
“A neve caía em flocos macios, transformando o mundo num imenso tapete branco. Olhei pela janela, com o meu nariz pressionado contra o vidro frio, e vi as crianças brincando na rua, celebrando os brinquedos que haviam recebido.” Ilustração © António Madaleno, criada com inteligência artificial
O Natal, sempre foi para mim como um fantasma. Um espectro luminoso que via dançar pelas janelas dos vizinhos, mas que nunca cruzava a entrada da nossa casa. Cresci a ouvir que era uma celebração pagã, uma armadilha do Diabo para nos afastar do único Deus verdadeiro, Jeová. Mas lá no fundo, sempre senti uma ponta de inveja, ao ver as crianças da minha rua com os seus olhos a brilhar de felicidade e antecipação por essa noite mágica em que o Pai Natal desceria pela chaminé para lhes entregar os tão desejados presentes.
“O Pai Natal?! Apenas um personagem pagão, criado para substituir aquele que deveria ser o foco da celebração natalícia, Jesus” – era-me constantemente lembrado na congregação e em casa desde que tenho memória.
Lembro-me de uma noite em particular, quando eu tinha uns oito anos. A neve caía em flocos macios, transformando o mundo num imenso tapete branco. Olhei pela janela, com o meu nariz pressionado contra o vidro frio, e vi as crianças brincando na rua, celebrando os brinquedos que haviam recebido. O riso ecoava levemente, como um convite tentador a juntar-me a elas.
“Mãe, porque não posso ir brincar na neve como os outros meninos?”
A minha mãe suspirou, com os seus olhos cheios de condescendência. “Filho, essas coisas não são para nós. O nosso maior presente é o conhecimento da verdade.”
A “verdade”, para mim, naquele momento, era um conceito vazio, uma palavra que não conseguia preencher o buraco que sentia no peito.
Os anos passaram e, a cada Natal, a mesma sensação de vazio acompanhava-me. A casa, que antes era um refúgio seguro, revelou-se uma prisão. As doutrinas, que outrora me pareciam tão importantes, começaram a perder o sentido.
Quando finalmente decidi deixar a religião, senti um peso enorme sair das minhas costas. Era como se tivesse renascido. Comecei a explorar o mundo que me era negado, a experimentar novas sensações, a construir as minhas próprias tradições.
E agora, olhando para os meus filhos, abrindo os seus presentes debaixo da árvore de Natal, sinto uma alegria que reverbera pelo meu ser. Eles, enquanto crianças e livres das amarras que me aprisionaram, podem celebrar o Natal com toda a intensidade e inocência.
Ver a felicidade nos seus olhos faz-me lembrar de mim mesmo, de todas as vezes que sonhei com um Natal diferente. E enche-me de gratidão por ter conseguido construir uma vida onde os sonhos se tornam realidade. Onde a fantasia e ilusão é permitida como uma etapa do crescimento e amadurecimento.
O Natal, para mim, deixou de ser um fantasma e tornou-se uma celebração da família, da vida, do amor e da liberdade. Um lembrete de que, mesmo depois de anos de privações, é possível encontrar a felicidade. E a maior felicidade de todas é poder proporcionar essa mesma alegria para aqueles que amamos.
E assim, ano após ano, continuo a celebrar o Natal, não apenas como um ritual religioso milenar, mas como uma homenagem à criança que um dia sonhou com um mundo mágico de neve e presentes.
E como sinto uma gratidão infinita por poder proporcionar esse mundo mágico aos meus filhos!
António Madaleno é autor, investigador e activista na exposição de grupos de alto controlo.
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