquanto derrapava com a bicicleta para estacioná-la junto ao pastor – estão duas ovelhas dentro do Bom Dia a comer as alfaces, Zinhe… as mulheres estão cheias de medo, não há meio de enxotá-las. Eu disse que vinha chamá-lo.
– Ai, maganas… lá se safaram daqui… atão mas que jête os cães não terem dado conta?? Raios partam…ai que grande veneno que ê cá já tenho.
Entretanto, ao fundo, pelo caminho de terra batida, surgiu o jipe da GNR. Vieram dizer ao Toine que teria de se deslocar ao estabelecimento para retirar as ovelhas de lá.
– Oh sô guarda, más atão… e que é que eu faço com estas que estão aqui? não posso deixá-las sozinhas. Por mor de quê que na vai o sô guarda buscá-las para aqui?
– Eu? – respondeu o Guarda indignado – Eu não, homem, sei lá eu lidar com os bichos.
Entretanto, no Bom Dia, as duas fugitivas mamavam tudo que era hortaliça e fruta na secção dos frescos. As empregadas da casa, assustadas, refugiaram-se atrás da caixa registadora.
O Sr. Guarda virou costas ao pastor, entrou no jipe e seguiu sem pronunciar uma única palavra. O Quim de Abril deixou a bicicleta pousada junto ao Toine, tirou um baraço que tinha – por sorte – na mochila, e regressou ao Bom Dia com a missão de resgatar as ovelhas.
Não demorou a voltar com os bichos atados. Soltou-as no meio do rebanho; enrolou o baraço e guardou-o de novo na mochila, montou-se na bicicleta e seguiu.
– Até amanhã, Zinhe Toine …
– Tchau, Quim, obrigadinhe, pah.
– Sempre às ordens, vizinhe…
O Toine não voltou ao Bom Dia com medo de ter de pagar a despesa que as velhacas haviam contraído.
“Se ao menos chovesse, se ao menos chovesse os bichinhos não passavam fome” – pensava ele de regresso à fazenda, enquanto atravessava o pasto seco do montado.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; Depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em breve, meu amor” e ” O Homem do trator”.









