Um choque em cadeia

| 4 Out 2023

Viaturas. Sustentabilidade

Foto retirada de vídeo “Sustentabilidade: desafios da década 2020”, BCSD Portugal

 

Imagine que está na rua à espera do seu filho que o vem buscar de carro, e, de repente, vê um choque em cadeia. Vários carros embatem uns nos outros, o do seu filho incluído, e algumas pessoas sofrem lesões graves. O trânsito é intenso, e os carros que vêm da rua adjacente não sabem ao que vêm. Certamente vão ficar presos neste congestionamento e, na pior das hipóteses, poderão chocar contra os automóveis já no meio do desastre, sobretudo se vierem com muita pressa. A solução é mesmo procurar outro caminho, ou sair do carro ou ir à raiz do problema e tentar ajudar. Esse é, aliás, o seu ímpeto, enquanto observador e em virtude da relação que tem com pelo menos uma das vítimas. E afinal de contas, quanto mais carros vierem, mais a situação se agrava. Mas ao seu lado está alguém que lhe diz “não seja catastrofista” e outra “eles resolvem”. Uma mais sonhadora diz “o ideal era não haver carros de todo”. Ora, a catástrofe já foi desencadeada. E a solução, de facto, não é nem a negligência, nem a passividade, nem o idealismo ingénuo.

O mesmo se passa com as alterações climáticas que já estamos a sofrer. O mundo não vai acabar? Com certeza, ele vai aqui continuar mesmo prescindindo da nossa presença ou fustigando-a. Ninguém escapa das consequências deste colapso planetário que já se está a desenrolar, embora uma minoria esteja mais protegida por viver em países com melhores infra-estruturas ou menor vulnerabilidade. E ainda assim, já na Europa, América do Norte e Oceânia temos vítimas mortais e deslocados forçados devido a fenómenos extremos potenciados pelo aquecimento global. O que é certo é que ninguém pode ignorar os dados: 2023 foi o ano mais quente de sempre. Por isso, são cada vez mais recorrentes os fenómenos extremos um pouco por todo o mundo (e.g., cheias, derrocadas, secas, incêndios cada vez mais indomáveis), causados pela maior concentração de gases com efeito de estufa na história do planeta.

A indústria fóssil é responsável por 91% de emissões de CO2 e, por mais greenwashing que nos queiram impingir, a verdade é que não há incentivos para reduzir a sua actividade. As conferências das Nações Unidas sobre esta matéria não produzem metas vinculativas, tanto que, muito em breve, vamos ultrapassar a barreira assinalada no Acordo de Paris. Chegamos inclusive ao absurdo de a próxima conferência (COP28) ter lugar no Dubai e ser presidida pelo director executivo de uma empresa nacional de petróleo. Como nota o novo presidente do IPCC, Jim Skea, vamos superar em breve o aumento de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais, o que trará reacções em cadeia e consequências imprevisíveis para a população humana em inúmeros aspectos: catástrofes naturais, segurança alimentar, movimentos migratórios forçados, entre outras. Um verdadeiro choque em cadeia. E não podemos anunciar soluções ainda inexistentes, como o recurso ao hidrogénio ou a geo-engenharia duvidosa como a resposta ao problema. A resposta é o investimento na energia renovável, a alteração dos sistemas de produção alimentar e eventualmente o decrescimento económico nos países industrializados.

Quem não está numa posição de decisão política ou económica de larga escala não se encontra numa posição de total impotência no sentido de exigir esta mudança. Vários movimentos cívicos têm agido para tentar travar ou pelo menos abrandar o colapso climático. Exemplo disso é a onda de acções judiciais contra Estados e grandes empresas da indústria fóssil tendo como razão principal a inacção climática ou a insuficiência das suas metas. Alguns destes casos foram bem sucedidos, como o processo da Urgenda contra a Holanda (2019), da Friends of the Earth contra a Shell (2021), ou mais recentemente de um conjunto de jovens contra o Estado do Montana, nos Estados Unidos (2023).

Com as suas fragilidades, os resultados destes processos são ainda assim concretos, como a antecipação do encerramento de centrais de carvão na Holanda, a alteração das metas da Shell de redução de emissões e a proibição de novos projectos de extracção fóssil no Estado do Montana. Também o Supremo Tribunal Federal dos Estados Unidos negou o pedido da Exxon de transferir vários processos a nível estatal e local para o nível federal. Tipicamente, os processos a nível local e estatal tendem a favorecer os queixosos.

Talvez a acção judicial dos jovens portugueses junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) contra os seus Estados signatários, e que agora decorre, não tenha a mesma sorte, uma vez que há vários argumentos que não abonam a favor da sua reivindicação, nomeadamente o facto de os jovens não terem esgotado as vias legais do seu país antes de recorrer ao TEDH ou a dificuldade em provar que os queixosos se constituem como vítimas de uma ameaça concreta. Ainda assim, este processo tem o simbolismo relevante de mostrar mais um exemplo de uma geração empenhada em usar as vias democráticas para fazer valer a procura do bem comum. E assim se mostra também a indispensabilidade da democracia no avanço da acção climática, ao contrário do que sucede em certos Estados não-democráticos ou pouco democráticos e altamente poluentes, sendo a Índia, a China e os países da Península Arábica casos paradigmáticos. Penso que este exemplo também contraria a descrença compreensível de uma geração de activistas que pensa que o único recurso que lhes sobra é bloquear passagens e acossar directamente decisores políticos e económicos.

Hoje, 4 de Outubro, o Papa Francisco publicou a segunda parte da encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum – a exortação Laudate Deum. Do transcurso de 2015 e 2023, que mensagem de esperança terá o Papa para nos dar? Talvez sejam estes exemplos de persistência que lutam pelo bem comum diante da inércia dos principais actores desta economia que mata. Porque de resto, por enquanto, não há muito para nos animar.

 

Pedro Franco é doutorando em Teoria da Literatura na Universidade de Lisboa, bolseiro da FCT, e assistente convidado na NOVA SBE. É membro da Rede Cuidar da Casa Comum.

 

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra

Carta nos dois anos da guerra na Ucrânia

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra novidade

No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sessões gratuitas

Sol sem Fronteiras vai às escolas para ensinar literacia financeira

Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This