Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Desta vez – depois de um primeiro conjunto com temas dos Rolling Stones e de Judy Collins e um outro com John Cale e Leonard Cohen – trazemos aqui mais duas músicas escolhidas pelo jornalista Manuel Costa Monteiro para o programa Memória de Elefante, que mantém na TSF em co-autoria com Mário Fernando: Peace Train, de Cat Stevens, e A Paz, cantado pela brasileira Zizi Possi.

Cat Stevens (em 1976), hoje Yusuf Islam. Foto © William McElligott, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Cat Stevens, Peace Train
Uma canção composta por Cat Stevens, lançada em Setembro de 1971, na celebração do Dia [Internacional] da Paz. Uma metáfora que representa um movimento colectivo em direcção à paz.
Durante a guerra do Iraque foi um hino poderoso para a unidade e harmonia. Na altura, anos 70, estava na moda compor canções pacifistas de resposta ao medo e ao trauma da Guerra Fria e do Vietname.
Esta era diferente, de optimismo e esperança num mundo mais justo e pacifico, um peace train aberto a todos os que nele quisessem embarcar. No entanto, o trajecto de Cat Stevens foi polémico e contraditório: converteu-se ao [islão] em 1977, mudou o nome para Yusuf Islam, em 1989 fez declarações pouco pacifistas apoiando o apelo de Khomeini ao assassinato do escritor Salman Rushdie após a publicação do livro Versículos Satânicos.
Contraditório porque, posteriormente, Cat Stevens associou-se a diversas causas da paz. Em 2001, condenou publicamente os ataques terroristas islâmicos nos Estados Unidos. Em 2003 toma uma posição sobre a guerra do Iraque e coloca no seu site Peace Train, com uma declaração: “Como ser humano e muçulmano esta é a minha contribuição para uma solução pacifica.”
Tocou esta canção ao vivo na celebração do Prémio Nobel da Paz de 2006, entregue a Muhammad Yunus, autor do livro O Banqueiro dos Pobres, que fundou um banco para acabar com a pobreza porque, defendia, “é impossível ter paz enquanto houver pobreza”.
Cat Stevens, em 2021, gravou uma versão de Peace Train, com mais de 25 músicos de 12 países, um projecto de músicos de todo o mundo que tem promovido a formação de crianças em zonas de países carenciados. E é esta a gravação que vos trago:
Zizi Possi, A Paz
Hoje, o exemplo de como uma música inspirada numa namorada se tornou uma canção de apelo à paz que João Donato, músico, dedicou à sua namorada, Leila.
A canção surgiu duma visita a casa de Gilberto Gil. Donato levava consigo uma fita com várias gravações, todas elas chamadas Leila, e numeradas de 1 a 14. Esta era a Leila 4.
João Donato, cansado, tinha adormecido e essa imagem de paz que o sono sereno de Donato transmitia, inspirou Gilberto Gil. Uma imagem que lhe fez recordar o romance Guerra e Paz, de Tolstoi, e a letra é construída nessa contradição de que quase todas as guerras são feitas em nome da edificação da paz.
O texto é ilustrado com imagens violentas, bombas, explosões e também o massacre provocado pelas bombas atómicas lançadas no final da [Segunda] Guerra Mundial em Hiroshima e Nagasaki. Mas o resultado dessa explosão é, paradoxalmente, a paz. E é com essas representações agressivas e bélicas que Gilberto Gil elabora um texto pacifico e terno.
O poeta/letrista não evita o paradoxo: o mundo contemporâneo busca a paz através da guerra. A canção foi um sucesso, gravada pela primeira vez em 1987 por Zizi Possi, e incluída no álbum Amor e Música. Uma versão cantada da paz nascida da guerra e uma bomba sobre o Japão fez nascer o Japão de paz.
O texto, lido pelo autor na TSF, pode ser ouvido nestes dois ficheiros áudios:
Nesta rubrica já publicámos textos sobre a guerra da Ucrânia ou sobre o Afeganistão, bem como o apelo de paz feito por muitas mães israelitas e palestinianas, uma recensão de um álbum pela paz no meio da guerra da palestiniana Haya Zaatry, que parecia antever os dias de hoje. Dois discos do universo de Peter Gabriel, um da guineense Fattú Djakité, a história de uma escrava basca que chegou a rainha na corte do Al-Andaluz e a fusão do kamancheh iraniano de Kayhan Kalhor com a corá do maliano Toumani Diabaté completam o leque dos discos aqui trazidos.
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