AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores - António Madaleno

Um conto (quase) de Natal

| 01/01/2025

“A neve caía em flocos macios, transformando o mundo num imenso tapete branco. Olhei pela janela, com o meu nariz pressionado contra o vidro frio, e vi as crianças brincando na rua, celebrando os brinquedos que haviam recebido.”  Ilustração © António Madaleno, criada com inteligência artificial

 

O Natal, sempre foi para mim como um fantasma. Um espectro luminoso que via dançar pelas janelas dos vizinhos, mas que nunca cruzava a entrada da nossa casa. Cresci a ouvir que era uma celebração pagã, uma armadilha do Diabo para nos afastar do único Deus verdadeiro, Jeová. Mas lá no fundo, sempre senti uma ponta de inveja, ao ver as crianças da minha rua com os seus olhos a brilhar de felicidade e antecipação por essa noite mágica em que o Pai Natal desceria pela chaminé para lhes entregar os tão desejados presentes.

“O Pai Natal?! Apenas um personagem pagão, criado para substituir aquele que deveria ser o foco da celebração natalícia, Jesus” – era-me constantemente lembrado na congregação e em casa desde que tenho memória.

Lembro-me de uma noite em particular, quando eu tinha uns oito anos. A neve caía em flocos macios, transformando o mundo num imenso tapete branco. Olhei pela janela, com o meu nariz pressionado contra o vidro frio, e vi as crianças brincando na rua, celebrando os brinquedos que haviam recebido. O riso ecoava levemente, como um convite tentador a juntar-me a elas.

“Mãe, porque não posso ir brincar na neve como os outros meninos?”

A minha mãe suspirou, com os seus olhos cheios de condescendência. “Filho, essas coisas não são para nós. O nosso maior presente é o conhecimento da verdade.”

A “verdade”, para mim, naquele momento, era um conceito vazio, uma palavra que não conseguia preencher o buraco que sentia no peito.

Os anos passaram e, a cada Natal, a mesma sensação de vazio acompanhava-me. A casa, que antes era um refúgio seguro, revelou-se uma prisão. As doutrinas, que outrora me pareciam tão importantes, começaram a perder o sentido.

Quando finalmente decidi deixar a religião, senti um peso enorme sair das minhas costas. Era como se tivesse renascido. Comecei a explorar o mundo que me era negado, a experimentar novas sensações, a construir as minhas próprias tradições.

E agora, olhando para os meus filhos, abrindo os seus presentes debaixo da árvore de Natal, sinto uma alegria que reverbera pelo meu ser. Eles, enquanto crianças e livres das amarras que me aprisionaram, podem celebrar o Natal com toda a intensidade e inocência.

Ver a felicidade nos seus olhos faz-me lembrar de mim mesmo, de todas as vezes que sonhei com um Natal diferente. E enche-me de gratidão por ter conseguido construir uma vida onde os sonhos se tornam realidade. Onde a fantasia e ilusão é permitida como uma etapa do crescimento e amadurecimento.

O Natal, para mim, deixou de ser um fantasma e tornou-se uma celebração da família, da vida, do amor e da liberdade. Um lembrete de que, mesmo depois de anos de privações, é possível encontrar a felicidade. E a maior felicidade de todas é poder proporcionar essa mesma alegria para aqueles que amamos.

E assim, ano após ano, continuo a celebrar o Natal, não apenas como um ritual religioso milenar, mas como uma homenagem à criança que um dia sonhou com um mundo mágico de neve e presentes.

E como sinto uma gratidão infinita por poder proporcionar esse mundo mágico aos meus filhos!

 

António Madaleno é autor, investigador e activista na exposição de grupos de alto controlo.

O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoie-o-7-margens/
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assine-o-7margens-diario/
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This