
“O pão é bem melhor que antigamente, que ficava emborrachado num instante, pensa mas não diz D. Georgina.” Foto © Nuno Caiado
Ontem, 09h45. Manhã comum. Quatro bolas e um pão de forma, se faz favor, diz a mulher ao comprar pão na padaria. O pão é bem melhor que antigamente, que ficava emborrachado num instante, pensa ela.
Hoje, 17h44. Uma vulgar tarde primaveril na cidade. No bulício de fim de dia, dois jovens de uns vinte e poucos anos, um com certeza cabo-verdiano, o outro indiano ou paquistanês, quem sabe, conversam no passeio. Disciplinados, esperam que o semáforo para os peões fique verde. Insolitamente, ambos trajam integralmente de branco. Riem, parecem bem-dispostos.
17h45. O sinal ficou verde, atravessam a Estrada de Benfica. São avistados pela D. Georgina e pelo Senhor Amaro, um casal de reformados vai para seis anos, com pouco para lidar, um filho e um neto, ambos fugidios, uma casa de duas assoalhadas cuja última prestação foi paga há quatro anos. Estão sentados no café que fora do Senhor Arlindo, hoje não sabem de quem é. Lancham com gosto um galão e sandes de queijo ela, de fiambre ele, aliás o pão é bem melhor que dantes. Olham a rua através da montra, mais limpa que no tempo do senhor Arlindo – que era só moscas, pensa mas não diz o Senhor Amaro. É através dela que veem os dois jovens de branco a atravessar a rua.
Ainda às 17h45. A D. Georgina e o Senhor Amaro comentam o trânsito dos jovens, ele irritado: isto é gente de fora, do karaté ou lá o que é, daquelas coisas chinesas de dar porrada. Ela, rancorosa: pois, deixam-nos vir para cá para aprenderem a fazer-nos mal, deviam era mandá-los a todos para a terra deles.
17h46. Na rua os dois jovens não sonham que estão a ser observados. Dois segundos depois de pisarem o passeio, a D. Georgina e o Senhor Amaro deixam de ter ângulo para os ver. Entram para a padaria ao lado do café que fora do Senhor Arlindo. Eram padeiros, iriam pegar no turno de fim da tarde.
No dia seguinte, 09h38. Quatro bolas e um desses pães de forma, diz a D. Georgina ao comprar pão na padaria. Na mesma padaria em que aqueles dois jovens trabalharam a noite inteira. O pão é bem melhor que antigamente, que ficava emborrachado num instante, pensa mas não diz D. Georgina. Aliás, por isso, também o café que fora do Senhor Arlindo se abastecia naquela padaria.
***
(Baseado num episódio real testemunhado na Estrada de Benfica pelo meu amigo Manuel Mendes, nomeadamente a parte dos dois jovens de branco, bem-dispostos, a atravessar a rua, e o diálogo do casal que se transcreveu tal qual. O resto é para o romance.)










